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Racismo revelado
Nelson Oliveira, Bernardo Ururahy e Ana Volpe
Publicado em 19/8/2020

Baseado em crenças — e mais tarde teorias — que instituem a superioridade de uma determinada raça ou etnia sobre outras, o racismo inevitavelmente leva à violência. No caso do Brasil, a subjugação do índio e do negro pelo branco foi, desde o início, apresentada como natural, malgrado a violência ora explícita, ora implícita, que emanava das imagens produzidas por artistas integrantes de expedições de conhecimento ao país entre os séculos 16 e 19. Era comum que nessas imagens índios e negros fossem retratados como seres selvagens dotados pelo colonizador de ímpeto produtivo e tinta civilizatória. Títulos de obras reunindo esses trabalhos não raro continham o adjetivo "pitoresco", qualidade do que envolve, fascina ou diverte pelo que apresenta de original ou inusitado.

Independentemente da ideologia que as nutriu e dos projetos de poder a que serviam, essas gravuras e telas já denunciavam, mesmo sem querer, o absurdo do imaginário racista a sustentar o escravismo. E quando, às vésperas do século 20, e decretado o fim da escravidão, a arte tentava criar uma alegoria de união entre raças, mais uma vez desvelava-se a ideia subjacente de que o embranquecimento era a saída para a inferioridade do negro — solução anteriormente advogada em favor dos índios por meio da figura do caboclo. As máquinas fotográficas, já presentes ao final dos anos 1800, nunca atingiram a neutralidade de aparato mecânico. Ao contrário, movidas a partir de olhares mais críticos, passaram a expor o disparate opressor da superioridade racial. Atualmente servem à causa de escancarar, não apenas os fortes resquícios do racismo que estruturou o Brasil como nação, mas igualmente os esforços para nos livrarmos desse atraso.


Cenas de Antropofagia no Brasil, Theodor de Bry

Theodor de Bry foi um gravurista alemão do século 16, conhecido pelas representações das primeiras expedições europeias no continente americano. Na imagem acima, publicada em 1586, ele ilustra os relatos do explorador e seu compatriota Hans Staden, que narrou seus encontros com os índios tupinambás, descrevendo-os como guerreiros selvagens, devoradores de homens. 


Comerciante de Tabaco, Jean Baptiste Debret

Durante os anos em que viveu no Brasil, entre 1816 e 1831, o francês Jean Baptiste Debret pintou diversas cenas urbanas, muitas nas quais figuram negros escravizados. Na imagem acima, um grupo de homens, mantidos presos uns aos outros por correntes, é atendido em uma venda de tabaco. Ao fundo, vê-se um militar, provavelmente guarda do grupo, conversando de maneira descontraída com uma mulher, que traz um bebê às costas, em forte contraste com a brutalidade do que se passa ao lado.


Negros lutando/Brasis, Augustus Earle

Augustus Earle, pintor inglês, esteve por três vezes no Brasil durante a primeira metade do século 19. Em sua segunda estadia no país, entre 1822 e 1824, pintou esta aquarela, que intitulou Negroes Fighting (negros lutando, em tradução livre). Os personagens praticam a capoeira enquanto, ao fundo, aproxima-se um policial para reprimir a atividade.


Punindo Negros no Calabouço, Augustus Earle

Nesta tela, Augustus Earle retrata um negro sendo açoitado no Calabouço, local no Rio de Janeiro em que os senhores levavam seus escravos para serem castigados. O sangue que escorre do corpo nu oferece uma visão menos condescendente com o castigo, embora Earle tenha passado a vida à procura de lugares exóticos para retratar. Na última de suas viagens ao Brasil (1831), o pintor teve como companheiro no navio Beagle o naturalista e biólogo Charles Darwin, autor do clássico A Origem das Espécies, que repudiou as cenas de maus tratos a escravos presenciadas próximo ao Rio e Salvador. Darwin rejeitava as teorias de inferioridade racial, não só em em decorrência de sua natural empatia e de seus estudos científicos, mas por ter tido um ex-escravo como professor.


