Diabetes exige controle e autoconhecimento de adultos e crianças

A luz se acendia no banheiro várias vezes durante a noite. Bento, o menino ativo de oito anos que antes dormia como pedra para compensar o dia de futebol, natação e brincadeiras, passou a ter um sono picado. Suzanne Nery, mãe do garoto, sabia que algo podia estar errado porque muita urina pode ser sinal de diabetes. O teste de glicose confirmou a suspeita.
10/02/2021 02:00

A luz se acendia no banheiro várias vezes durante a noite. Bento, o menino ativo de oito anos que antes dormia como pedra para compensar o dia de futebol, natação e brincadeiras, passou a ter um sono picado. Suzanne Nery, mãe do garoto, sabia que algo podia estar errado porque muita urina pode ser sinal de diabetes. O teste no glicosímetro confirmou a suspeita: o resultado, 160 miligramas de glicose por decilitro de sangue (mg/dl) em jejum, superou bastante a marca de referência, que é de 99.

Bento incorporou a nova realidade com a ajuda dos médicos e da família inteira, que passou a controlar junto com ele os níveis de glicose. Meses depois do primeiro diagnóstico, ele se adaptou muito bem à nova realidade.

O menino monitora o nível glicêmico pelo sistema FreeStyle Libre da Abbott (foto), que capta os níveis de glicose por meio de um sensor, em vez da incômoda agulha convencional. O aparelho não sai de perto dele, mesmo quando não os pais estão longe. A resposta para a doença, contudo, está em boa parte na cozinha de casa.

– Controlamos a diabetes do Bento oferecendo uma alimentação saudável, com contagem de carboidratos na quantidade recomendada para a sua idade. E, com o controle constante da glicemia, aprendemos a conhecer bem como o corpo dele trabalha em relação à insulina – conta o pai, Alessandro Aguiar.

O segredo, diz ele, é inserir toda a família nos novos hábitos, que acabam sendo mais saudáveis para todos.

– O ideal é que toda a família participe da nova realidade. A alimentação do Bento nada mais é do que a alimentação que todos nós devemos seguir. A família que enxerga isso larga muito na frente dessa batalha.

Mesmo criança, Bento foi condicionado a entender a responsabilidade de fazer o corpo funcionar da melhor maneira possível. Não come nada escondido e pede a ajuda dos adultos quando não sabe se pode aceitar um pão de queijo ou pipoca nas casas dos amigos.

Alessandro reconhece que receber o diagnóstico não foi fácil. Afinal, diabetes mellitus é uma doença grave que pode atingir qualquer pessoa e exige acompanhamento por toda a vida. No Brasil, mais de 13 milhões vivem com a doença, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes. Ou seja, a cada 100 brasileiros, 6 têm o diagnóstico.

Ela não é igual para todos. Há quatro tipos distintos de diabetes mellitus: tipo 1 (DM1), tipo 2 (DM2), gestacional e mody. No entanto, o DM1 e o DM2 são os mais comuns. O DM1, diagnosticado no Bento, afeta cerca de 10% dos pacientes, é uma doença autoimune que reduz a capacidade do pâncreas de produzir insulina.

De acordo com a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes do DF, Roberta Falleiros, o tipo 1 é uma doença genética, autoimune, com um baixo fator hereditário nos casos. Ou seja, a criança/jovem nasce com uma tendência genética a desenvolver a doença e não há nada no ambiente ou na alimentação que possa ser feito para evitar seu aparecimento.

Já o DM2 é a forma mais comum da patologia. Segundo Roberta, ocorre quando o pâncreas não produz insulina suficiente ou quando o corpo não consegue mais utilizar de maneira eficaz a insulina que produz.

– O diabetes tipo 2, é mais frequente em pessoas acima de 40 anos e possui uma forte relação com obesidade, sobrepeso, sedentarismo, resistência à ação de insulina ou algum grau de disfunção da célula beta pancreática, produtora de insulina – acrescenta a médica.

Ao contrário do tipo 1, o DM2 pode ser prevenido. A prática de exercícios físicos, uma boa alimentação e o controle do peso podem evitar ou postergar o início da doença por muitos anos.

