Intestino

Maioria reconhece sintomas de câncer, mas metade ignora o que as fezes tentam dizer
24/07/2026 12h20

Vai ao banheiro, evacua, olha no vaso e vê sangue. Dá descarga e fica aquela dúvida: será que está tudo bem? Oito em cada dez brasileiros diriam que o corpo está dando um sinal grave. Mas a quase a metade dos que já passaram por isso não vai atrás para saber o que está realmente acontecendo. O problema é que o câncer de intestino tem 90% de chance de cura quando detectado cedo. Enrolar para fazer exames pode ser o diferencial entre a vida e a morte.

Uma pesquisa do A.C. Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa mostra que  67% dos entrevistados reconhecem o sangue nas fezes como possível sintoma da doença, mas dois em cada três sequer conhece o teste imunoquímico fecal (FIT) que detecta sangue oculto nas fezes, muitas vezes, antes mesmo de o sangramento aparecer a olho nu. O FIT depende apenas de uma amostra de fezes entregue num laboratório. A sensibilidade para detectar o sangue varia de 85% e 92% para identificar alterações que podem indicar câncer, e quem tem resultado positivo é encaminhado para colonoscopia, considerado o método mais confiável para confirmar o diagnóstico.

O câncer colorretal é um dos tipos mais comuns no país. O Instituto Nacional de Câncer estima 53.810 novos casos por ano no Brasil no triênio 2026 a 2028. É a terceira posição entre os tumores mais frequentes, atrás apenas dos cânceres de mama e de próstata. Idade acima de 45 anos, sedentarismo, excesso de peso, consumo de álcool, tabagismo e baixa ingestão de fibras estão entre principais fatores de risco listados pelo instituto.

O A.C. Camargo chama atenção ainda para outro ponto: o crescimento de casos entre pessoas mais jovens. Segundo o hospital, a incidência de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos cresceu cerca de 3% ao ano no estado de São Paulo, entre 2000 e 2023. Não existe uma explicação definitiva para esse aumento – embora a suspeita maior recaia sobre a dieta rica em ultraprocessados e pobre em fibras – mas ele é tão preocupante que as autoridades em saúde no mundo inteiro vêm reduzindo de 50 para 45 anos a idade  indicada para início do rastreamento.

Os especialistas são unânimes: o tempo entre notar um sintoma e buscar avaliação médica é decisivo. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de tratamento e cura. O coloproctologista Luiz Felipe de Campos Lobato e a nutricionista Wanessa Quintão reforçaram esse ponto em uma palestra recente no Senado Federal, detalhando a prevenção do câncer colorretal na prática.

De acordo com o médico, a doença é altamente prevenível porque quase todos os tumores surgem a partir de um pólipo, uma lesão milimétrica na mucosa do intestino. O verdadeiro objetivo dos exames de rastreamento, principalmente a colonoscopia, é encontrar e remover essa lesão antes que ela evolua.

Risco

Embora apenas 5% dos casos de câncer de intestino tenham causa genética direta, ter histórico na família aumenta o risco da doença. Por isso, quem tem parentes de primeiro grau (pais ou irmãos) diagnosticados com câncer colorretal deve antecipar o rastreamento: os exames devem começar aos 40 anos ou 10 anos antes da idade em que o familiar descobriu a doença, o que ocorrer primeiro. Para quem já apresenta sintomas, a regra muda: passa a ser um caso de investigação diagnóstica urgente, que deve ocorrer independentemente da idade.

O coloproctologista alerta que alguns sinais exigem atenção se durarem mais de 30 dias. É o caso de alterações no hábito intestinal, seja diarreia ou prisão de  ventre, dor abdominal persistente, perda de peso sem explicação e o tenesmo, que é a vontade frequente de evacuar sem conseguir. Cansaço fora do normal e anemia por deficiência de ferro, especialmente em homens e mulheres na pós-menopausa, também são sinais de alerta, pois podem indicar sangramento digestivo oculto.