Soldados índios selvagens civilizados da província de Coritiba trazendo prisioneiros selvagens, Jean Baptiste Debret

No livro Viagem Pitoresca e Histórica o Brasil, Debret relata que, na província de São Paulo, havia cidades habitadas por indígenas caçadores, que eram contratados pelo governo para atacar populações indígenas habitantes das florestas. Ele relata que os homens eram usualmente mortos e as mulheres e crianças, feitos prisioneiros. A imagem acima mostra a captura de duas mulheres e quatro crianças por esses "índios soldados". 


Caboclo (Índio Civilizado), Jean Baptise Debret

Nesta aquarela sobre papel, Debret apresenta dois caboclos, como eram assim chamados os indígenas que recebiam o batismo. O artista enfatiza o modo singular e surpreendente ao olhar estrangeiro dos arqueiros dispararem suas flechas. Alguns estudiosos veem nessa ênfase um elogio à suposta força superior do índio convertido ao cristianismo.


Loja de sapateiro, Jean Baptise Debret

Este óleo sobre tela de Debret traz uma cena de castigo aplicada por um sapateiro português a um de seus escravos. O homem castigado está de costas e ajoelhado, em posição submissa, portanto. No canto esquerdo, a mulher do proprietário, mestiça, amamenta o bebê enquanto assiste à cena sem dar maior mostra de contrariedade. 


Batismo de um Homem Negro", F. J. Stober

Pintada em 1878, a tela de Stober mostra um sacerdote ao centro e em tamanho desproporcional ao homem negro que recebe o batismo. Nos cantos da imagem, o negro e os índios observam a cena, como se aguardassem sua vez de serem batizados.


Índios catequizados com um missionário e dois soldados, Biblioteca Nacional

Registro fotográfico datado do século 19 mostra um grupo de indígenas catequizados. Eles estão acompanhados por um religioso e dois soldados. A catequização das populações indígenas teve início ainda no século 16, com a chegada dos jesuítas, e teve como propósito corrigir a mentalidade e os costumes de povos apartados das leis de Deus.


Homem na Liteira, Alberto Henschel

O registro feito pelo fotógrafo Alberto Henschel na Bahia data da segunda metade do século 19. Entre os trabalhos impostos a negros escravizados, o transporte braçal de seus senhores eram um dos mais humilhantes. Além de pesar sobremaneira aos ombros, dava ao transportado o privilégio de se locomover sem esforço, num claro ato de animalização dos seres humanos que o carregavam.


Fazenda de Quititi, Jacarepaguá, Rio de Janeiro; Georges Leuzinger

Nesta foto da década de 1860, uma fazenda de café, onde negros escravizados trabalham na secagem dos grãos. O grupo de mulheres e crianças em farrapos é acompanhado de uma criança branca bem vestida, sentada sobre uma charrete de brinquedo. Em nítida condição de vantagem sobre os demais, o menino exercita de maneira intuitiva e precoce a postura de superioridade e mando que dele espera sua classe social.


Ama de leite com menino, Alberto Henschel

Produzida em estúdio na década de 1870, esta foto confere uma especial plasticidade ao entrelaçamento entre escravismo e estruturação familiar no Brasil. A começar pelas vestes de estúdio da mulher escravizada. Ela é parte integrante da família, mas na condição mais subalterna possível. Como babá, provém seus cuidados, afeto e o próprio leite para a criança branca que posa ao seu lado. E a imagem é incorporada ao álbum cuidadosamente guardado em um baú da casa grande. Esse tipo de relação remanesce em lares ricos, ou mesmo de classe média, que empregam até mais de uma geração de mulheres consideradas "parte da família".


Mãe Preta, Lucílio de Albuquerque

Mesmo produzida após a Lei Áurea, a pintura de Lucílio de Albuquerque explicita a persistência do papel subalterno da mulher negra. Na imagem, a mãe negra amamenta uma criança branca enquanto olha para o filho, também negro, que está deitado no chão.


A Redenção de Cam, Modesto Brocos

A Redenção de Cam, pintura de Modesto Brocos, de 1895, ilustra teses raciais que ganharam força no Brasil após a abolição. Essas ideias defendiam o branqueamento da população por meio da miscigenação. Conforme a Enciclopédia Itaú Cultural, a imagem apresenta três gerações de uma mesma família. A avó, negra e em trajes humildes, leva as mãos ao céu em sinal de agradecimento pelo nascimento do neto branco, fruto do casamento entre sua filha, cuja pele já apresenta um tom mais claro; e um homem branco. Cam, filho de Noé, é apontado na Bíblia como ascendente das etnias africanas. O debate sobre o branqueamento perdurou durante a Primeira República (1889-1934).