Sintomas

Os sintomas do DM1 e DM2 são semelhantes e podem ser observados pela família. Perda de peso, fome excessiva, ingestão de muita água e urina em excesso são sintomas semelhantes para os dois grupos, mas aparecem em momentos distintos.

No tipo 1 o início dos sintomas são intensos e repentinos. A taxa de hereditariedade, filho de uma mãe ou pai que possui DM1, é menor que 10%.

– Mas ela aparece cedo, em torno de 90% descobrem desde o período neonatal, ou em crianças, adolescentes até a fase de jovens adultos. Já os sintomas nos pacientes com tipo 2 são marcados pelo aparecimento lento. A hereditariedade é mais forte no indivíduo que possui algum familiar de primeiro grau com diabetes mellitus tipo 2 e possui cerca de 75% a 100% de chances de desenvolver a doença na fase adulta.

O comerciante goiano Alan Neves sabe bem o que isso significa. Ele foi diagnosticado com DM2 aos 40 anos. Pai, mãe e a maioria dos avós eram diabéticos.

– A minha rotina alterou pouco, tomo dois comprimidos todos os dias, diminui cerca de 50% do açúcar que consumia antes, mas continuo tomando meu cafezinho – brinca Alan, que precisou mandar as roupas para a costureira apertar depois de um tempo controlando os doces e sorvetes.

Comorbidades

Pacientes com DM1, DM2 ou gestacional têm predisposição maior ao desenvolvimento de infecções bacterianas e fúngicas. Segundo a endocrinologista Roberta Falleiros, o sistema imunológico do paciente com diabetes mal controlada (hiperglicemia crônica) falha na tentativa de controlar as infecções por desequilíbrio do sistema imunológico e alterações vasculares e teciduais, o que acaba levando a outras doenças.

– As complicações são mais frequentes nos pacientes diabéticos porque há uma lentidão da resposta imune celular, insuficiência vascular generalizada, baixa oxigenação tecidual, tendência de colonização de fungos, bactérias na pele, entre outros – enumera.

O mantra para quem tem diabetes é controlar, controlar, controlar. Independentemente do tipo da doença, o risco de hiperglicemia (glicemia alta) por muito tempo é causar complicações agudas e crônicas.

O paciente que não possui manejo adequado da doença pode desenvolver complicações agudas como a cetoacidose diabética, o comprometimento dos rins e corre risco de entrar em coma. Entre as complicações crônicas está a retinopatia diabética (doença vascular que causa cegueira), doença renal (filtração glomerular inadequada) e neuropatias autonômicas diabéticas, como necroses das pernas, além de problemas cardiovasculares.

Pesquisas

O diabetes tipo 1 é sabidamente uma doença autoimune, ou seja, o mau funcionamento do pâncreas prejudica o sistema imunológico. Por isso, as pesquisas da área tentaram parar ou atrasar a destruição das células pelo próprio corpo e há uma busca incessante por remédios que possam controlar esses ataques.

Uma das tentativas mais recentes foi a de reinicialização imunológica dos pacientes com transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas. Por um tempo, essa abordagem mais agressiva permitiu que a maioria dos pacientes parassem de usar insulina.

Isso, para a comunidade científica foi uma grande alegria, explica Roberta Falleiros.  Mas, no acompanhamento a longo prazo desses pacientes, quase todos os pacientes retornaram o uso da insulina.

O hormônio sintético completou 100 anos e, de lá pra cá, a evolução da tecnologia melhorou a qualidade de vida dos pacientes com diabetes mellitus.

Hoje se fala que a cura do diabetes é a própria insulina. Antes as seringas eram de vidro e hoje são com dispositivos que diminuem as aplicações, dores e melhoram a qualidade de vida dos pacientes – comenta a endocrinologista.

Roberta acredita que, no futuro, as pesquisas consigam modular a imunidade e oferecer resultados a longo prazo para que os pacientes não usem mais insulina. Além disso, a evolução das tecnologias no tratamento do diabetes poderão proporcionar bombas de insulinas e, quem sabe, até o pâncreas artificial.

Foto: Arqyivo pessoal/ Alessandro Aguiar