Imunoterapia: mais chances no tratamento do câncer e em fases iniciais da doença
Quando a medicina já não tem o que oferecer para o paciente de câncer e antes de o paciente ir para o paliativo, chega a fase da imunoterapia, certo?
Errado. Muito errado, aliás. Imunoterapia é o nome dado aos tratamentos que usam o sistema imunológico para combater a doença. Ao contrário do que muita gente pensa, ela pode ser indicada logo no início do tratamento do câncer, e não apenas como último recurso. Em alguns casos, chega a substituir a quimioterapia.
No câncer, o tratamento ajuda o sistema de defesa a encontrar e destruir células doentes. Médicos já usam essa terapia em diferentes momentos, e não somente em casos avançados. A indicação, aliás, não depende apenas do momento em que a doença é descoberta. Há situações em que a imunoterapia é indicada em fases iniciais e outras em que é utilizada em estágios mais avançados. A escolha considera o tipo de câncer, o estágio da doença e as características de cada paciente, explica a oncologista Camila Donini, do Grupo Oncoclínicas.
— O mais importante não é necessariamente iniciar a imunoterapia o mais cedo possível, mas utilizá-la quando há uma indicação adequada, e é preciso levar em consideração o tipo de câncer, o estágio da doença e as características de cada paciente. O melhor resultado vem do tratamento certo, para o paciente adequado, no momento necessário.
Em alguns casos, essa terapia chega a dispensar a cirurgia. Um caso de sucesso conhecido no mundo médico foi o da americana Maureen Sideris, de 71 anos, que tinha câncer de esôfago e participou de um estudo clínico em Nova York. Ela recebeu o medicamento dostarlimabe a cada três semanas.
Em quatro meses, o tumor desapareceu. Ela não precisou de cirurgia, quimioterapia nem radioterapia. Dos 103 pacientes que terminaram o tratamento, 84 tiveram resposta clínica completa, sem sinal detectável do tumor. O grupo tinha sobretudo câncer de reto e de cólon, além de estômago, bexiga e esôfago, entre outros, todos com o mesmo perfil genético: deficiência no sistema de reparo do DNA.
Casos como esse não representam todos os pacientes. A imunoterapia já é utilizada em diferentes tipos de câncer e, em alguns deles, pode ser indicada em fases iniciais com o objetivo de aumentar as chances de cura. Entre os tumores que podem receber esse tratamento estão melanoma, câncer de mama, pulmão, rim e bexiga.
A resposta ao tratamento também varia entre os pacientes. Dados compilados em estudos do National Institutes of Health (NIH) mostram que a taxa de resposta varia de 20% a 40% em tumores sólidos. Cerca de 5% dos tumores apresentam o perfil genético que permitiu o tratamento sem cirurgia no estudo realizado em Nova York.
Algumas vezes, o tratamento entra antes da operação. No câncer de pulmão, um estudo internacional, o CheckMate816, mostrou que aplicar imunoterapia junto com quimioterapia antes da cirurgia aumentou a chance de o tumor desaparecer. O tratamento também prolongou o tempo sem que a doença voltasse ou piorasse, em comparação com a quimioterapia sozinha.
A imunoterapia também pode ser usada depois da cirurgia, em uma abordagem conhecida como terapia adjuvante. Nesse caso, o tratamento é administrado após a remoção do câncer com o objetivo de ajudar o sistema imune a identificar e destruir células tumorais que possam ter permanecido no organismo.
A escolha entre usar a imunoterapia sozinha ou em combinação com outros tratamentos depende do tipo de câncer, do estágio da doença e das características do tumor, explica Camila. Em alguns casos, ela é associada à quimioterapia ou a terapias-alvo. Também existem situações em que dois tipos de imunoterapia são utilizados juntos.
No câncer de mama, por exemplo, quando a imunoterapia é indicada, ela é utilizada em associação à quimioterapia. Já em determinados casos de câncer de pulmão e melanoma, pode ser utilizada isoladamente.
