Internação em casa pode ser um caminho para a cura

31/12/2020 00:00

Quase nunca a internação em hospital é agradável. Por melhor que sejam o cuidado, a enfermagem e os serviços de quarto, muita gente gostaria de estar mesmo se recuperando em casa – especialmente se for um período longo ou com maior risco de infecção hospitalar, como na atual pandemia da covid-19. É para isso que existe o serviço de home care, que literalmente significa "cuidado em casa". Por regra nos planos de saúde, o termo se aplica à internação semelhante à do hospital, embora popularmente seja estendido para todo tipo de assistência domiciliar, como para troca de curativos ou auxílio de um cuidador. A maior vantagem para o paciente internado em casa é estar no aconchego do lar, que dependendo da necessidade, pode receber cuidadores, médicos, enfermeiros, psicoterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, técnicos de enfermagem e o que mais for preciso para garantir a recuperação ou os cuidados paliativos necessários.

O modelo já amplamente adotado no Brasil beneficia não só pacientes, mas também as famílias, que querem estar próximas sem precisar sacrificar a rotina de trabalho e estudos dos demais integrantes.

Transferência

Sair do hospital e ir para casa não é muito simples. O paciente deve encontrar toda a segurança do hospital no seu próprio quarto. Nem todos os pacientes que estão internados podem ser transferidos para casa. No entanto, quando a pessoa já está há muito tempo no hospital, é hora de os médicos ponderarem se a recuperação ou o tratamento paliativo não seriam melhores ao lado dos parentes.

Tudo começa com um relatório do médico assistente dizendo que o paciente está estável clinicamente e apto a continuar sendo tratado em casa. Ainda no hospital é estabelecido um Plano de Atendimento Domiciliar (PAD) para internações em casa entre os médicos assistentes, a família e a empresa de home care. Nele é considerada a gravidade da condição do paciente, o que ele vai precisar, a rotina do lar e as condições da estrutura do local. Nesse relatório, o médico especifica os equipamentos e serviços necessários para dar continuidade e a família encaminha esse documento para a operadora de saúde.

O SIS e o Saúde Caixa têm empresas de home care credenciadas. Cabe a cada família escolher e pedir a visita do enfermeiro que fará a avaliação do paciente e da casa onde será o serviço. No caso do SIS, o beneficiário precisa de uma autorização prévia emitida pelo plano e depois pode buscar entre as três empresas credenciadas. Já no Saúde Caixa, o beneficiário procura diretamente a empresa credenciada de sua preferência e então é pedida a autorização e os peritos do Saúde Caixa fazem uma avaliação.

Com a anuência do plano, o home care se instala na casa do paciente. O hospital continua sendo o apoio para o paciente. Ambulâncias transportam a pessoa quando é preciso fazer consultas, exames ou dar um socorro mais complexo. Algumas vezes ele é internado novamente em momentos de crise e volta quando melhora, instalando um modelo híbrido de assistência.

Perfil

O PAD varia muito de acordo com a necessidade individual. Como ele trata da internação em casa, pode incluir, por exemplo, uma escala de técnicos de enfermagem ou de enfermeiros plantonistas. Médicos, enfermeiros visitantes e psicólogos podem encontrar o paciente uma vez por semana, nutricionistas fazem consultas a cada 15 dias, um fonoaudiólogo atende três vezes por semana, fisioterapeutas uma vez por dia. Dependendo da condição de cada paciente, é possível aumentar ou reduzir as sessões com cada profissional, ou incluir terapeuta ocupacional, ou reduzir a escala de plantonistas, por exemplo.

A psicóloga Marcela Fernandes, coordenadora da equipe multidisciplinar e responsável pelo controle de qualidade do Grupo Ágape, credenciado ao SIS, conta que uma extensa pesquisa é feita com o paciente e a família antes mesmo do retorno para o lar. A intenção é selecionar os profissionais com perfil mais adequado para atender aquela pessoa e, ao mesmo tempo, para se adaptarem à rotina.

