Investimentos do Brasil na Venezuela serão examinados pela CRE

Da Redação | 27/02/2019, 14h07

A Comissão de Relações Exteriores (CRE) deve participar de audiência pública em que dirigentes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) serão chamados a detalhar os empréstimos feitos pelo Brasil à Venezuela durante os governos do PT (de 2003 a 2016).

Em uma reunião da CRE nesta quarta-feira (27) para discutir a situação venezuelana, o senador Eduardo Girão (Pode-CE) disse que os financiamentos podem ter fortalecido os governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro, relegando ao Brasil parte da responsabilidade pela atual crise política e humanitária no país vizinho. De acordo com o senador, dinheiro brasileiro financiou metrôs, usina, ponte e saneamento básico.

— Queremos verificar se há responsabilidade do Brasil nessa crise. O Brasil investiu bilhões de reais que podem ter financiado a atual ditadura — destacou Girão.

A audiência vai acontecer na Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e defesa do Consumidor (CTFC), ainda sem data marcada.

Soraya Thronicke (PSL-MS) reforçou a importância de debater a questão, dizendo que bilhões de dólares foram emprestados a juros baixos “de forma estranha”:

— É grave. Foi muito dinheiro financiando ditadura. Fora que o Brasil tem sua dívida, paga juros, precisa investir aqui e ainda empresta para quem não paga — reclamou.

Na reunião da CRE, os senadores avaliaram a postura da diplomacia e do Exército e a recusa do governo de Maduro à ajuda humanitária enviada pelo Brasil e pela Colômbia, o que acirrou os ânimos nas fronteiras durante o fim de semana e resultou em morte de civis venezuelanos.

Diplomacia

Para Jaques Wagner (PT-BA), a postura do Brasil sobre socorro e ajuda humanitária deve seguir fielmente a das Nações Unidas.

— A Venezuela já fez a demanda de ajuda humanitária à ONU. Se houver uma missão da ONU de levar ajuda humanitária, o Brasil deve participar, mas o país não deve tomar parte em articulação que não esteja sob o guarda-chuvas da ONU.

Wagner acredita não ser hora de o Brasil se dedicar a problemas que estão além da fronteira e disse que a diplomacia brasileira precisa ser “menos de punho de renda e mais como a americana, que é pragmática e comercial”.

A posição dos Estados Unidos na crise foi comentada por vários senadores. Para Telmário Mota (Pros-RR), o Brasil deve manter sua tradição na mediação, paz e boa vizinhança, mas está sendo usado pelo governo de Donald Trump, que teria mais interesse no petróleo do que na crise humanitária.

— Se estivessem preocupados com o povo, deveriam suspender as sanções, chamar a ONU e a Cruz Vermelha. Mas na verdade essa carnificina que está acontecendo na Venezuela não tem as impressões digitais dos Estados Unidos porque eles usaram a Colômbia e o Brasil para fazer esse papel.

Humberto Costa (PT-PE) reforçou o discurso de Telmário, dizendo que o Brasil não deve entrar numa guerra que não é sua. Até pelo histórico e reconhecimento internacional por sua posição equilibrada nos conflitos, buscando a construção da paz e a mediação, avaliou:

— Mas atualmente o Ministério das Relações Exteriores joga gasolina na crise. Ainda bem que os militares em Roraima, de maneira muito sábia, adotam a posição de moderação.

O senador Alessandro Vieira (PPS-SE) também comentou a relevância econômica e estratégica da Venezuela para todo o mundo, por causa do petróleo.

— Não devemos endossar o discurso tolo sobre a defesa de democracia, a partir de países que toleram ditaduras no mundo inteiro, dependendo da conveniência econômica. O interesse essencial do nosso grande parceiro econômico, que é os EUA, é o controle de uma importante rota de produção de petróleo e gás.

Mediação

Líder do partido de Bolsonaro no Senado, o senador Major Olimpio (PSL-SP) disse que “corpos no chão é tudo o que o Brasil não quer neste momento”. E que o país tem grande chance de se colocar de forma altiva nesse processo como mediador.

Para Márcio Bittar (MDB-AC), o Brasil precisa se envolver na questão da Venezuela e se posicionar porque o regime do país vizinho é ilegítimo e há uma questão humanitária.

— O país em que as pessoas reviram lixo para ver se tem resto de comida é uma questão humanitária. O regime de Maduro foi surreal ao rejeitar ajuda humanitária e atacar seu próprio povo.

Bittar afirmou que, nos últimos anos, a Venezuela deixou de ser um dos mais ricos do continente para estar entre os mais pobres.

— O PIB caiu 40% e a inflação atingiu 1.000% ao ano, 61% da população vive na extrema pobreza e 64% das pessoas perderam em média 11 quilos. Negar ajuda humanitária é surreal.

Roraima

Mecias de Jesus (PRB-RR) relatou o que a crise tem gerado em seu estado: problemas agrários e fundiários e colapso da saúde, da segurança pública e da educação.

— Não só os venezuelanos sofrem com a falta de assistência. Ela não chega aos roraimenses também. Queremos paz, porque somos o primeiro alvo. Mas paz com diálogo.

Telmário disse aos senadores que Roraima depende do calcário da Venezuela, do ferro e da gasolina, e mais de 60% do consumo de energia no estado é gerado no país vizinho. O comércio também sofre com o fechamento da fronteira, o que afastou os compradores venezuelanos.

— O estado está numa crise socioeconômica gravíssima. Proporcionalmente, somos o estado com maior população abaixo do nível de pobreza. A violência contra jovens e mulheres estourou, assim como o desemprego. A migração desordenada deixou todas as cirurgias eletivas suspensas; não tem antibiótico, não tem leito.

Segundo ele, aulas foram adiadas, não há transporte escolar, os terceirizados estão há sete meses sem receber e os médicos estão há dois meses sem salário também.

— O governo federal está de costas pro estado de Roraima — desabafou.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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