Reconhecer o Forró como patrimônio resguarda potencial da cultura nordestina

Da Redação | 23/05/2018, 17h34 - ATUALIZADO EM 24/05/2018, 08h54

Salvaguardar as matrizes do forró significa oferecer condições de materializar o potencial da cultura, da diversidade e da identidade do povo nordestino. Essa compreensão foi um dos resultados do debate na audiência pública promovida pela Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) nesta quarta-feira (23).

Requerida pela senadora Fátima Bezerra (PT-RN), o tema da audiência foi a proposta de reconhecer o forró como patrimônio imaterial da cultura brasileira. Para Fátima, o forró é uma das expressões mais genuínas da cultura nacional, pois retrata as alegrias e amarguras do povo nordestino. Além disso, ressaltou, a cadeia produtiva do forró gera riquezas não só no período de festas juninas.

— O forró gera renda o ano inteiro, porque é uma forma de cultura viva, presente no cotidiano das grandes, médias e pequenas cidades de todo o país. Ele é importante para a identidade de uma nação e imprescindível para a educação e a cultura — disse.

Em 2011, a Associação Cultural Balaio Nordeste encaminhou ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o pedido de registro das Matrizes do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil. Desde então, a associação vem realizando fóruns estaduais com objetivo de mobilizar os forrozeiros e promover espaços para o debate das questões pertinentes ao pedido.

Segundo o coordenador-geral de Identificação e Registro do Instituto do Iphan, Deyvesson Alves, é necessário haver o engajamento da comunidade que pede o reconhecimento, pois o instituto não disponibiliza de recursos suficientes para a construção do dossiê necessário.

— É preciso fazer estudos específicos, que argumentem o valor nacional, a importância e o território de abrangência da cultura do forró. Para isso, precisamos contratar pesquisadores e profissionais para fazer um documentário em vídeo — explicou.

Deyvesson Alves informou que, este ano, o instituto recebeu pouco mais de R$ 1 milhão para implantar ações em todo o país.

Ameaça de outros ritmos

De acordo com a presidente da Associação Cultural Balaio Nordeste, Joana Alves, o forró está perdendo força nas festas de São João, pois grande parte dos municípios nordestinos tem contratado para o evento artistas famosos que tocam outros ritmos.

— A proposta de festa junina é trazer grandes artistas, porque dizem que eles trazem público. Mas quem disse que não temos forrozeiros capazes de trazer público? Quando se contrata um artista grande, paga-se R$ 400 mil para ele trazer sua banda. Para o forrozeiro, paga-se apenas R$ 300, sendo que seu instrumento de trabalho, que é a sanfona, custa em média R$ 22 mil. Não podemos dizer que não temos pessoas capacitadas, o que falta é investimento nas políticas públicas — relatou.

Segundo Rozania Macedo, presidente da Comissão Estadual do Forró na Bahia, 417 municípios baianos se beneficiam economicamente com as festividades de São João.

— Eu vivo a dificuldade de colocar os forrozeiros na época junina. É preciso registrar o forró como patrimônio imaterial. Onde se planta e semeia uma cultura, se colhe o forró — comentou.

O artista Roberto dos Santos, conhecido como Roberto do Acordeon, reivindicou políticas públicas em defesa dos forrozeiros.

— Precisamos defender o forrozeiro. Quando um artista de mídia chega no município para fazer um show, o processo de fechamento de contrato é rápido. Mas quando nós, forrozeiros, queremos fazer, há dificuldade. Dizem que precisa ser feita licitação e outras coisas que não facilita. Muitas vezes, o município diz que vai avaliar, mas o artista é avaliado pelo povo, não por três ou quatro pessoas — reivindicou.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)