Sem retorno
Um dos principais equívocos entre pacientes é acreditar que a imunoterapia deve ser utilizada em todos os casos de câncer. A existência de resultados expressivos em alguns tumores não significa que o tratamento seja indicado para qualquer paciente.
— Da mesma forma, a imunoterapia não é eficaz para todos os tipos de câncer e a escolha do tratamento deve ser individualizada, considerando as características do tumor e as evidências científicas disponíveis — ressalva Camila.
Entre os tipos que ainda apresentam baixa resposta à imunoterapia, especialmente quando utilizada isoladamente, estão a maioria dos tumores de próstata, de pâncreas, do glioblastoma –tipo agressivo de câncer cerebral – e do câncer colorretal com estabilidade de microssatélites (MSS).
Colaterais
A imunoterapia não necessariamente provoca efeitos colaterais mais leves que a quimioterapia. Os tratamentos provocam reações diferentes no organismo, segundo Camila.
— São efeitos colaterais diferentes. A imunoterapia causa efeitos conhecidos como imunomediados, não costumam ser os efeitos clássicos de uma quimioterapia. Em alguns casos, é como se houvesse uma inflamação em alguns órgãos e isso levasse aos sintomas, por exemplo diarreia, coceira e manchas na pele, alterações na tireoide e, mais raramente, inflamações nos pulmões ou no fígado.
Algumas complicações também podem permanecer mesmo depois que a imunoterapia é suspensa. Alterações hormonais provocadas por inflamações na tireoide ou na hipófise, por exemplo, podem exigir reposição hormonal pelo resto da vida.
Segundo Camila, essa possibilidade é uma das questões que o paciente deveria discutir com o profissional responsável pelo tratamento, mas é uma dúvida que nem sempre aparece durante consultas.
— Alguns efeitos podem persistir mesmo após a suspensão da Imunoterapia e o acompanhamento médico continua sendo fundamental após o término do tratamento.
Tratamento
Na maioria dos casos, a imunoterapia é administrada por via intravenosa, em clínicas ou hospitais especializados. As aplicações costumam ocorrer em intervalos de duas, três, quatro ou seis semanas, de acordo com o medicamento e o protocolo utilizado. A duração do tratamento também varia conforme o tipo de câncer e o estágio da doença.
Um dos próximos avanços da área pode estar na identificação de características capazes de indicar quais pacientes têm maior chance de responder ao tratamento. Esses marcadores podem ajudar a selecionar melhor os pacientes que se beneficiarão da imunoterapia e evitar tratamentos desnecessários e possíveis efeitos colaterais.
A expectativa também é ampliar o uso da imunoterapia para tipos de câncer que hoje apresentam pouca resposta e desenvolver novas combinações que aumentem sua eficácia. Outra frente é expandir seu uso para fases mais iniciais da doença quando houver indicação e evidências de benefício.
Para Camila, o objetivo é avançar na personalização dos tratamentos.
— Eles precisam ser eficazes e com menor toxicidade, proporcionando não apenas mais tempo de vida, mas também mais qualidade de vida.
Dicas da especialista
1. Mantenha uma alimentação equilibrada: Priorize comida de verdade, como frutas, verduras, legumes e proteínas. Uma boa alimentação ajuda a manter a força e a disposição durante o tratamento.
2. Pratique atividade física: Se possível, mantenha uma rotina de exercícios, sempre respeitando seus limites. A atividade física ajuda a reduzir o cansaço, preservar a massa muscular e melhorar o bem-estar.
3. Cuide da hidratação: Beba água regularmente ao longo do dia. Manter uma boa hidratação é importante para o funcionamento do organismo, especialmente durante o tratamento.
4. Encontre força na fé e na espiritualidade: A fé e a espiritualidade podem ser importantes fontes de conforto, esperança e força para enfrentar os desafios do tratamento com mais serenidade.
5. Esteja perto de quem você ama: Mantenha contato com amigos, familiares e pessoas que fazem bem. Ter uma rede de apoio e compartilhar os momentos difíceis ajuda a tornar essa fase mais leve.
Reportagem: Ana Cavalcante / Supervisão: Milena Galdino