Apneia e ronco podem sabotar o seu corpo

A parte mais perigosa do sono conturbado é, sem dúvida, a apneia. De acordo com a Mayo Clinic, dos Estados Unidos, existem três tipos: o mais comum é a apneia obstrutiva do sono (AOS), que ocorre por causa do relaxamento dos músculos traseiros da garganta, que sustentam o palato mole, a úvula, a língua e as paredes laterais da garganta.
31/12/2020 00:00

O sono geralmente não é uniforme do início ao fim, ele acontece em ciclos. Para a noite de sono ser eficiente, são necessários de quatro a seis ciclos, cada um com cerca de 90 minutos – ou seja, cinco ciclos levam a quase oito horas. Nem todo mundo consegue dormir tão bem e passar de maneira ininterrupta por eles. Você sabe por quê?

O ciclo é composto por quatro estágios: sono N1 (sonolência), N2 (adormecimento), N3 (sono profundo) e sono-REM (sigla que em inglês significa movimento rápido de olhos). É no REM que as pessoas sonham, o cérebro aumenta a sua oxigenação e há aumento do tônus muscular. Já nos três primeiros estágios, chamados de Não-REM, a pessoa faz a reposição de energia e recebe descarga de hormônios de crescimento, por exemplo.

Segundo o médico do sono Paulo Marsiglio, os ciclos podem ser superficiais ou profundos e, na medida de sua predominância, trazem uma sensação de bem-estar no dia seguinte. Se o sono não é reparador, o resultado aparece já na manhã seguinte: fadiga, irritabilidade, falhas de memória, sonolência diurna, entre outros problemas.

Uma boa parte dos fatores que atrapalham uma boa noite de sono são ronco (próprio ou de terceiros) e a apneia, aquelas pausas prolongadas na respiração.

Barulho

O hábito de roncar prejudica quase um bilhão de pessoas em todo o mundo. O ronco é um som respiratório gerado em via aérea superior durante o sono que normalmente ocorre durante a inspiração, mas também pode ocorrer na expiração.

A intensidade do ronco pode variar, acordar o próprio paciente e perturbar o sono de quem dorme ao lado. Paulo Marsiglio explica que durante o ronco a úvula (campainha) e palato mole (parte de trás do céu da boca) vibram e, em alguns casos, até amígdalas, paredes faríngeas e estruturas inferiores da garganta.

De acordo com o otorrinolaringologista, a prevalência do ronco é em homens adultos. Nas mulheres, ocorre principalmente após o climatério. A obesidade e a obstrução nasal também aumentam o risco de ronco.

– A ingestão de álcool, relaxantes musculares, narcóticos ou outras substâncias que diminuem o tônus muscular das vias aéreas superiores e predispõem um indivíduo a roncar. Fumar, particularmente em homens, também têm se mostrado um fator de risco. Em crianças, está comprovada a associação entre o ronco e a hipertrofia de amígdalas e adenóides – enumera o especialista.

Respiração

A parte mais perigosa do sono conturbado é, sem dúvida, a apneia. De acordo com a Mayo Clinic, dos Estados Unidos, existem três tipos: o mais comum é a apneia obstrutiva do sono (AOS), que ocorre por causa do relaxamento dos músculos traseiros da garganta, que sustentam o palato mole, a úvula, a língua e as paredes laterais da garganta.

Quando esses músculos relaxam, a passagem do ar fica mais estreita ou se fecha, fazendo o fluxo de ar ser insuficiente, por isso cai o nível de oxigênio do sangue. É aí que o cérebro acorda seu dono levemente para que ele reabra as vias aéreas. Isso pode acontecer dezenas de vezes durante cada ciclo de sono.

O segundo tipo, de acordo com a Mayo Clinic, é a apneia central está relacionada à falha do cérebro ao enviar sinais aos músculos que controlam a respiração e não há esforço respiratório. O terceiro tipo, uma junção dos dois primeiros, é a apneia mista, ou a síndrome complexa de apneia do sono.

Os danos de uma noite mal dormida não acabam no próximo cochilo. A longo prazo, a apneia cobra a sua fatura.

A redução de oxigênio no sangue (menor saturação) leva a uma resposta inflamatória crônica do organismo com o risco de acúmulo de gordura e cálcio na parede da aorta (ateromatose vascular) acrescenta Paulo Marsiglio.

Pacientes com AOS moderada ou grave têm predisposição maior ao desenvolvimento de acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, hipertensão, hiperlipidemia, intolerância à glicose, diabetes, arritmias (fibrilação atrial), hipertensão pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.

O tratamento da AOS pode ser feito com procedimentos clínicos ou cirúrgicos. Alguns deles são medidas para perda de peso, exercícios fisioterápicos, placa intraoral de avanço mandibular, aparelho de pressão aérea positiva contínua (Apap) e correção de nariz, palato mole e/ou ortognática – exemplifica.

Higiene do sono

O smartphone é um conhecido inimigo do sono por causa da luz da tela. Por outro lado,  alguns aplicativos ajudam a melhorar a qualidade do sono. Alguns simulam barulhos "brancos", como de chuva ou de ar condicionado; outros tentam acertar a profundidade do sono e escolhem a melhor hora para o alarme despertar. Há alguns de relaxamento e outros de musicoterapia.

Paulo Marsiglio concorda que a tecnologia de apps para o sono tem crescido exponencialmente e tendem a melhorar muito ainda. Mas, por enquanto, poucas ferramentas são efetivas de fato para o autocontrole do tempo e qualidade do sono.

– Os parâmetros que dependem da atividade eletroencefalográfica, principalmente, precisam de avaliação clínica e laboratorial ampla, ou seja, ainda não há como substituir razoavelmente os métodos tradicionais disponíveis – explica.

Por isso, a dica dele ainda é apostar nas mudanças simples de hábitos e comportamentos, um conjunto de medidas conhecido como higiene do sono.

Para ter uma boa noite de sono, é recomendado manter horários regulares para deitar e acordar, evitar cochilar durante o dia, não tomar bebidas cafeinadas após as 16h nem bebidas alcoólicas à noite e deitar-se apenas no momento em que estiver com sono, entre outros – cita Paulo.

Imagem capa: pixabay/creative commons