Primeiro diretor-executivo da IFI relembra a criação da entidade e analisa atual momento da economia
O primeiro diretor-executivo da IFI, Felipe Salto, é o segundo entrevistado da série que comemora os 9 anos da Instituição Fiscal Independente, neste novembro de 2025. A instituição foi criada em novembro de 2016, pela Resolução 42, assinada pelo então presidente do Senado, Renan Calheiros. Momento em que o país passava pelo que Salto considera “um resgate da responsabilidade fiscal”.
Na entrevista que segue, ele destaca os desafios dos primeiros anos da IFI e analisa o atual momento da economia brasileira.
Qual era a situação econômica do País ao assumir como primeiro diretor-executivo e como organizou a IFI para exercer o papel que cabe a ela até hoje?
Naquele momento, ao final de 2016, o país passava por um resgate da responsabilidade fiscal. A IFI foi instalada em novembro e o Congresso promulgaria, poucos dias depois, a chamada Emenda do Teto de Gastos (EC nº 95/2016). Tanto a IFI quanto o teto foram respostas a um período de deterioração das contas públicas, marcado pelo uso da contabilidade criativa, esta que acabou por alterar o antigo regime de metas para o resultado primário, em vigor desde o final do Governo FHC. Nesse sentido, a criação e instalação da IFI, pelo então Presidente do Senado Federal, Senador Renan Calheiros, foi um passo fundamental.
Ele foi moderno e exerceu liderança importantíssima para a época, vale dizer. Seguiu o movimento de diversos países, que há alguns anos já haviam criado suas próprias instituições ou conselhos fiscais. É preciso ter claro que foi um movimento concreto do Senado para ampliar a transparência nas contas públicas, peça central na tarefa de colocar o país para crescer e prosperar.
Na ocasião, por Ato da Mesa Diretora, recebemos um orçamento para contratar especialistas e um espaço físico. Montei uma equipe enxuta e elaboramos o projeto do que viria a ser a primeira edição do Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF), mantido até hoje pela IFI como carro-chefe. Desenvolvemos ferramentas e métodos para analisar as principais variáveis fiscais, econômicas e orçamentárias e, ainda, acompanhar o cumprimento das metas estipuladas pela Lei, como manda a Resolução do Senado nº 42/2016, que criou a IFI.
Tivemos apoio de parlamentares importantes, como os Senadores José Serra, idealizador da IFI, Tasso Jereissati, Otto Alencar, Fernando Bezerra Coelho, Eduardo Braga, Omar Aziz, Simone Tebet e tantos outros.
Eles enxergaram a importância de um órgão com força e independência técnica para estabelecer um contraponto ao Poder Executivo.
Lembro-me de um fato curioso e que é motivo de orgulho para a IFI, quando recebi uma carta, de autoria do ex-Presidente do Senado e ex-Presidente da República, José Sarney, em que ele elogiava a IFI e nosso relatório recém-publicado. Era, na verdade, um estímulo, uma forma de nos apoiar e dizer: “sigam em frente com o trabalho, pois este é o caminho.”
Fato é que foram momentos iniciais de muito trabalho. Lembro-me de que, na publicação do primeiro RAF, no início de fevereiro de 2017, passamos a noite inteira na sala da IFI para garantir a revisão de cada seção e, no dia seguinte, publicar o relatório e realizar uma coletiva à imprensa. Logo de cara, tivemos boa repercussão e reações, no sentido de debate, com membros da equipe técnica do governo da época, sinal da relevância dos achados que publicamos.
