Reflexo incomum nos olhos de bebês pode ser um alerta para câncer

Ele se instala silencioso na retina do bebê e cresce imperceptível até que uma foto com flash, ou alguém mais atento, veja a mancha estranha num ou nos dois olhos. Geralmente a curiosidade sobre o “reflexo de olho de gato” é que abre a corrida contra o retinoblastoma.
21/01/2022 09:20

Ele se instala silencioso na retina do bebê e cresce imperceptível até que uma foto com flash, ou alguém mais atento, veja a mancha estranha num ou nos dois olhos. Geralmente a curiosidade sobre o “reflexo de olho de gato” é que abre a corrida contra o retinoblastoma. Apesar de raro – aparece em 8 mil crianças por ano em todo o mundo – ele é o câncer mais comum entre os tumores malignos de olho na primeira infância e costuma ser diagnosticado nos cinco primeiros anos de vida.

Como todos os cânceres, o diagnóstico precoce é o maior trunfo do paciente. Mais ainda no caso dos olhos, por terem ligação com o cérebro. O pior cenário são as células más começarem a migrar por essa "ponte" chamada de nervo óptico.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pedriátrica (SBOP), o tratamento do retinoblastoma vem avançando nas últimas décadas. As taxas de cura são superiores a 95% com tratamento adequado.

Dependendo das características da doença em cada criança, a quimioterapia pode ser intravenosa, intra-arterial, periocular (radioterapia ao redor do olho por braquiterapia) ou intraocular (dentro do olho). Quando nada disso funciona e há risco de metástase (migração do tumor para outros órgãos), os médicos optam pela retirada do olho (enucleação).

Foi o que aconteceu com a bebê Ana Lara Portmann (foto). Ela teve a enucleação agendada depois que a quimioterapia intraocular deu sinais de que não venceria as células cancerígenas e a preocupação dos médicos passou a ser evitar uma metástase.

– Foram oito meses de tratamento entre quimioterapias e outros procedimentos, até chegarmos no dia que as possibilidades esgotaram e tivemos que marcar a remoção do globo ocular dela. Lembro que por algum motivo fui sozinha fazer a marcação. Depois de ser atendida sentei no chão do hospital e chorei igual criança por um longo período. Queria arrancar meu coração de dentro de mim.

O depoimento é da empresária brasiliense Larissa Portmann, mãe de Lara. A menina foi diagnosticada em 2014 com o retinoblastoma no olho direito depois que a própria mãe e uma tia notaram o brilho diferente no olho da menina, especialmente quando ela estava sob a luz amarela. Um primeiro exame de fundo de olho mostrou que o tumor já tinha um centímetro.

A história de Lara, contudo, não termina na retirada do olho. Larissa conta que levantou dali com um instinto de que deveria procurar outra solução. Aproveitou o tempo que restava até a cirurgia para buscar outros médicos. Um deles mudou a quimioterapia de intraocular para intra-arterial e na segunda sessão as células doentes começaram a morrer.

Aos dez anos, Lara tem os dois olhos preservados, com uma perda de visão no direito compensada naturalmente pelo esquerdo. É aluna destaque em leitura no quinto ano do seu colégio.

– Médicos são anjos sem asas que Deus manda para a gente  resume Larissa, emocionada.

Pesquisa

A doença que Lara aparece no cromossomo 13, geralmente de maneira aleatória (sem hereditariedade), e afeta aproximadamente 6 mil crianças no mundo por ano, ocorrendo igualmente em meninos e meninas, sem predominância de raça.

O resultado de cada tratamento, no entanto, tem relação direta com o desenvolvimento socioeconômico do país onde cada criança está. Um estudo global do retinoblastoma publicado em 2017 mostra que em países com alto desenvolvimento a idade média das crianças diagnosticadas foi de 14 meses. A idade dobra para 30,5 meses nos países mais pobres.

O responsável pelo estudo "Para crianças como retinoblastoma as disparidades são vista pelo globo”, publicado pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, Ido Didi Fabian, pesquisou dados de 1.187 pacientes espalhados por 278 centros de tratamento de retinoblastoma em 153 países e concluiu:

– Sabíamos que as crianças com retinoblastoma moradoras de países com orçamento mais baixo teriam um prognóstico pior. O que nos estarreceu foi saber que na metade desses casos os tumores já haviam se espalhado para além dos olhos – destacou Fabian, que pertence à London School of Hygiene & Tropical Medicine and ao Sheba Medical Center (Israel).

Ele lembra que quanto mais tempo antes da primeira intervenção, maior a possibilidade de o câncer já estar maduro e em metástase. Nos países de renda mais baixa, 256 de 521 pacientes (ou 49,1%) diagnosticados com esse tipo de cancer já tinham células doentes espalhadas para outras partes do corpo.

