Especialistas defendem conscientização para reduzir mortalidade por câncer de instestino
Elina Rodrigues Pozzebom | 04/12/2014, 18h44
Em audiência pública realizada nesta quinta-feira (27) para discutir os casos de câncer de intestino no país, os convidados concordaram que o rastreamento da doença, por meio de uma campanha nacional, reduziria a incidência e a mortalidade. Entretanto, a coordenadora-geral de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas do Ministério da Saúde, Patrícia Sampaio, descartou essa possibilidade, pelo menos no curto prazo.
Uma das ideias da senadora Ana Amélia (PP-RS), que solicitou a audiência, era propor a criação de uma campanha a exemplo do Outubro Rosa, para detecção de cânceres de mama e colo de útero, e Novembro Azul, do câncer de próstata. No entanto, Patrícia Sampaio disse não ser possível garantir, com a rapidez necessária, exames de colonoscopia de rastreamento com tanta intensidade sem que haja pacientes com fatores de risco ou sintomas da doença.
— Hoje a gente não considera o rastreamento viável e de custo efetivo. A gente recomenda, fortemente, estratégias para divulgação ampla de sinais de alerta para a população e profissionais de saúde e acesso imediato ao exame diagnóstico — explicou Patrícia Sampaio.
A representante do Ministério defendeu a prevenção primária, para mudar a qualidade de vida e hábitos da população; e a realização de campanhas e alertas para sinais e sintomas. Em sua opinião, focar somente na realização da colonoscopia de rastreamento não é a saída, até porque o câncer colorretal não é um dos que mais mata no país, sendo o sexto entre os homens e o quinto entre as mulheres.
Ana Amélia deve propor a criação de um mês de conscientização, com a realização de campanha nacional, mas para divulgar informações sobre a existência da doença e que sintomas devem ser considerados para se iniciar uma investigação. Apesar de não ser tão letal quanto outros, conforme informou Patrícia, a senadora disse que o poder público precisa lidar com esse assunto.
— Me reporto à Aids. Baixamos a vigilância e o que aconteceu? Ela recrudesceu de maneira assustadora no país. Podemos ter a chance de aumentar [a letalidade do câncer colorretal] — disse.
Outro resultado da reunião, conforme explicou o presidente da CAS, senador Waldemir Moka (PMDB-MT), é a formação de um grupo técnico para estudar o tema e propor ações envolvendo tanto a União quanto estados e municípios. A ideia é elaborar um projeto piloto com a possibilidade de rastreamento a ser aplicado em estados onde há mais casos: Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Moka, inclusive, se comprometeu a trabalhar junto à Secretaria de Saúde de seu estado com o intuito de facilitar um possível trabalho conjunto.
Rastreamento
A maioria dos participantes concordou que o rastreamento – que pode se iniciar por meio de um exame de fezes chamado “sangue oculto” e outros até chegar à colonoscopia, o padrão ouro na detecção – é uma medida preventiva eficaz. A colonoscopia é capaz de identificar o aparecimento de pólipos intestinais benignos que, em cerca de dez a 15 anos, devem se tornar um tumor maligno, como explicou Marlise Cerato, presidente da Associação Gaúcha de Coloproctologia.
— Os rastreamentos levam ao diagnóstico precoce com taxas de cura de até 90% ou evitam a doença. Interrompendo a sequência adenoma-carcinoma e fazendo um diagnóstico do pólipo, podemos fazer a polipectomia — esclareceu.
Um estudo americano citado por Marlise Cerato comprovou que a taxa de incidência do câncer colorretal caiu 30% em dez anos, enquanto o número de colonoscopias realizadas triplicou, ou seja, é possível, na opinião dela, prevenir o câncer de intestino.
Segundo Angelita Habr-Gama, presidente da Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino, no Brasil, a cada 100 doentes operados e tratados, 50 vão morrer em cinco anos, mesmo sendo o tumor colorretal um câncer de excelente prognóstico, de diagnóstico precoce fácil e de fácil prevenção. A Bolívia tem um programa de rastreamento, mas o Brasil não, lamentou.
Desnecessário
Apesar da importância dessa detecção precoce, por não haver uma diretriz efetiva sobre conscientização, prevenção e sintomas, os médicos pedem exames desnecessários, especialmente a colonoscopia. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, Eduardo Vieira, cerca de 80% desses exames realizados por ele próprio, com pedidos provenientes tanto da rede pública quanto da privada, são desnecessários.
— Eu acho que, se houver uma diretriz como, por exemplo, há para o câncer de mama, principalmente no sistema público, nós vamos ter não um aumento de custo, mas uma diminuição, com efetividade muito maior no resultado final — afirmou.
Prevenção
Antes de se chegar a etapa de investigação e tratamento, o cidadão deve investir na “prevenção primária”, evitando-se os agentes que podem provocar a doença, como gordura, carne vermelha, álcool e obesidade e investindo-se nos fatores protetores, como adotar uma rotina de exercícios, e aumentar a ingestão de frutas e legumes, com agentes antioxidantes e fibras.
— Essas mudanças, se realizadas quando o indivíduo é jovem, vão resultar numa redução importante da incidência da doença, praticamente sem custo para a sociedade — explicou Paulo Hoff, diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.
Paulo Hoff mencionou até mesmo a possibilidade de detecção por meio de um exame de sangue que checaria o “DNA circulante” do tumor, mas ele ainda não é comercialmente viável. Na opinião dele, esta seria a solução final. A possibilidade de pesquisa para o desenvolvimento comercial desse exame animou a senadora Ana Amélia.
Mas enquanto ele não é desenvolvido, conforme observou Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, já seria excelente se os cidadãos tivessem acesso à informação sobre o câncer de intestino e seus exames preventivos, ao sangue oculto, imunoquímico e a colonoscopia. E, principalmente, que soubessem que sedentarismo e obesidade têm, sim, relação com o câncer de intestino.
— Fizemos uma pesquisa e é muito baixa a relação que as pessoas fazem conectando mesmo o sedentarismo e a obesidade com o surgimento de um câncer. Hoje a gente sabe, principalmente a obesidade, o quanto está conectada com o surgimento de um câncer e, em especial, o câncer colorretal — alertou.
A doença
O câncer colorretal é o terceiro tipo de câncer mais comum, após pulmão e próstata, em nível mundial e também no Brasil - após próstata e pulmão, nos homens, e após a mama, nas mulheres. As regiões de maior incidência são as Regiões Sul e Sudeste, atingindo 25 a cada 100 mil homens e 27 a cada 100 mil mulheres. Entretanto, o nível de mortalidade da doença é um pouco menor: é o sexto entre os homens e o quinto entre as mulheres, segundo dados do Ministério da Saúde. A incidência de câncer colorretal é maior na Europa e na América do Norte, sendo menor na África, Ásia e América do Sul.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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