Trump compromete a confiança nos Estados Unidos, diz Celso Lafer

Paulo Sérgio Vasco | 10/04/2017, 20h47 - ATUALIZADO EM 11/04/2017, 11h11

Ao prometer que defenderá com agressividade a soberania americana em política comercial, Trump está colocando em pauta o não cumprimento de direitos e obrigações assumidas e a boa fé dos Estados Unidos no trato internacional. A avaliação foi feita nesta segunda-feira (10) pelo professor e jurista Celso Lafer no segundo painel do ciclo de debates O Brasil e a Ordem Internacional: Estender Pontes ou Erguer Barreiras?, promovido pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE).

- Estamos diante de um período de incertezas, é preciso ver o desdobramento da intervenção militar na Síria, a reação da Rússia e do Irã para saber quais são os próximos passos, em função da reação desses atores. O Oriente Médio é fonte de grande incerteza, com Estados falidos, em guerra civil, refugiados em penca e conflitos regionais e internacionais. A Coréia do Norte é problema da maior magnitude, por possuir armas nucleares – afirmou.

Ex-ministro das Relações Exteriores do governo Collor, Celso Lafer avaliou que, ao ser eleito, Trump propôs uma “quebra da linha de continuidade, permeado pela geografia das paixões e alimentado pela força centrífuga dos múltiplos particularismos, o que compromete o capital americano da confiabilidade.

- O teste dos limites internos está em andamento. É possível que a iniciativa de atacar a Síria signifique uma dimensão que possa granjear-lhe apoios internos nesse momento, mas também significa risco na medida em que os passos seguintes não estão claros – afirmou.

Hegemonia

Para o professor Creomar de Souza, a pax americana, vista como um consentimento vinculado à postura de hegemonia nas relações internacionais, pode ter existido em um curto período da história recente, mas enfrenta hoje um processo de contestação em várias ordens.

Creomar de Souza apontou o crescimento da China em termos de desafio de segurança; o renascimento da Rússia via governo Putin, e a ideia de neo-eurasianismo, como ente libertador da Europa eslava; o surgimento da Coréia do Norte, com sua diplomacia de comida por armas, de acesso a alimentos, para diminuir a velocidade de programa ou capacidades nucleares; e o terrorismo de matiz  , que vai se tornando um elemento de contestação muito forte à pax americana e àquilo que ela representa, como a liberdade de comércio e os direitos humanos.

- Trump é uma reação ao processo de globalização. A mudança envolve progresso e melhoria, mas pode significar o de resgate de valores tradicionais que em alguma medida estão ameaçados pela ordem vigente. E nesse aspecto Trump surge como um desafio à América profunda que não consegue se adaptar à lógica da globalização – afirmou.

Regras do jogo

Por sua vez, o consultor Joanisval Gonçalves ressaltou que os Estados Unidos estão diretamente envolvidos como potência hegemônica no sistema internacional há pelos menos 100 anos.

Gonçalves, que acompanhou as eleições americanas de 2016 no estado de Ohio, afirmou que “os dois grandes eleitores de Trump foram Barack Obama e Hillary Clinton”.

- Trump efetivamente venceu as eleições. Ele jogou as regras do jogo político e venceu. O sistema político existente há mais de duzentos anos estabelece que, ainda que se ganhe por maioria popular, há que ganhar no colégio eleitoral – afirmou.

O consultor ressaltou ainda que Trump, acima de tudo, é um “homem de negócios”, e que a perspectiva do presidente americano irá mirar sempre nessa direção.

- Trump é o primeiro presidente dos Estados Unidos que nunca ocupou cargo público, posição ou cargo no governo ou foi membro das Forças Armadas. Trump conseguiu falar a língua do americano médio, sendo bilionário e pertencente à elite da potência mais rica do planeta – disse.

Presidente da CRE, o senador Fernando Collor (PTC-AL), que coordenou a audiência pública, advertiu que o momento político internacional exige reflexão, ponderação, freio em certos protagonismos e, sobretudo, diálogo. Collor também leu a nota oficial do Itamaraty, em que o governo brasileiro manifesta preocupação com a escalada do conflito militar na Síria, e reafirma a importância do diálogo para a solução do conflito que atinge o país.

O terceiro painel da CRE sobre política internacional ocorrerá em 24 de abril e terá como  tema "O cetro do czar: o papel da Rússia na geopolítica global".

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)