Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação são fases do luto

06/04/2021 13:05

Por Milena Galdino

A cada dia, pelo menos mais 3,5 mil famílias no Brasil enterram os vencidos pela Covid. O país já superou a marca de 330 mil mortos, o que significa que milhões de pessoas estão sofrendo uma grande perda. O luto pode ter várias caras, ser representado por diversas reações mas, essencialmente, ele é definido como o tempo que cada um precisa para superar o fim do que ama.

As pessoas não falam tanto sobre a morte quanto deveriam. Essa é a opinião da médica paliativista e autora Ana Claudia Quintana Arantes. “Aqueles que não gostam de falar e pensar sobre a morte são como crianças brincando de esconde-esconde numa sala sem móveis. Elas tapam os olhos com as mãos e acham que ninguém as vê”, afirma em A morte é um dia que vale a pena viverEla classifica como ingênua a idéia de que “se não olho para a morte ela não me vê; se não penso nela, ela não existe”.

Freud associou luto e melancolia, e os consultórios de psicologia estão abarrotados de pacientes que experimentam diversos níveis e formas de sofrimento e depressão gerados pela perda de alguém querido. O pai da psicanálise explica que a dificuldade em assimilar o fim da vida acontece simplesmente porque no inconsciente não existe representação disso. Uma evidência seria o frequente despertar das pessoas diante do sonho com a própria morte.

– Nós nunca passamos pela morte e nosso inconsciente é composto das representações daquilo que nós vivemos. A morte para todos os vivos é algo novo e não saber de fato o que acontece depois dela, desconsiderando crença ou da fé pessoal, torna-a ainda mais estarrecedora – explica a psicanalista Priscila Fernandes Costa.

Se por um lado a morte própria carrega o peso do fim da consciência, a morte de outros está associada a um imenso desamparo. Ambos os casos geram luto.

– O luto é o tempo que você dá para elaborar a perda. Uma situação em que é necessário tempo para se elaborar e desinvestir. O luto pode ser de gente viva, inclusive - avisa Priscila.

A psicóloga Rosangela Macedo, do Espaço Quiron de Psicologia, define o luto como a conexão e a energia que sobram pela perda do “objeto" ou razão de afeto: alguém, um animal, um emprego, um relacionamento, um bem material de valor afetivo, por exemplo.

– Quando gostamos de alguém ou de alguma coisa, investimos nosso pensamento, nosso tempo, nosso afeto e nossos recursos nessa relação. Quando esse "objeto" de afeto deixa de existir, isso não significa que o sentimento, a energia dedicada a ele desapareça imediatamente.

Ela frisa que o luto é a conexão que resta com o "objeto" perdido e ele só acaba quando quem perde consegue se desconectar do objeto aceitando o fim.

– É preciso ressignificar a vida aceitando a perda e rearranjando as estruturas dentro da ideia de que a partir dali o que existia não volta e uma nova estrutura precisa surgir. O importante é saber que o luto é uma situação genuína e consciente, e ninguém o vive de maneira igual.

Fases

As duas psicólogas citam a mesma teoria para explicar as cinco fases do luto: o modelo de Kübler-Ross, assim batizado em referência à psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, autora de On Death and Dying. Não necessariamente todos vivem as cinco etapas, nem nessa ordem, mas basicamente é a teoria mais aceita sobre o assunto.

De acordo com o modelo, a primeira fase do luto é a negação da perda, o mecanismo de defesa imediatamente desenvolvido na tentativa de absorver o impacto da morte de alguém, por exemplo.

– A notícia da morte de alguém que amamos é tão forte que não damos conta de equilibrar a energia psíquica liberada por ela. Negamos o resultado da biopsia ou da tomografia, achamos que ligaram para a família errada para avisar do acidente. Simplesmente não processamos num primeiro momento – resume Rosângela.

Aos poucos, a negação dá lugar à raiva, segundo o modelo de Kübler-Ross. Nessa fase, existe o protesto contra a perda. A pessoa ainda não está preparada para deixar a razão do afeto, então ela briga com os médicos, com Deus, com tudo e todos à sua volta na tentativa de cessar a dor.

