10/02/2022
Pesquisa
Impactos da pandemia na educação no Brasil

O Instituto DataSenado realizou pesquisa, em parceria com o gabinete do senador Flávio Arns (Podemos-PR), para levantar informações sobre o impacto da pandemia na educação. De 2 a 14 de dezembro de 2021, foram ouvidos, por meio de grupos focais, brasileiros que têm filhos(as) ou são responsáveis por crianças ou adolescentes em idade escolar. Os resultados fazem parte de estudos para embasar debates sobre políticas públicas voltadas para a educação básica no Brasil.

Impacto da pandemia

a) Em casa

Um dos principais efeitos relatados pelos participantes foi o impacto na rotina da casa. Muitos expressaram a dificuldade de conciliar o trabalho com aulas online dos filhos(as). Os pais se sentiram sobrecarregados.

É possível perceber que a sensação dos pais é a de que a responsabilidade pelo ensino dos filhos tinha sido inteiramente repassada para eles, deixando a escola com o papel secundário de apenas acompanhar a realização das tarefas. Porém, em muitos casos os pais não tinham condições de ensinar os filhos(as), seja por falta de tempo ou por falta de conhecimento.

"Foi difícil. Eu trabalho home office e conciliar aula online com o trabalho foi complicado porque não tive apoio do meu esposo, porque ele trabalhou direto na pandemia. Eu tive que adaptar, acordar mais cedo para depois fazer tudo que eu tinha que fazer para entregar no dia e ajudar ela. Agora ela está se desenvolvendo bem, só que não concordo com as aulas online, ao invés de ajudar só prejudicou. O esforço maior foi meu."  (Mulher, Grupo Misto 41 a 60 anos – SP)

a) No ensino

A partir das falas dos participantes, é possível identificar o quanto a mudança da rotina afetou a aprendizagem das crianças e adolescentes. A principal percepção dos participantes em todos os grupos realizados é que 2020 e 2021 foram anos perdidos para a educação, resultando em consequências graves no longo prazo.

"Durante a pandemia era só brincadeira, nada de estudo. Para mim foram 2 anos perdidos." (Homem, Grupo Misto 25 a 40 anos – Salvador)

a) Na sociabilidade

Além dos prejuízos no ensino formal, efeitos negativos também foram percebidos em questões emocionais e relacionais dos filhos(as). O contato com outras pessoas da mesma idade é muito importante para o desenvolvimento e amadurecimento das crianças e adolescentes. Por consequência, ao serem privados dessa convivência, o processo de aprendizagem dos alunos(as) sofreu um impacto bastante negativo.

"É estudioso, respeitador, então foi bem no online, mas a parte da interação com os colegas foi complicado. Ele passou de criança para adolescente sem ter um amigo do lado." (Homem, Grupo Misto 41 a 60 anos – Curitiba)


Barreiras para o processo de aprendizagem

a) Falta de estrutura

Para a maioria dos pais, a falta de equipamentos adequados em casa, como computadores e celulares, foi um dos principais problemas enfrentados durante a suspensão das aulas presenciais. Muitos relataram dificuldade de prover internet e aparelho celular ou computador para todos os filhos, especialmente quando havia mais de uma criança ou adolescente precisando assistir aulas em streamings ao vivo.

"Para você ter uma ideia, meus netos têm acesso à internet, mas tem um amigo do meu neto que não tinha. Ele perdeu muito mais do que meu neto." (Mulher, Grupo Misto 41 a 60 anos – São Paulo)

“Eu sou professora de educação infantil, aí foi tudo online e foi complicado porque a fase de alfabetização é um pouco mais complicada, eu consegui ajudar ela porque sou professora, mas vi muitas mães com dificuldade porque não tem acesso à internet, ou tem dificuldade de saber mexer na internet. ” (Mulher, Grupo Misto 25 a 40 anos – São Paulo).

Segundo os pais e responsáveis, houve escolas, principalmente as públicas, sem a infraestrutura e sistemas adequados e muitos relatam falta de organização por parte das instituições de ensino.

“Depois de muito tempo o governador deu todo o aparato que os professores precisavam para ter as aulas que hoje os alunos estão tendo durante esse ano. O ano da pandemia mesmo, que foi ferrenha a pandemia em Manaus, os professores não tinham muito o que fazer. Os professores que eu conheço usavam a internet de casa, o computador deles, usavam tudo que tinham em casa porque não tinham recurso. ” (Mulher, Grupo Misto 41 a 60 anos – Manaus).

Por outro lado, houve também relatos sobre escolas que durante a pandemia prestaram total apoio aos pais, fornecendo opções de reforço para os alunos(as) que estavam tendo dificuldades.

“A minha filha está na escola estadual e os alunos que estão indo muito mal tem a opção de reforço, tem umas atividades a parte também para quem está abaixo da média. ” (Mulher, Grupo Misto 25 a 40 anos – São Paulo)

a) Ineficácia do meio on-line

Outro fator que dificultou o ensino durante a pandemia foi a falta de eficácia de aulas on-line, especialmente para crianças mais novas. Segundo os pais, elas não têm ainda capacidade de concentração suficiente para ficar muito tempo focadas na tela do celular ou televisão para a absorção do conteúdo pedagógico.

 

Aspectos positivos do ensino on-line

Apesar de a maioria não apoiar o ensino remoto e relatar grandes dificuldades enfrentadas, uma parcela de entrevistados encontraram pontos positivos nesse formato de ensino. Entre eles estão, maior interação entre a família, com mais tempo para estar presente, acompanhando a rotina dos filhos(as).

"Agora, eu vejo também de uma forma abrangente, que, para muitos familiares, foi uma situação boa porque acabou se aproximando mais. E buscar até conhecer seu próprio filho." (Mulher, Grupo Misto 41 a 60 anos – Salvador)

"Acho que tudo teve seu benefício, tivemos algo que há muitos anos não tínhamos, os nossos filhos em casa, a união, conseguia estar mais juntos, assistir um filme juntos, almoçar juntos, tomar um café junto." (Mulher, Grupo Feminino 25 a 50 anos – DF)

Sugestões de ações

Entre as sugestões apontadas pelos participantes para recuperar o prejuízo no ensino das crianças estão:

  • fazer os alunos repetir os anos cursados on-line;
  • aumentar a carga horária das aulas, evitando feriados para recuperar o máximo do tempo “perdido”
  • políticas publicas de valorização de professores
  • aumentar acesso à internet dos alunos de baixa renda
  • maior envolvimento dos pais no ensino dos filhos(as)