Ao longo do caminho, fomos ajustando, corrigindo a rota e construindo a instituição, por assim dizer. Recebemos o reconhecimento do FMI, da OCDE e de outras importantes organizações. As indicações para as outras duas vagas do Conselho Diretor também me marcaram muito. Trabalhei pelo nome do economista Gabriel Barros, que já estava na minha equipe, e foi indicado pelo Presidente da CAE, Senador Tasso. Para a vaga remanescente, conseguimos o pesquisador Rodrigo Orair, dos quadros do IPEA. A equipe foi sempre pequena, mas contava com pessoas experientes, inclusive dos próprios quadros do Senado, como no caso do Josué Pellegrini, economista brilhante e Consultor Legislativo do Senado, e do Daniel Couri, da Consultoria de Orçamento. Ambos foram, depois, Diretores, tendo dado colaborações muito relevantes. Também tivemos, na Diretoria, a economista Vilma Pinto, que veio do IBRE/FGV, além dos atuais Alexandre Andrade e Marcus Pestana, cujo excelente trabalho merece aplauso e apoio.
Não posso deixar de reiterar o papel fundamental dos Senadores José Serra e Renan Calheiros. Eles não mediram esforços para colocar a IFI de pé e sempre tiveram em mente que o projeto só daria certo se a independência e a elevada qualidade técnica fossem, permanentemente, garantidas.
Qual foi grande desafio nos primeiros anos da IFI?
Credibilidade é algo difícil de se alcançar. Juntamos esforços, cada um com suas características, experiências e capacidades, para mostrar ao Senado, ao Congresso, à imprensa, ao governo e ao mercado que a IFI era para valer. E creio que conseguimos. A IFI completa, agora, nove anos de funcionamento, com trabalhos premiados e reconhecidos. Os estudos são citados, diariamente, pelos principais veículos da imprensa, seus Diretores seguem dando a batalha e, por meio dos diferentes relatórios e estudos, estabelecendo o saudável contraponto com o Poder Executivo.
A IFI deve funcionar como um cão de guarda (“watchdogs”) das contas públicas, como diz a própria literatura sobre o tema. Aprendi isso ainda antes de ser indicado pelo Presidente Renan Calheiros para ser o primeiro Diretor-Executivo da IFI, com o economista Leonardo Ribeiro, servidor do Senado com quem trabalhei no Gabinete do Senador Serra. Ele foi o responsável por trazer ao Senador a ideia da IFI e, a pedido dele, estudar o tema a fundo para subsidiar a inciativa dos projetos legislativos que culminaram com a criação do órgão.
É preciso dizer que os anos iniciais não foram triviais. Tivemos de mostrar essa independência, na prática, com estudos que, por vezes, poderiam desagradar este ou aquele setor, mas que eram, justamente, a forma inescapável para posicionar a instituição como um guardião da responsabilidade fiscal e promotor da transparência. Lembro-me de que o então ministro Henrique Meirelles nos recebeu, na Fazenda, e foi muito receptivo, pois conhecia a experiência internacional, inclusive o CBO, dos Estados Unidos, que é uma grande referência, de fato.
Mas, por outro lado, também enfrentamos resistências; todas, a saber, superadas. Não sem o apoio dos Senadores que mencionei, uma vez que nunca mediram esforços para emprestar sua credibilidade ao projeto e dar o peso necessário para que a IFI pudesse prosperar.
Como nossa equipe era pequena, tínhamos, também, o desafio da constância. A publicação de relatórios, sobretudo do RAF, mas também de notas e estudos relevantes, era quase uma obsessão de minha parte. Afinal, era essa a nossa função legal e, só assim, com volume e qualidade, poderíamos avançar. A equipe foi sensacional, em todos os momentos, mesmo quando os obstáculos pareciam intransponíveis. Muitos ainda estão lá. A eles rendo minha homenagem e aproveito essa oportunidade da entrevista para agradecer pela paciência e por tudo que pude aprender com eles.
Por que é importante a IFI brasileira, como as demais no mundo, ser apartidária?
Política partidária e posições políticas, sejam quais forem, não combinam com as instituições fiscais independentes ou conselhos fiscais, como são chamados esses órgãos em todo o mundo. Claro que a IFI está vinculada a uma casa política, o Senado Federal, mas sua independência é garantida pelo mandato fixo de cada membro do Conselho Diretor. O mandato, conferido a cada indicado, após sabatina e aprovação em comissão e plenário, é o grande instrumento a garantir a autonomia e a blindagem do trabalho técnico desenvolvido pelo órgão. Sob essa regra, os Diretores podem e devem ter bom relacionamento e dialogar com todos os políticos que se interessem pela IFI, mas jamais podem ceder a eventuais pressões, pois isso turvaria ou macularia os trabalhos da instituição. A força da IFI está, justamente, na capacidade de produzir informação relevante, com vistas a estimar o impacto de eventos que tenham efeito fiscal relevante e a ampliar a transparência das contas públicas, da política fiscal e do processo orçamentário.