A presença tanto do aparato médico quanto dos profissionais, explica Marcela, precisa ser o mais imperceptível possível, trazendo leveza numa fase difícil. A meta é ser menos invasivo e mais assertivo.

– Sempre procuramos acolher as famílias também. Precisamos escutá-las, perceber as rotinas diárias, as condutas entre os integrantes. Estar ali é participar do universo mais íntimo do paciente, é fazer laços com a família toda.

Marcela é paliativista há uma década, mas conta que cada história de vida ainda deixa nela profundas marcas. Como a do Fernando Jerônimo, um jovem atleta que ela acompanhou em 2019. Aos 32 anos, num check up para uma competição, descobriu câncer de próstata em estágio avançado.

– Ele era muito ativo, cheio de vida e lutou muito mesmo para sobreviver. Nós fizemos tudo por ele desde o primeiro dia e estivemos com a família mesmo depois do sepultamento.

Ela lembra momentos simples, como o dia em que pediu hamburger e danette, contrariando sua dieta saudável de atleta para satisfazer um desejo – ri com saudade

Equipe multidisciplinar

O maior público da Ágape continua sendo de idosos: dos 265 assistidos, 226 já passaram dos 60 anos, mas há 30 adultos e oito crianças aos cuidados de uma equipe que soma 50 profissionais e outros 550 colaboradores, entre médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos, etc.

O câncer, segundo Marcela, é uma das maiores causas de home care, mas a psicóloga aponta o crescimento no número de pacientes de outra doença devastadora: a esclerose lateral amiotrófica (ELA).

– Estamos vendo aumentar o número de pacientes. Essa doença é debilitante porque o cérebro e a cognição da pessoa permanecem inalterados, mas o corpo vai se enrijecendo. A mente está a todo vapor, mas o corpo responde pouco. É o motor de uma Ferrari colocado numa bicicleta – compara.

Gerente de enfermagem e auditora, Cádina Neves, da Indoor, outra empresa de home care credenciada pelo SIS, confirma o crescimento no número de pacientes de ELA em home care. A doença, segundo ela, exige a presença de enfermeiros e cuidadores quando chega a um estágio com mobilidade mínima, problemas de deglutição e respiração.

Cádina também aponta uma grande parte de pacientes com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), câncer e, mais recentemente, os sobreviventes da covid-19 que passaram muito tempo em UTI ou enfermarias e agora precisam de reabilitação com oxigenoterapia, fisioterapia de pulmão e cura de úlceras.

A equipe da Indoor tem 12 funcionários internos e cerca de 90 colaboradores, entre médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fono, terapeuta ocupacional, psicólogos e nutricionistas. Eles atualmente atendem a 65 pacientes, a maioria idosos.

Afeto da família

Cádina conta que o hospital além de ser mais caro para os planos financeiramente, tem um custo emocional alto para o paciente e para as famílias.

– O elo com a família é o que ajuda a recuperar as pessoas, o vínculo com a casa, com as pessoas que ama. O apoio psicológico, a visita dos netos, o abraço, a conversa reduzem o impacto da doença. Além disso, o índice de infecção em casa é quase zero e não tem o risco de infecção cruzada com outros pacientes.

O objetivo da Indoor, de acordo com Cádina, é trabalhar para dar alta o mais rápido possível, porque toda internação pesa no sistema dos planos de saúde e porque quanto mais cedo o paciente for reabilitado, melhor para todos.

– A internação precisa ter início, meio e fim, a não ser que a assistência seja para doenças irreversíveis mesmo – explica.

O SIS aconselha sempre como primeira opção a rede direta de credenciados, que atualmente tem três empresas de home care. Veja as opções (ordem alfabética) :

  • Ágape Assistência Domiciliar: (61) 3234-6053

  • Geroclinica Assistência Domiciliar Geriátrica: (61) 3347-0340

  • Indoor home care: (61) 3037-3444