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Mulheres transformaram o cangaço

08/08/2017 09:40

A Procuradoria Especial da Mulher do Senado (ProMul) realizou uma Roda de Conversa sobre as Mulheres no Cangaço, com o pesquisador, professor, historiador e cineasta baiano Manoel Neto, na sala 2 do Instituto Legislativo Brasileiro, no dia 3 de agosto. “As mulheres entraram tardiamente, mas de forma marcante na história do cangaço”, segundo Manoel Neto.

À frente do Centro de Estudos Euclydes da Cunha (CEEC), da Universidade Estadual do Estado da Bahia (UNEB), Manoel Neto é um dos diretores de Feminino Cangaço. O documentário de 2016, dirigido também por Lucas Vianna, alcançou 100 mil visualizações no Youtube esta semana e será exibido na TV Senado, que gravou edição do programa Cidadania com Manoel Neto e a senadora Lídice da Mata (PSB-BA).

O filme retoma, aproveita e aprofunda tema pioneiramente abordado por Hermano Penna, em As Mulheres no Cangaço, produzido em 35 mm para o Globo Repórter, em 1977, e tratado, em livro por Antônio Amaury Corrêa de Araújo, em 1985, um dos especialistas ouvidos em Feminino Cangaço, ao lado de Frederico Pernambucano de Melo, Tadeu Botelho, Cecília Soares, Germana Araújo e outras(os).

O marco inicial da participação feminina nos grupos de cangaço é a união entre Maria Bonita e Lampião, em 1929, quando ela tinha 18 anos de idade e rompeu um casamento. O ingresso de Maria abriu a porta para cerca de 50 a 60 mulheres seguirem o mesmo caminho, com nomes em geral associados a um companheiro, como Dadá a Corisco, Adília a Canário, Inacinha a Gato, Dulce a Criança, Sila a Zé Sereno, Cristina a Português, Lídia a Zé Baiano, etc.

Humanização

Com as mulheres, o cangaço se tornou mais humano. Os crimes de violência sexual diminuíram e os grupos passaram a ser mais recebidos com menos temor e hostilidade.  Os cangaceiros assimilaram e aplicaram técnicas de costurar e bordar – que a sociedade tradicional só confiava às mulheres – à confecção das roupas e ornamentos que faziam questão de exibir, com pompa.

“Já disse alguém que os cangaceiros não tinham só uma aparência – eles eram uma aparição”, disse Manoel Neto.

Acostumados a viver em grupos exclusivamente masculinos, sem divisão sexual do trabalho, os cangaceiros não mudaram os hábitos: continuaram a cozinhar, coser, costurar, sem que as mulheres necessariamente se transformassem, por outro lado, em combatentes profissionais – um dos mitos que Feminino Cangaço ajuda a dilucidar.

As mulheres portavam e manejavam armas, mas com exceção de Dadá, não atuavam na frente de combate. Muitas vezes, os tiros de suas pistolas serviam como sinalização, comunicando sua posição pelo som.

Superficialidade

Como pesquisador, Manoel Neto avalia que muito da literatura do cangaço peca pela superficialidade, “porque a pessoa lê um livro sobre cangaço e se sente capaz de fazer mais dois, guiada mais ela imaginação, pelo imaginário, que pela pesquisa”.

No caso específico da realização de Feminino Cangaço, “o desafio foi o de não olhar para a mulher enxergando só cangaço, mas tentar olhar para a cangaceira de modo humanizado, como mulher”. Segundo Manoel, ele se atentou para essa “armadilha durante a comemoração dos 100 anos de nascimento de Maria Bonita, quando ele, “todo mundo se pegou falando em cangaço e não em Maria Bonita”.

Durante a Roda de Conversa, Manoel Neto resistiu a fazer comparações entre o passado e o presente. Para ele, as cangaceiras eram, sim, “transgressoras naturais”, mas não encaixam totalmente no figurino de precursoras do feminismo. O banditismo do cangaço era eminentemente rural e nisto se distanciava de fenômenos atuais e urbanos, com o tráfico de drogas.

Manoel, no momento, prepara um filme sobre a vida de Dadá após o cangaço. Nascida em 1915, ela era uma menina, quando foi raptada e estuprada por Corisco, e tinha só 25 anos quando deixou o cangaço.

Ocaso

A prisão de Dadá, em 1940, ferida e capturada no combate em que defendia Corisco, o companheiro que tinha os dois braços inválidos e estava impossibilitado de atirar, marca o fim do cangaço.

“Enquanto deu lucro, o cangaço teve vida, mas entrou em conflito também com o projeto modernizador do Estado Novo”, disse Manoel.

O pesquisador lembrou o bom humor de Lampião , segundo o qual o cangaço era uma profissão muito custosa, mas que dava lucro, dizendo “que só não trabalhava mais porque a polícia não deixava”.

Pauta Feminina

Para Francisco Miguel da Silva, que trabalha na ProMul, mas está há 37 anos no Senado, a Roda de Conversa e as gravações de Manoel Neto à TV Senado dia teve um sabor especial, de nostalgia e lembrança. Seu pai, José Miguel da Silva, era primo de Maria Bonita, nascido no mesmo ano e cidade que ela, Santa Brígida, 1910, e também trabalhou no Senado.

Entre outras presenças, participaram também da conversa Zezé Rocha, que foi deputada estadual na Bahia e hoje assessora a senadora Lídice, Jean Cleaver, que trabalha no setor de traduções do Senado, e Mônica Milard Alvarenga, que preparou uma resenha de Feminino Cangaço.

No dia 24 de agosto, a ProMul dedicará a 45ª Pauta Feminina à discussão, com pesquisadores e realizadores, sobre o papel do cinema no registro de trajetórias femininas e na construção da memória feminina.