Um cusinheiro de troppeiros

No último quarto do século 19, muitos estúdios fotográficos realizavam retratos, que seriam posteriormente comercializados. Homens, mulheres e crianças negras eram comumente fotografados como tipos brasileiros exóticos para serem vendidos para estrangeiros. Na imagem acima, o homem é representado como um "tipo do Norte do Brasil". Ele traja roupas rasgadas, está descalço e tem um cachimbo na boca, elementos que reforçam o aspecto estranho.


Negra do tabuleiro carregando filho às costas, Christiano Júnior

Outra foto realizada em estúdio para comercialização. A mulher negra com tabuleiro na cabeça e bebê às costas reforça o imaginário exótico que se quer estimular para a venda de imagens. O resultado, porém, causa constrangimento em razão do artificialismo da pose e dos elementos em cena parada. A intenção de simular o o esforço e as dificuldades enfrentadas por uma mulher negra podem até ter tido efeito à época. Hoje soa como mais uma vil exploração das pessoas escravizadas.


Equipe do Bangu Atlético Clube, Museu de Bangu

Em 1905, escalado pelo Bangu Atlético Clube, do Rio de Janeiro, Francisco Carregal (ao centro, com a bola) tornou-se o primeiro negro a disputar uma partida oficial de futebol. Até a década de 1930, impedidos de participar dos torneios oficiais, atletas negros se organizavam em ligas informais para praticarem o esporte e disputarem competições.


O chefe da esquadra rebelde sahindo escoltado do Hospital Central do Exército, Biblioteca Nacional

Em 1910, ainda influenciado pelos longos anos do sistema escravagista, o Brasil foi cenário da Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, deflagrada para dar fim aos castigos físicos praticados contra os marinheiros negros. Na imagem, o líder do levante, o marinheiro João Cândido, que viria a ficar conhecido como Almirante Negro, deixa, escoltado, o Hospital Central do Exército. 


Grupo tirado em frente da sede da Delegação da F. N. B., Biblioteca Nacional

No século 20 surgiram diversos movimentos organizados de luta contra o racismo. Para muitos historiadores, o primeiro deles foi a Frente Negra Brasileira, fundada em 1931. A foto, realizada em local não identificado, mostra integrantes do grupo presentes a uma solenidade.


Reprodução/Biblioteca Nacional

Em sua edição de 30 de setembro de 1982. o Jornal do Brasil trouxe em sua capa uma imagem, feita pelo fotógrafo Luiz Morier, de cinco homens sendo presos pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. A foto era acompanhada pela seguinte legenda: "Todos negros, em fila, corda no pescoço, os detidos caminham para a caçapa. Como escravos". No ano seguinte, Morier ganhou o Prêmio Esso pelo registro.


Acampamento Terra Livre 2015; Valter Campanato/Agência Brasil

Nas últimas décadas, houve uma intensa mobilização para garantia e ampliação dos direitos das populações indígenas. O Acampamento Terra Livre, evento anual que acontece em Brasília, reúne milhares de indígenas de diversas etnias. A demarcação de terras e o acesso à saúde e educação estão entre as pautas defendidas por eles. Na imagem acima, um grupo se manifesta de maneira festiva na Praça dos Três Poderes, tendo ao fundo a escultura Os Candangos. Originalmente, a peça de Bruno Giorgi ganhou o nome de Os Guerreiros, em homenagem justamente aos índios — o que fica claro pelas lanças estilizadas empunhadas pelas duas figuras, mas a denominação não "pegou".


Manifestação pela democracia em Brasília, junho/2020; Ricardo Stuckert

O movimento Vidas Negras Importam ganha força em todo o mundo. No Brasil, homens e mulheres negros e negras cobram a ampliação de políticas públicas para essas populações e o fim da violência policial. O registro fotográfico acima foi feito em uma manifestação em Brasília neste ano.


Pauta, coordenação e edição: Nelson Oliveira
Coordenação e edição de multimídia: Bernardo Ururahy
Pesquisa fotográfica e iconográfica: Ana Volpe e Bernardo Ururahy