Já em nações desenvolvidas, 656 de 666 (98,5%) pacientes estavam ainda com a doença restrita à retina quando descoberta.

Por: Milena Galdino

Foto: arquivo de família

 

 

 

 

 

Ele se instala silencioso na retina do bebê e cresce imperceptível até que uma foto com flash, ou alguém mais atento, veja a mancha estranha num ou nos dois olhos. Geralmente a curiosidade sobre o “reflexo de olho de gato” é que abre a corrida contra o retinoblastoma. Apesar de raro – aparece em 8 mil crianças por ano em todo o mundo – ele é o câncer mais comum entre os tumores malignos de olho na primeira infância e costuma ser diagnosticado nos cinco primeiros anos de vida.

Como todos os cânceres, o diagnóstico precoce é o maior trunfo do paciente. Mais ainda no caso dos olhos, por terem ligação com o cérebro. O pior cenário são as células más começarem a migrar por essa "ponte" chamada de nervo óptico.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pedriátrica (SBOP), o tratamento do retinoblastoma vem avançando nas últimas décadas. As taxas de cura são superiores a 95% com tratamento adequado.

Dependendo das características da doença em cada criança, a quimioterapia pode ser intravenosa, intra-arterial, periocular (radioterapia ao redor do olho por braquiterapia) ou intraocular (dentro do olho). Quando nada disso funciona e há risco de metástase (migração do tumor para outros órgãos), os médicos optam pela retirada do olho (enucleação).

Foi o que aconteceu com a bebê Ana Lara Portmann (foto). Ela teve a enucleação agendada depois que a quimioterapia intraocular deu sinais de que não venceria as células cancerígenas e a preocupação dos médicos passou a ser evitar uma metástase.

– Foram oito meses de tratamento entre quimioterapias e outros procedimentos, até chegarmos no dia que as possibilidades esgotaram e tivemos que marcar a remoção do globo ocular dela. Lembro que por algum motivo fui sozinha fazer a marcação. Depois de ser atendida sentei no chão do hospital e chorei igual criança por um longo período. Queria arrancar meu coração de dentro de mim.

O depoimento é da empresária brasiliense Larissa Portmann, mãe de Lara. A menina foi diagnosticada em 2014 com o retinoblastoma no olho direito depois que a própria mãe e uma tia notaram o brilho diferente no olho da menina, especialmente quando ela estava sob a luz amarela. Um primeiro exame de fundo de olho mostrou que o tumor já tinha um centímetro.

A história de Lara, contudo, não termina na retirada do olho. Larissa conta que levantou dali com um instinto de que deveria procurar outra solução. Aproveitou o tempo que restava até a cirurgia para buscar outros médicos. Um deles mudou a quimioterapia de intraocular para intra-arterial e na segunda sessão as células doentes começaram a morrer.

Aos dez anos, Lara tem os dois olhos preservados, com uma perda de visão no direito compensada naturalmente pelo esquerdo. É aluna destaque em leitura no quinto ano do seu colégio.

– Médicos são anjos sem asas que Deus manda para a gente  resume Larissa, emocionada.

Pesquisa

A doença que Lara aparece no cromossomo 13, geralmente de maneira aleatória (sem hereditariedade), e afeta aproximadamente 6 mil crianças no mundo por ano, ocorrendo igualmente em meninos e meninas, sem predominância de raça.

O resultado de cada tratamento, no entanto, tem relação direta com o desenvolvimento socioeconômico do país onde cada criança está. Um estudo global do retinoblastoma publicado em 2017 mostra que em países com alto desenvolvimento a idade média das crianças diagnosticadas foi de 14 meses. A idade dobra para 30,5 meses nos países mais pobres.

O responsável pelo estudo "Para crianças como retinoblastoma as disparidades são vista pelo globo”, publicado pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, Ido Didi Fabian, pesquisou dados de 1.187 pacientes espalhados por 278 centros de tratamento de retinoblastoma em 153 países e concluiu:

– Sabíamos que as crianças com retinoblastoma moradoras de países com orçamento mais baixo teriam um prognóstico pior. O que nos estarreceu foi saber que na metade desses casos os tumores já haviam se espalhado para além dos olhos – destacou Fabian, que pertence à London School of Hygiene & Tropical Medicine and ao Sheba Medical Center (Israel).

Ele lembra que quanto mais tempo antes da primeira intervenção, maior a possibilidade de o câncer já estar maduro e em metástase. Nos países de renda mais baixa, 256 de 521 pacientes (ou 49,1%) diagnosticados com esse tipo de cancer já tinham células doentes espalhadas para outras partes do corpo.

Já em nações desenvolvidas, 656 de 666 (98,5%) pacientes estavam ainda com a doença restrita à retina quando descoberta.

Por: Milena Galdino

Foto: arquivo de família