Cultura de paz é alternativa para prevenir problema

Da Redação | 05/05/2015, 12h20

Convivência no ambiente escolar melhorou após participação em programa da Justiça. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

 

O toque de Beethoven no sinal do intervalo da escola ecoa ao longe, os alunos entram e saem das salas em movimento frené- tico e barulhento. Esse é um dia rotineiro no Centro de Ensino Fundamental 20, em Ceilândia.

 

— Aqui a campainha não toca como em outras escolas, os alunos escolheram democraticamente qual música queriam ouvir nos intervalos e no recreio. Foi feita uma eleição — informa orgulhosa a coordenadora pedagógica, Robervânia Teixeira.

 

O inusitado toque dá o tom ao visitante de que aquela é uma escola diferente. Mesmo numa das regiões mais pobres do Distrito Federal, o CEF 20, como é mais conhecido, tem mostrado que é possível promover uma cultura de paz.

 

— Quando eu cheguei aqui, em 2002, esta escola era vista como um segundo Caje (antigo Centro de Atendimento Juvenil Especializado para cumprimento de medidas socioeducativas por menores infratores). Tínhamos policiamento 24 horas. A gente via dentro da escola um ambiente de medo. Os professores estavam com medo, os alunos estavam com medo, porque a gente tinha gangues, tinha um ambiente muito conflituoso dentro da escola. Então a gente começou a ter ações contrárias à violência e foi aí que a gente foi vencendo — lembra.

 

A Justiça Comunitária do TJDFT está contribuindo para diminuir os conflitos entre alunos, professores e a comunidade na escola. Uma parceria com a regional de ensino implantou o projeto-piloto Vozes da Paz, um grupo coordenado que envolve a participação de professores e alunos no Círculo da Paz, na busca da resolução de conflitos, sem a necessidade de judicializar as questões.

 

— A gente trabalha com os princípios da mediação e, a partir desses princípios, que são o diálogo, os valores da comunicação não violenta, da responsabilidade, da corresponsabilidade e do respeito, a gente busca que as pessoas possam lidar com seus conflitos de uma maneira construtiva, de uma maneira positiva — explica Rogério Gonçalves, analista judiciário responsável pelo projeto na escola.

 

Círculo da Paz

 

A professora de teatro Glaucilene Soares conta que foi aluna da escola na época em que a violência ainda dominava o ambiente.

 

— Eu era aluna quando era considerada uma escola-Caje. Era professor levando soco na cara, polícia no portão... A gente aparecia no jornal, mas aparecia de uma forma agressiva, violenta. Conforme a escola foi evoluindo, eu, enquanto aluna, também fui evoluindo — relembra.

 

Ela conta que o projeto envolveu os alunos em busca da resolução dos conflitos antes que gerem a violência.

 

— A escola me escolheu para ser a aluna que fosse falar da paz, que fosse mediar conflitos e agora, em 2015, eu tenho muito orgulho em falar da escola da qual eu fui aluna e, hoje em dia, eu trabalho nela de uma forma positiva — revela.

 

A juíza Gláucia Foley, coordenadora do Justiça Comunitária, informa que o projeto foi implantado como piloto em duas escolas, inicialmente no Centro de Ensino Fundamental 35, também em Ceilândia, no final de 2012 e, em 2014, no CEF 20.

 

Paz sem voz é medo

 

Ela explica que a violência, como todo conflito, acontece de uma necessidade que não é satisfeita e, muitas vezes, é preciso apenas dar voz aos insatisfeitos para que o processo de paz ocorra.

 

— A primeira premissa que nós adotamos no Vozes da Paz é que a violência escolar está disseminada em todos os segmentos escolares. Há uma tendência muito preconceituosa de estigmatizar o jovem como o problema, a fonte da violência. Em geral, a violência nas escolas acontece nos silêncios que são impostos, muitas vezes, aos alunos ditos problemáticos, que não têm voz — destacou.

 

Rogério Gonçalves informa que no Círculo da Paz os adolescentes aprendem a dialogar para lidar com as situações de conflito.

 

— Para promover a paz, não quer dizer que o ambiente não tenha mais conflitos. A gente acredita que existem os conflitos. O que muda, na verdade, é a forma de como lidar com esses conflitos. Agora as pessoas têm um espaço para dialogar, para conversar e tomarem decisões — explica.

 

Vinícius Nogueira, 13 anos, participa do projeto e mostra que aprendeu a lição:

 

— A gente tem que trabalhar o mental. Quando ocorre uma briga a gente pode tentar separar e aquela pessoa pode xingar a gente, falar palavras que não são boas. A gente tem que preparar o mental para saber que aquilo não vai atingir a gente, não vai surtir efeito. Que a pessoa está falando bobeira, besteira, porque está com raiva — analisa.

 

Outro aluno, Yan Carlos Nobre dá dicas de como reagir às brigas no ambiente escolar:

 

— No projeto, a gente aprende a combater as brigas e os conflitos. Acho importante saber como se portar numa briga. Nem tudo é violência. O diálogo é a maior briga, porque eu estou confrontando o mental e isso é mais que “porrada” — constata.

 

 

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Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)