– A raiva é poderosa, ela conecta tanto quanto uma paixão. Ainda é um mecanismo de defesa que garante a presença do objeto. A raiva faz a pessoa se movimentar, lutar incessantemente para reverter e não ter de lidar com a perda.

Rosângela constata que a angústia de não ter evitado, a sensação de que algo mais poderia ser feito é insuportável, então é natural a pessoa nessa fase do luto buscar outros culpados para se livrar da própria acusação.

A terceira etapa no modelo de Kübler-Ross se aplica aos casos em que o luto chega antes da morte em si, ainda que ela seja iminente. É conhecida como fase da barganha, ou da negociação. São acordos internos ou com Deus e divindades, como os santos.

– Se eu melhorar, eu prometo fazer algo ou deixar de fazer. Se a pessoa ficar bem eu vou ser melhor. A gente tem a sensação do incompleto, ninguém está preparado para o fim da existência e tenta negociar em nome de projetos inacabados: queria me formar, preciso ver meu filho crescer, ainda desejo conhecer ou fazer tal coisa. É a hora de implorar por mais tempo de vida – sintetiza Rosângela.

A quarta fase, talvez a mais longa, é aquela em que a “ficha cai" e vem a rendição, muitas vezes acompanhada de depressão. De acordo com a psicóloga, é o rebaixamento a consciência, o reconhecimento de que a vida não será mais a mesma. A terapia, segundo ela, é bastante indicada nessa fase para que a pessoa fale da sua dor abrindo espaço para uma ressignificação de toda a vida.

É cansativo negar, ter raiva da situação, fazer as negociações internas. Essa é a hora em que a gente enxerga o buraco e a falta que o objeto faz. A gente aceita que perdeu e baixa a guarda. É uma fase importante, mas muitas pessoas se apegam a ela e não enxergam vida alem disso. É aí que se entregam de cabeça à depressão.

Por fim, vem a fase da aceitação, quando de fato se elabora o luto na busca da desconexão com o objeto – para que a vida siga em frente.

– É a busca por soluções para viver de uma forma diferente de antes. Não significa que você esteja livre do sentimento de perda, mas você elabora a vida aceitando que o objeto não está mais. A tristeza vai vir, a dor também, mas o luto passou.

Tempo

Quem acompanha alguém em luto muitas vezes se pergunta qual o prazo para acabar tanta tristeza. Para Rosângela, é impossível prever porque o tempo é muito diferente para cada um. As pessoas mais apegadas sofrem mais para desapegar. Outros elaboram a perda mais rapidamente.

– Só a pessoa sabe o tamanho da dor. Cada um precisa viver o seu luto à sua própria maneira. Quem está com vontade de chorar, chore. Se não quer falar, não fale. O extrovertido vai falar, o introvertido possivelmente vai se calar. É preciso respeitar a expressão do luto de cada um.

Priscila Fernandes encoraja o paciente a falar da dor da perda o máximo possível, dentro da máxima de que é preciso expressar para ser curado.

– Quando a gente perde alguém sente saudade, raiva, culpa por achar que não fez todo o possível. Na hora do luto, tudo volta à mente e o arrependimento muitas vezes aparece com nitidez. É preciso falar disso, seja com um psicanalista, com um amigo ou com um líder espiritual – exemplifica.

Dentre todos os tipos de luto, Priscila conta que um dos piores que já acompanhou foi o de uma mãe cujo filho, um rapaz jovem, se matou. O luto é o que a liga a ele, por isso ela mantém o apego à culpa, ao desejo de ter prevenido, como se isso fosse possível.

– A perda de um filho é a mais difícil de ser superada. A ordem natural é que os filhos sobrevivam a nós. Perder um filho é perverter essa ordem. O filho para uma mãe faz parte dela, é uma extensão dela mesma. É muito difícil romper o vínculo e superar essa perda.

No livro A morte é um dia que vale a pena viver, Ana Cláudia Quintana explica isso em outras palavras: "a dor do luto é proporcional à intensidade do amor vivido na relação que foi rompida pela morte, mas também é por meio desse amor que conseguiremos nos reconstruir".