Gleisi Hoffmann quer voto de censura a avaliação do FED sobre vulnerabilidade brasileira

Djalba Lima | 18/02/2014, 14h35

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) anunciou, nesta terça-feira (18), que apresentará no Plenário do Senado voto de censura a uma avaliação do Federal Reserve (FED), banco central americano, que classifica a economia brasileira como a segunda mais vulnerável de uma lista de 15 países emergentes, à frente apenas da Turquia. O anúncio da senadora foi debatido na reunião desta terça da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Cristovam Buarque (PDT-DF) chegaram a apresentar requerimentos com convite ao presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para debater o relatório do FED. No final, o vice-presidente da CAE, senador Luiz Henrique (PMDB-SC), anunciou que o assunto poderá ser abordado na próxima audiência pública trimestral com Tombini, sobre os fundamentos e a execução da política monetária, agendada para 18 de março.

Gleisi Hoffmann acusou o FED de ter extrapolado "seu mandato", argumentando que "o banco central de um país não pode fazer, oficialmente, avaliação da situação econômica de outro". Segundo a parlamentar, foi uma ação tendente a interferir nos mercados, "uma vez que os investidores, com base nas conclusões do FED, poderão alterar suas decisões de futuros investimentos".

O fato é que a divulgação do relatório derrubou o Ibovespa, indicador de desempenho médio das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, e provocou elevação da cotação do dólar.

A senadora classificou o índice de vulnerabilidade como uma variável calculada pelos técnicos do FED sem nenhuma transparência. Segundo ela, não há demonstração matemática ou nota metodológica de como se chegou à classificação de cada um dos países. Gleisi Hoffmann citou declarações de economistas como Murilo Portugal e o ex-ministro Delfim Netto que consideram pequena a vulnerabilidade do Brasil.

Discordância

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) discordou de Gleisi Hoffmann e disse que, nesta hora, "não cabem as produções cinematográficas, com os seus efeitos especiais, para mostrar ao povo brasileiro que nós estamos no paraíso, porque não estamos".

De acordo com o parlamentar, os números dizem o contrário. O próprio Banco Central, acrescentou, reavalia a sua previsão sobre o crescimento da economia do país, "puxando para baixo (para 1,7%) o crescimento do PIB em 2014". Portanto, no entender do senador paranaense, o Brasil tem que considerar esse estudo do FED.

– O que importa é que há um alerta, um sinal amarelo aceso. O Brasil precisa acordar. Nós não estamos em céu de brigadeiro.

O senador José Pimentel (PT-CE) apoiou a decisão de Gleisi Hoffmann de colocar o assunto em discussão no Senado e afirmou que, se o FED fosse competente como se alardeia, não teria deixado o sistema financeiro dos Estados Unidos quebrar em 2008. Pimentel acusou o FED de "estender a sua crise", contaminando a economia internacional.

– De lá para cá, o mundo tem pagado um preço muito grande por conta dessa irresponsabilidade do Banco Central norte-americano, e, hoje, como eles [EUA] não conseguiram dar conta da sua demanda, têm um endividamento público superior a 100% do seu Produto Interno Bruto, têm um dos principais déficits em contas correntes e também no superávit primário. E aí resolvem transferir para outros aquilo que eles não fazem.

Cruzada

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) recorreu a uma comédia britânica do fim da década de 1950 para analisar a reação ao relatório do FED. No filme O rato que ruge, a economia de um país imaginário, Fenwick, está na bancarrota. Então, a governante do país é convencida a declarar guerra aos americanos, com o propósito de perder e depois conseguir financiamento para a "reconstrução", numa referência satírica ao Plano Marshall.

O parlamentar previu que os aliados do governo podem não ter o sucesso esperado em sua convocação de cruzada contra o FED. De acordo com Aloysio, a opinião do Banco Central americano é compartilhada por "muita gente", até do BC brasileiro, que vem mantendo a trajetória ascendente da taxa Selic. Para Aloysio, o que contribui para a desconfiança foram "a mágica da contabilidade criativa" do governo, o "intervencionismo desastrado" e a desindustrialização do país.

Ajustes

O senador Armando Monteiro (PTB-PE) disse que, "antes de declarar guerra aos Estados Unidos", é preciso ver que o FED não é uma entidade infalível. No entendimento do parlamentar, a análise pode ter sido contaminada por certos fatores conjunturais, porque, estruturalmente, o Brasil não se encontra em posição de tamanha vulnerabilidade, a ponto de ser comparado com a Turquia.

No entanto, Armando Monteiro sugeriu ajustes na matriz macroeconômica brasileira, para tornar a política fiscal mais consistente com a estabilidade necessária.

Já o senador Cristovam Buarque aconselhou Gleisi Hoffmann a retirar o requerimento de voto de censura, porque tanto sua aprovação como sua rejeição poderiam gerar resultados negativos. A eventual rejeição do voto, acrescentou, seria interpretada como apoio ao FED, enquanto sua aprovação significaria "a politização de um assunto que deve ser analisado tecnicamente".

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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