Isso só tem lugar quando a instituição exerce seu papel apartidário, livre de outros tipos de influência, igualmente, que podem emanar de diferentes atores e setores da sociedade. Quando a imprensa consulta a IFI, cita seus números e cálculos em editoriais e reportagens, convida diretores e equipe para conceder entrevistas e usa, enfim, os materiais produzidos, então, é porque a missão está sendo cumprida plenamente. Essa é a maior evidência – como uma vez ouvi do próprio Jon Blondal, importante figura da OCDE da área de Orçamento Público e de IFIs e Conselhos Fiscais – de que a instituição está no caminho certo. Eles sempre se impressionavam com o fato de a IFI brasileira ter conseguido se colocar tão rapidamente no debate e ter se transformado numa referência para os temas fiscais. Há problemas e aprimoramentos a serem discutidos. Um deles, a autonomia orçamentária, que ainda não existe. Ela é uma perna importante para o futuro da IFI.
Publiquei, quando ainda estava na instituição, um texto para um livro do IPEA, em coautoria com o economista Rafael Bacciotti, analista da IFI, em que mostramos todas essas questões, com comparações internacionais e um relato dos avanços obtidos no caso da IFI brasileira. Evidentemente, há muito por fazer e a IFI tem de ser, sempre, fortalecida. Mas entendo que a instituição já atravessou o Rubicão. Percalços e obstáculos sempre vão surgir. O importante é seguir com o trabalho técnico, publicações frequentes e relevantes e ter em mente que o trabalho de hoje deve ser a base para o de amanhã. Os relatórios e ferramentas desenvolvidos têm de ser imaginados sobre esse prisma. Veja-se, por exemplo, o recente estudo sobre gastos com Saúde, que pude acompanhar como leitor e especialista em contas públicas. É uma obra-prima. Recentemente, os cálculos de impacto da reforma do Imposto de Renda também se tornaram referência no debate, sendo citados, inclusive, pelo Ministro da Fazenda. É a IFI fazendo seu trabalho.
De 2016 para cá, o país enfrenta graves crises fiscais e orçamentárias. Em que momentos a IFI fez diferença durante a sua gestão?
Creio que o ponto alto, considerando-se os 5 anos e quase 4 meses em que fiquei à frente da Diretoria-Executiva, de 2016 a 2022, foi o período da Reforma da Previdência. A IFI tornou-se a principal referência para todo tipo de estimativa e cálculo de impacto de cada item do texto original proposto (da PEC). Ao longo da tramitação, na Câmara e no Senado, também fazíamos as contas de impacto fiscal a partir das alterações promovidas nas diferentes etapas do processo legislativo. Nós replicamos o modelo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e inserimos nossos próprios parâmetros macroeconômicos. Deu um trabalho enorme, mas foi muito relevante, porque todas as contas que o governo divulgava podiam ser cotejadas com nossas próprias estimativas.
Essas estimativas eram citadas pelas consultorias, pela imprensa e pelos parlamentares. Naquele momento, a IFI se consolidou, de fato. Lembro-me de o Valor Econômico mencionar, em editorial de março de 2019, que a instituição era pioneira em divulgar estimativas consistentes para os efeitos fiscais da reforma da previdência. Por algum tempo, eu deixei esse editorial do jornal impresso no nosso mural lá no espaço da IFI. Vamos ter presente que, até então, só o Executivo possuía cálculos próprios a respeito da reforma.
Outros episódios também merecem ser lembrados, como no caso da crise dos caminheiros e do cálculo do subsídio e mesmo nos diferentes momentos de apresentação de propostas de reforma ou de projetos relevantes nas áreas fiscal e orçamentária, como a PEC dos Precatórios. Os problemas fiscais, por assim dizer, continuam presentes e o desafio de obtenção das condições de sustentabilidade da dívida ainda não foi superado. Daí a importância de se ter um órgão como a IFI conduzindo pesquisa e análise de modo técnico e independente, como a instituição vem fazendo sob a atual gestão.
Como a IFI atuou quando a pandemia parou o Brasil e o mundo e o governo precisou socorrer os brasileiros de baixa renda, os pequenos negócios?
Foi um momento muito específico, de fato, em que nós passamos a acompanhar toda a movimentação do governo e do Congresso para reagir àquele fenômeno da pandemia da covid-19. De nossa parte, me lembro de participar de reunião com o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a seu convite, para ajudar a pensar as transferências que seriam feitas e os critérios a serem considerados. Também avaliamos as medidas legislativas propostas e criamos um painel para acompanhamento de todos os créditos orçamentários emitidos. Além disso, adaptamos nossas análises e projeções para contemplar os efeitos sobre o PIB, a inflação, os juros e toda a gama de variáveis relevantes. A pandemia alterou fortemente a dinâmica da atividade produtiva, do consumo das famílias e do crédito. Obviamente, os orçamentos precisaram ser ajustados e guarnecidos com recursos suficientes e, também pela presença da IFI, o acompanhamento de todo esse processo acabou sendo feito sob a luz do sol.
Foi um período muito triste da vida nacional e para tantas pessoas que perderam amigos e entes queridos. Mas, como tudo na vida, foi também momento de aprendizado. No âmbito da IFI, conseguimos manter a equipe coesa e produzindo informações e análises úteis àquele momento tão delicado.
Sendo apartidária, a IFI não opina, não dá pitacos, mas ao fazer análises e projeções, e com alertas, acaba indicando caminhos. A situação das contas públicas vem se agravando ano a ano. Supondo que ainda dirigisse a IFI, que caminho apontaria para estancar a dívida, produzir superávits e impulsionar o desenvolvimento do País?
Há uma linha tênue entre a recomendação de política e a análise pura e simples. Os diagnósticos realizados pela IFI, bem como as projeções, são fundamentais para que se possa debater a solução para o problema fiscal. A instituição, afinal, existe para defender a responsabilidade fiscal, a transparência e a melhoria das condições fiscais do país; e nada diferente disso.
O Brasil ainda amarga uma dívida na casa de 80% do PIB, com déficit nominal de mais de 8% do PIB (incluídos os pagamentos de juros). O desafio é voltar a gerar superávit primário. Combinado com algum crescimento econômico e juros reais mais baixos, será possível recobrar, em poucos anos, as condições de sustentabilidade. Isso demandará um conjunto de ações, que passam pela discussão das vinculações e indexações, mas também pelo corte de gastos tributários e subsídios em geral. A recuperação de receitas, uma boa agenda conduzida pelo Ministro Fernando Haddad, é correta e deveria continuar no rol de prioridades.
Estamos pecando, por outro lado, na ausência de medidas mais estruturais para o lado das despesas. Para isso, será preciso um esforço conjunto, no sentido de se desenhar um conjunto de medidas que sejam politicamente viáveis e, principalmente, que estejam diretamente vinculadas à possibilidade de elevar as taxas de crescimento econômico do país. As spending reviews, que este governo começou a promover, estão no centro dessas soluções, a meu ver. Mas esses processos de revisão de gastos têm de ser mais ousados, abarcando todos os principais programas e ações orçamentários. O Orçamento está no modo piloto automático. A rigidez já ultrapassa os 95% e as despesas destinadas a investimentos são cada vez mais exíguas. O risco de shutdown é real, como o próprio anexo do PLDO de 2026 mostrou, indicando, de maneira inédita, projeções negativas para a despesa discricionária. Não adianta apenas ter uma regra fiscal boa, como julgo, aliás, o Novo Arcabouço Fiscal. É preciso cumprir as regras estipuladas.