Entrevista: crianças podem ter transtornos mentais na pandemia

A pediatra e psiquiatra Mila Santiago, coordenadora do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade de Pediatria do DF, fala sobre danos causados pela pandemia a crianças e adolescentes e reflete sobre ansiedade e depressão Infantojuvenil.
21/12/2020 16:10

A pandemia covid-19 impactou a saúde física e mental de todos, inclusive das crianças. A perda da certeza e da segurança que tinham nos adultos foi significativa, uma vez que pais tios, avós e professores se viram numa situação para a qual também não sabem as respostas. A ansiedade generalizada sobre os cuidados no combate ao vírus,  o medo da morte, a  necessidade de  isolamento e a interrupção de atividades da rotina das crianças causaram danos severos na saúde mental numa boa parte dos pequenos. A constatação é da pediatra e psiquiatra Mila Santiago, coordenadora do Departamento de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade de Pediatria do DF. Nesta entrevista, Mila vai além dos danos causados pela pandemia e reflete também sobre ansiedade e depressão Infantojuvenil.

 

SIS– A pandemia afetou a saúde mental de crianças e adolescentes ao ponto de instalar quadros de depressão?

Mila – O que vemos no consultório é o aparecimento de muita incerteza, o medo de adoecer ou da morte de pessoas queridas ou as mudanças de padrões de funcionamento, com consequente restrições econômicas. Coisas assim trazem muitos desafios e privações às crianças, aos adolescentes e às suas famílias  Devemos estar atentos e observar  o sofrimento e consequentemente os problemas de saúde mental, em especial a depressão e ansiedade para esse grupo de pacientes.


SIS – Qual a relação de ansiedade e depressão nesse público infantojuvenil?

Mila –  Não é raro notar essa correlação, especialmente caso não haja a devida identificação ou abordagem precoce do quadro de transtorno de ansiedade. Ele pode agravar e apresentar episódio depressivo.

 

SIS – Há sinais, falas, sintomas que podem mostrar que uma criança ou adolescente precisa ser avaliado por psiquiatra para quadros de depressão?

Mila – As falas ou sinais podem ser variáveis, inclusive quanto à distribuição pela faixa etária. Na criança na faixa escolar percebermos desde o desinteresse em atividades de lazer ou de escola, desânimo ou irritabilidade excessiva. Pode haver mudanças no padrão de alimentação e de sono, medo excessivo ou queixas de dores sem explicação de causa orgânica. O adolescente costuma ter além desses sintomas, a capacidade de organizar melhor sua percepção do estado interno e verbalizar de modo mais direto a sensação de tristeza, desesperança ou culpa, podendo ainda mencionar que já pensou em morrer ou que não vê motivos para viver.

SIS – Como distinguir melancolia de depressão?

Mila – A tristeza é uma emoção que acontece e se justifica pela reação ao  contexto que ocorre. Quando há mudanças do padrão de comportamento ou percepção de que a criança está ficando muito sem esperança, desanimada, desinteressada por atividades de lazer, muito irritada, com perturbações no seu padrão de sono e de apetite, ou ainda com queixas como dores de cabeça ou de barriga que não possuem causa identificável é muito importante procurar a avaliação médica.

 

SIS – Por onde os pais devem começar?

Mila –. O médico pediatra assistente pode ser consultado sobre a necessidade de uma avaliação médica com o psiquiatra infantil. É muito importante notar que tudo que deixa a criança em sofrimento nos ambientes da escola ou de casa não deve ser desprezado e, caso haja dúvidas, é preciso procurar assistência médica para avaliação.  É importante estar atento às queixas e procurar pelo psiquiatra para uma avaliação, pois a identificação precoce garante melhores chances de restabelecimento.

 

SIS  – Uma criança deprimida será irremediavelmente um adulto deprimido?

Mila – Não necessariamente. É muito importante não adiar a procura por assistência médica com o psiquiatra, na melhor prescrição de tratamento, e outros profissionais, como psicólogo, por exemplo. Eles devem formar uma equipe no acompanhamento do paciente.

 

SIS – Como é o tratamento de depressão em crianças e adolescentes e que efeito os remédios podem ter?

Mila – Depende muito. Os tratamentos são individualizados e geralmente envolvem abordagens que não são apenas da prescrição de medicamentos. Quando há necessidade do uso de medicação é fundamental que o paciente seja acompanhado e prescrito por um médico, preferencialmente o psiquiatra, o qual faz a prescrição de modo cuidadoso e com  muita segurança.

 

SIS – Algumas  mães relutam em dar medicações. Elas são mesmo seguras?

Mila – As medicações costumam ter um perfil de segurança muito bem estabelecido, não havendo riscos de dependência ou de prejuízo na homeostase da faixa etária. Pelo contrário, elas têm  efeito positivo em melhorar o estresse tóxico o que acaba por ajudar no reequilíbrio do organismo.

 

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