Entrevista: Suleica Hagen, da Geroclínica, avalia o cuidado com o idoso em casa

Nessa conversa ela conta um pouco como é o home care geriátrico e reflete sobre o acompanhamento dos pacientes dentro do seu universo mais íntimo: a casa.
31/12/2020 00:00

O SIS já tem empresas de home care credenciadas para atendimento dos beneficiários que desejam internação domiciliar. Uma delas é a Geroclinica, que atualmente atende a 200 pacientes com necessidades diversas. "Desde um curativo até a infraestrutura completa de um hospital", explica a diretora executiva, Suleica Iara Hagen, mestra em Serviço Social com ênfase nas políticas públicas para idosos pela Universidade Federal de Santa Catarina. Nesta entrevista ela conta um pouco como é o home care geriátrico e reflete sobre o acompanhamento dos pacientes dentro do seu universo mais íntimo: a casa.

Suleica fala com conhecimento de causa do trabalho, desempenhado há quase duas décadas, mas também sabe o que é ser família anfitriã do serviço, já que assistiu a própria empresa cuidar do marido, o médico geriatra Renato Maia, até seu falecimento, no início de 2020.

SIS – Qualquer casa pode receber home care?

Suleica Hagen – Todo e qualquer cuidado ou assistência pode ser realizado no lar, desde que com segurança. Vai de uma simples fisioterapia até a montagem de uma UTI domiciliar com todos os equipamentos necessários para a manutenção da vida.  Para que o serviço seja prestado no domicílio o paciente deverá ser acompanhado em tempo integral por familiar ou cuidador. Ele pode estar na casa de parentes, numa instituição asilar ou até em um apart-hotel – o importante é receber a assistência necessária para se reabilitar.

SIS – Em que casos home care é uma opção interessante?

Suleica – Sempre que o paciente necessitar de cuidados específicos de saúde. Seja por uma semi-dependência das atividades de reabilitação pontual, ou com um dependência mais complexa, onde seus cuidados são necessários para manutenção da vida diária. Nesse caso transferimos os cuidados hospitalares para a residência, onde o paciente fica próximo de família, amigos e das suas referências pessoais. Nós respeitamos a individualidade e a história de cada um.

SIS – A família pode optar pelo serviço de internação por home care em vez de manter o paciente internado no sistema hospitalar?

Suleica –  A solicitação do serviço de home care através dos planos de saúde exige pontuação de critérios de elegibilidade para internação domiciliar. É necessário solicitação médica e uma avaliação da operadora de saúde para liberação da assistência em domicílio. É mais comum isto ocorrer quando o paciente já está em um hospital e necessita de cuidados específicos. Porém, em alguns casos o paciente já é acompanhado em domicílio e solicita avaliação para acessar este serviço.

SIS – O home care é voltado apenas para o público idoso ou pessoas em reabilitação podem usar?

Suleica – O home care atende todas as idades, desde um bebe recém nascido até um paciente em cuidados terminais. Não existe distinção por faixa etária, apenas por critério de necessidade. Podem ser doentes crônicos, vítimas de acidentes automobilísticos, quedas, violência com sequelas, pessoas com patologias desconhecidas e aqueles  já no fim da vida.

SIS – O serviço pressupõe cuidados paliativos ou há casos de completo restabelecimento da saúde?

Suleica – Felizmente existem casos de completo restabelecimento dos pacientes. Por exemplo, alguém fratura o fêmur e após os quatro primeiros meses pode receber alta. Em outros casos, por se tratarem de doenças crônicas, degenerativas e com múltiplas patologias a assistência dura mais tempo, ou até mesmo em cuidados terminais.

SIS – De uma maneira geral, do que os idosos mais precisam?

Suleica – De atenção verdadeira. Os cuidados específicos serão definidos de acordo com a necessidade de cada um, mas todos precisam de amor e cuidado. Nós somos aquilo que plantamos. Na velhice não mudamos a nossa personalidade ou nosso caráter. Sementes de uma vida são colhidas na velhice e uma frase que sempre ouvimos é "viver é tão bom e tão rápido".

SIS – Esses anos de trabalho rendem uma coleção de histórias significativas…

Suleica – Muitas. Certa vez fui convidada para o aniversário de um paciente. Quando abriram a porta, lá estava ele com todos os dispositivos possíveis alimentando seu corpo, uma taça de champanhe na mão e um sorriso largo no rosto. No dia seguinte ele faleceu ... foi uma despedida da vida em grande estilo.

SIS – Nem todos têm a chance de deixar a vida dessa forma, não é?

Suleica – Sentimos também a tristeza daqueles que sofrem o silêncio do abandono, das escolhas equivocadas ou mesmo dos medos que os afastaram de uma vida mais feliz.

SIS – Estar dentro da casa cria uma relação com a família do paciente?

Suleica – Sim. Eu sou muito grata por todas as famílias que nos permitem viver suas histórias. Cuidamos sempre do grande amor de alguém – um pai, uma mãe, um cônjuge. Nós estamos aqui para ajudar a família a suportar as dificuldades que uma doença gera em todos, não apenas no paciente. A casa é o lugar mais sagrado na vida das pessoas. É onde somos nós mesmos, o nosso espaço mais íntimo, onde está tudo o que nos importa. E nós fazemos parte disso.