Debate na CRE destaca benefícios da abertura econômica para o mundo

Da Redação | 22/05/2017, 21h46 - ATUALIZADO EM 23/05/2017, 10h21

Participantes de audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) concordaram que é preciso sustentar a economia global aberta e com o mínimo de barreiras, pois essa experiência tem sido muito benéfica para a humanidade. A comissão realizou nesta segunda-feira (22) mais uma audiência dentro do ciclo de debates sobre o atual cenário internacional. O tema foi a ordem econômica, o protecionismo e o livre comércio entre as nações.

O contexto do debate é a recente onda de fortalecimento de políticos que manifestam ideologias protecionistas. Exemplos são o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, eleito em 2016; os líderes britânicos que guiaram o processo de saída do Reino Unido da União Européia, no evento conhecido como “brexit”.

O economista Samuel Pessôa, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explicou que o mundo vive, desde a década de 1970, uma segunda grande onda de globalização. Sua principal característica é a inclusão das populações asiáticas às cadeias produtivas e aos mercados internacionais. Isso fez com que a desigualdade econômica entre países fosse drasticamente reduzida, e viabilizou uma geração de riqueza sem precedentes na história da humanidade,

No entanto, prosseguiu ele, esse influxo de trabalhadores asiáticos no mercado global transferiu para eles os empregos de menor qualificação, afetando as populações mais vulneráveis dos centros desenvolvidos. Segundo Pessôa, os países mais afetados por isso são aqueles que não têm uma estrutura de assistência social ampla.

- A globalização tem perdedores, e um dos temas para que convivamos bem com ela é a construção de instituições domésticas que consigam lidar bem com os seus impactos sobre as estruturas sociais internas de cada país. Me parece que os países anglo-saxões não estão tão bem aparelhados assim - disse.

Assim, Pessôa explicou que os Estados Unidos e a União Européia experimentaram um recrudescimento da ideologia anti-globalização, com Trump e o brexit, enquanto a Europa continental, por exemplo – que construiu um welfare state mais abrangente – viu políticos com esse discurso serem derrotados.

O ex-ministro da Fazenda Marcílio Marques Moreira também abordou esse assunto sob uma perspectiva de reação social. Para ele, o século 20 viu a construção muito acelerada de uma nova hierarquia de valores entre os povos, o que potencializou o crescimento de incertezas em todos os campos – inclusive políticos e econômicos.

Para Marcílio Marques Moreira – que também foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos no final dos anos 1980 – ainda não houve tempo para que a comunidade global pudesse “normalizar” esse sentimento coletivo de “perda de rumo”

Brasil

A situação específica do Brasil foi abordada por Carlos Roberto Pio da Costa Filho, secretário de Planejamento Estratégico da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Ele também exaltou a globalização como caminho histórico de enriquecimento humano, e criticou a economia brasileira, que considera uma das mais fechadas e protecionistas do planeta.

- Há um relativo consenso no Brasil de que proteger a economia é dever do Estado. Existe uma ampla aceitação desta afirmativa, que é contrária à lógica que promove crescimento sustentável em níveis mais elevados - afirmou.

Esse protecionismo se traduz em barreiras técnicas e tarifárias que restringem enormemente as importações. Segundo Costa Filho, um elevado volume de importações significa que os produtores domésticos conseguem fazer economias para investir mais nos seus empreendimentos, pagar melhores salários, ofertar melhores preços e oferecer mais qualidade. O Brasil, para ele, está perdendo essa corrida.

- A regulação política das atividades comerciais, no afã de produzir um desenvolvimento mais rápido, gera o oposto. Quando a intervenção regulatória do Estado tem um impacto negativo, colocamos em risco o crescimento sustentável, socialmente includente e dinâmico - explicou.

O secretário afirmou que isso é uma característica compartilhada pelos países do Mercosul, que, por isso, têm ficado para trás em relação aos seus vizinhos que firmaram acordos de livre comércio da região do Pacífico, como Chile e Colômbia. Ele afirmou que vê uma tendência de reversão dessa política por parte do atual comando do Ministério das Relações Exteriores.

Samuel Pessôa acrescentou que o Brasil experimentou um período positivo durante a recente crise econômica global porque é um país muito dependente da oferta de capital estrangeiro. Isso acontece porque, devido à opção constitucional por um amplo Estado de bem-estar social, o Brasil possui uma taxa de poupança interna baixa e precisa depender de empréstimos externos para fazer investimentos.

Com a crise, que estourou em 2008, a oferta de capital estrangeiro ficou mais barata, permitindo ao Brasil se abastecer de mais recursos. Essa boa fase teve percalços quando o mercado de commodities (matérias-primas) se retraiu, dificultando as exportações brasileiras. Segundo o professor, no entanto, a recuperação econômica global está se processando e melhorando esse quadro, ao mesmo tempo que a oferta de capitais se mantém a um custo estável. Esse cenário, avaliou ele, é bom para um Brasil mais aberto.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)