Neurodegeneração tem fatores de risco e prevenção ao longo da vida

Baixo acesso à educação, transtornos emocionais não tratados na meia-idade e perda parcial de visão sem acompanhamento estão entre as principais causas modificáveis.
02/10/2026 13h39

Existem doenças que avançam sem que ninguém saiba por quê. Nas doenças neurodegenerativas, a ciência ainda não conseguiu explicar por que alguns grupos de neurônios simplesmente começam a morrer, embora já se saiba que fatores genéticos, ambientais e o próprio envelhecimento estão envolvidos nesse processo.

Essa constatação vem de um estudo publicado na revista The Lancet Regional Health Americas. De acordo com a pesquisa, fatores como baixo acesso à educação, transtornos emocionais não tratados na meia-idade e perda parcial de visão sem acompanhamento estão entre as principais causas modificáveis. Isso significa que o problema não é só uma questão de destino, mas também de acesso à saúde e até escolhas feitas ao longo da vida.

Alzheimer, Parkinson e Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) são as doenças neurodegenerativas mais comuns, nessa ordem. Cada uma tem seus próprios mecanismos e sinais.

O neurologista Felipe von Glehn Silva, professor da Faculdade de Medicina da  Universidade de Brasília (UnB), explica que em muitos casos o processo de morte dos neurônios está ligado ao acúmulo de proteínas tóxicas no sistema nervoso. No Parkinson, por exemplo, uma proteína chamada alfa-sinucleína ataca aqueles que produzem o hormônio  dopamina.

Nenhuma dessas doenças, porém, tem uma causa única. A neurologista Ingrid Faber de Vasconcelos, também professora da Faculdade de Medicina da UnB, acrescenta que existe uma série de fatores de risco, alguns genéticos e outros ambientais. Na ELA, por exemplo, entre 80% e 90% dos casos resultam da combinação de vários fatores. Apenas de 10% a 20% têm origem genética conhecida, herdada de família. O envelhecimento, entretanto, é o fator de risco mais comum de todas elas. 

Entre os fatores ambientais, um dos maiores riscos é a formação de um ciclo que se retroalimenta. A perda sensorial, como não enxergar ou não ouvir bem, leva ao isolamento social. O isolamento acelera doenças como o Alzheimer. E a doença aprofunda ainda mais o afastamento do mundo. Por isso, intervenções simples e feitas na hora certa, como trocar os óculos quando necessário, podem interromper essa espiral e ajudar a preservar a memória.

Proteínas

As proteínas ligadas à neurodegeneração são fabricadas pelo próprio organismo. Mas em algum momento passam a ter um formato anormal, se acumulam dentro das células e neurônios e atrapalham seu funcionamento. Os cientistas ainda investigam por que isso acontece.

– O envelhecimento tem um papel importante nesse processo. Aquela síntese fica inadequada, aquela proteína que ali deveria durar um tempo, começa, por exemplo, a se depositar dentro dos neurônios, explica Ingrid. Esse acúmulo, segundo ela, pode comprometer também o funcionamento de outras proteínas saudáveis. Isso não quer dizer, porém, que envelhecer, por si só, leva a uma doença neurodegenerativa. Felipe reforça que a idade avançada aumenta o risco, mas não determina o surgimento da doença. As pessoas estão vivendo mais tempo, e, como essas doenças são favorecidas pela idade avançada, mais gente hoje chega à faixa etária em que o risco é maior. É por isso que os casos têm se tornado mais frequentes.

Exercícios

Para Alzheimer e Parkinson, a musculação tem um efeito protetor direto. Segundo Ingrid, quanto mais massa muscular a pessoa tem, menor é o risco de quedas, um dos principais fatores de agravamento nesses quadros. Para essas doenças, ela recomenda combinar musculação com atividades aeróbicas.

Já no caso da ELA, a orientação é outra. Ingrid explica que a musculação não é recomendada para quem tem a doença, porque estudos associam o exercício de força a uma progressão mais rápida do quadro, ainda que essa relação não seja comprovada. Ela cita como exemplo o fato de a ELA ser uma doença observada com mais frequência em atletas que sendentários. Nesse grupo, há uma preocupação especial com esportes em que há uma rotina de pancadas ou boladas na cabeça, como futebol, futebol americano e lutas.

Podcast

Os neurologistas Ingrid Faber e Felipe von Glehn Silva conversaram com a reportagem no episódio "Neurodegeneração: quando o cérebro se apaga", do podcast do SIS. Assista a íntegra abaixo: