Comissão Temporária da Covid-19 aprova prioridade para grávidas na vacinação

21/05/2021 13:10

A Comissão Temporária da Covid-19 (CTCOVID-19) aprovou nesta sexta-feira (21) requerimento do presidente do colegiado, senador Confúcio Moura (MDB-RO), para a inclusão imediata das grávidas e lactantes no grupo prioritário de vacinação nacional contra a covid-19. No mesmo pedido está prevista a inserção das gestantes em campanhas publicitárias sobre cuidados preventivos e temas relacionados à vacinação. O texto será agora enviado ao Ministério da Saúde.

A senadora Daniella Ribeiro (PP-PB)  disse que buscou apoio do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que lhe garantiu a imunização prioritária das gestantes.

— Muitas mulheres me procuraram dizendo que preferem mil vezes serem vacinadas do que correrem o risco de contrair covid. São tempos difíceis para todos nós, e também vemos isso nas grávidas, que querem ser vacinadas. O prejuízo de deixarmos crianças órfãs é terrível, e todos nós sabemos o que isso provoca — disse.

Foi a 23ª reunião do colegiado, que tem previsão de funcionamento até 30 de junho. Antes da aprovação do requerimento, a comissão debateu com especialistas os efeitos e sequelas da covid-19 em grávidas.

Mortes

Integrante do Grupo Brasileiro de Estudos de Covid-19 e Gravidez, a ginecologista e obstetra Melania Maria Ramos de Amorim apontou risco de morte nesse grupo duas vezes maior do que na parcela não infectada por coronavírus, fato que vem gerando alertas dos especialistas desde o início da pandemia. Segundo ela, a cada dez mortes de gestantes por covid registradas no mundo, oito ocorrem no Brasil. Ao defender a aplicação de vacinas em caráter urgente para grávidas e puérperas, a médica disse que a chance de efeitos colaterais é mínima e não deve ser usada como critério para a não imunização.

— Tudo se trata de uma relação de riscos e benefícios. Mas possíveis efeitos irreversíveis da vacina não podem ser comparados com a devastação e os efeitos da covid-19. Um caso de trombose possivelmente atribuído à vacina ocorre em 0,004%, ou seja, quatro a cada milhão de vacinados. Mais de 100 mil mulheres já foram vacinadas ao redor do mundo, e sem gerar nenhuma preocupação sobre essa aplicação em gestantes. As vacinas são seguras, sim. E todas as gestantes devem ser imunizadas — declarou.

A senadora Zenaide Maia (Pros-RN) reafirmou a necessidade de ouvir a ciência e defendeu a realização de campanhas publicitárias educativas, por ser, segundo afirmou, “a única maneira de combate às notícias falsas”.

— Diante da gravidade da doença e da falta de vacinas, gargalos foram criados, e isso vai sair muito caro para todos. A gente não sabe até que ponto as sequelas serão permanentes, como foi demonstrado no debate. A gente recebeu informações maravilhosas, e olhe que sou médica infectologista. São vocês [os especialistas] que estão mostrando aos brasileiros que distanciamento social, uso correto da máscara e higiene das mãos é essencial para salvar vidas — disse.

Confúcio também manifestou preocupação com o que chamou de “estragos” da doença.

— Esse vírus inicia o estrago e deixa manifestações posteriores. É uma doença para muitos especialistas, e não apenas para um, porque é realmente fora do normal — afirmou.

Sequelas

Os debatedores discutiram ainda a busca por tratamento médico para sequelas da covid-19 e a possibilidade de alteração no plano de vacinação diante do número de jovens internados por causa da doença. Médica especialista em medicina fetal, Adriana Suely de Oliveira Melo ressaltou que há risco de transmissão do vírus para a placenta, podendo a infecção chegar ao feto. Ela reforçou que mulheres detectadas com covid-19 têm risco de sofrer resultados neonatais adversos e até aborto e disse ser primordial a vacinação dessas pessoas.

— Precisamos saber por que a vacinação das grávidas sem comorbidades foi retirada sem uma grande discussão. A gente vê, além dos dados oficiais do Ministério da Saúde, na prática do dia a dia, pacientes sem comorbidades chegando em estado grave. A gente tem observado um aumento no número de mortes e de abortos, e esse número será muito maior sem a vacinação — analisou.

Representante do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), o médico Bruno Leandro de Souza mencionou estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, em parceria com 18 países, publicado em abril, que evidenciou o potencial de mortalidade de gestantes contaminadas por covid-19 em relação às grávidas não infectadas. Bruno ressaltou que, apesar de haver dificuldades para elaboração das pesquisas, há evidências de que o risco de complicações da infecção tende a ser maior nessas mulheres.

Presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Irma de Godoy defendeu mais estrutura, insumos e processos bem estabelecidos para o tratamento de pacientes que enfrentam a covid-19. Ela apontou que menos de 1% dessas pessoas tem acesso a serviços como reabilitação e uso do oxigênio, e defendeu a necessidade de melhorias no atendimento multiprofissional. Para a médica, todas as pessoas, e não apenas as gestantes, precisam ser imunizadas.

— A prioridade, na verdade, é todo mundo, todo mundo merece ser imunizado. As gestantes são necessárias, embora a gente não saiba a exata proporção da gravidade da doença. Em qualquer campanha de imunização, a priorização é feita com base nos grupos de risco. Neste momento, vejo muito difícil mantermos uma equidade no nosso sistema de vacinação, porque ainda não temos dados suficientes para essa mudança — ponderou.

Falha assistencial

O médico do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Marcos Nakamura Pereira chamou a atenção para o fato de que condições sociais, como a distância entre a moradia da paciente e o hospital para o qual ela está habilitada, aumentam o risco de mortalidade. Ele apontou que há falhas assistenciais sobre esse grupo. Ao considerar que o número de mortes é maior que o divulgado, o debatedor defendeu que a vacinação contra o coronavírus seja agilizada para essas mulheres, mesmo que não apresentam comorbidades.

— Nós levantamos dados até 10 de maio e encontramos 1.088 mortes maternas por covid-19 no país. Em 2021, temos mais óbitos maternos do que em todo o ano de 2020, e essa curva vem aumentando, provavelmente, devido à variante da doença que vem ocorrendo. A taxa de mortalidade é de 3,9 para cada milhão de habitantes, ou seja, o Brasil tem 10 vezes mais mortalidade [de gestantes] do que países como Estados Unidos. Isso, sem contabilizar as outras 218 mortes cujo diagnóstico não foi feito — disse.

Diretor do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas (Dapes), do Ministério da Saúde, Antonio Rodrigues Braga Neto afirmou que as gestantes apresentam grandes chances de internação em UTI e de mortalidade. Segundo ele, o governo destinou R$ 259 milhões para estados e municípios atenderem gestantes e puérperas. E negou ter havido orientação da Secretaria de Atenção Primária à Saúde para que o acompanhamento pré-natal fosse interrompido.

— Embora no início da pandemia a percepção fosse de que as gestantes não teriam um risco aumentado de prognóstico desfavorável na vigência de covid, rapidamente os resultados do Brasil e do mundo mostraram que não apenas aquelas de alto risco, como também aquelas de risco habitual apresentavam não somente maior chance de admissão em UTI materna, obstétrica adulta, como também risco de desfecho para mortalidade materna. Isso, sem dúvida, fez com que o governo brasileiro fizesse ações para esse enfrentamento — observou.

Fonte: Agência Senado

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