Bandeira Nacional enfrentou resistências até ser aceita

Ricardo Westin | 03/11/2014, 14h44 - ATUALIZADO EM 13/01/2020, 20h13

Poucas imagens conseguem ser tão fortes a ponto de mexer com a emoção dos brasileiros. A Bandeira Nacional se multiplicava pelo Brasil em épocas como a Copa do Mundo, quando surge nos muros, nos carros, nas roupas, nas janelas das casas. Nem sempre foi assim. A bandeira atual, criada logo após a Proclamação da República, levou décadas até cair de vez no gosto do país.

Em 19 de novembro de 1889, quatro dias após o golpe que enterrou a Monarquia, o presidente Deodoro da Fonseca assinava um decreto com a descrição da sucessora da bandeira imperial. É por isso que o Dia da Bandeira se festeja em 19 de novembro. O modelo era praticamente idêntico ao atual. Em vez das 27 estrelas de hoje, havia 21 — o número dos estados de então mais a capital do país.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado mostram que as críticas não tardaram. Em dezembro de 1890, um mês após a abertura do Congresso Constituinte, encarregado de aprovar a primeira Constituição da República, o deputado Francisco Coelho Duarte Badaró (MG) subiu à tribuna para queixar-se:

— Na bandeira se encontra um atentado contra as nossas tradições. Criminosamente lançaram nela um dístico que não quadra com as nossas ideias, que pertence a uma seita absurda.

Badaró se referia aos dizeres “Ordem e progresso”. Trata-se da máxima do positivismo, mistura francesa de religião com filosofia bastante em voga entre os militares que destronaram dom Pedro II. Para o deputado, era inadmissível a menção à “seita”:

— Essa provocação tem impedido que o povo brasileiro, desde as primeiras até as últimas camadas, corra a abraçar a bandeira.

Lei e liberdade

Desde então, apareceram vários projetos de lei querendo redesenhar a bandeira, quase todos apagando a legenda "Ordem e progresso". Argumentava-se até que os embaixadores passavam vergonha, pois eram insistentemente questionados se o positivismo havia virado a religião do país. Com a República, na realidade, o Estado tornou-se laico e o catolicismo perdeu o status de credo oficial.

— Tão antinacional divisa impopulariza a República. É uma provocação aos cristãos, à quase unanimidade da população do Brasil — criticou o senador Coelho Rodrigues (PI) em 1896, ao apresentar uma proposta que trocava “Ordem e progresso” por “Lei e liberdade”.

Nenhum projeto do tipo, porém, conseguiu prosperar. Segundo o consultor legislativo do Senado Joanisval Gonçalves, especialista em relações exteriores, a bandeira só começaria a vencer as resistências em 1922, quando os festejos do centenário da Independência despertaram uma onda de patriotismo.

— A bandeira precisou de tanto tempo para ser aceita porque a própria República não era consenso. O regime foi implantado sem o respaldo da população. Ao longo das primeiras décadas, havia muita gente desejando a volta da Monarquia — explica.

Santos Dumont, o criador do avião, pregava a restauração. Ele, que era próximo da família imperial, voava com uma flâmula verde e amarela atada a suas invenções, e não com a bandeira republicana.

O modelo atual é, na realidade, uma adaptação da bandeira do Império, que havia sido desenhada por dom Pedro I em 1822, logo depois da Independência. No lugar do círculo azul, repousava o brasão da Monarquia.

O verde e o amarelo não foram uma escolha aleatória nem tinham o ingênuo objetivo de representar as matas e o ouro. O verde remete ao próprio dom Pedro I — é a cor da família Bragança, que reinava em Portugal. O amarelo, à sua primeira mulher, a austríaca Leopoldina — é a cor da dinastia de Habsburgo, que governava a Áustria. O losango, além disso, é a figura geométrica tradicionalmente feminina. De qualquer forma, o imperador não rechaçava a versão que enaltecia as riquezas naturais do país.

Em 15 de novembro de 1889, proclamada a República, os novos donos do poder correram para eliminar os símbolos do Império. A bandeira escolhida no mesmo dia foi uma imitação dos Estados Unidos, porém verde e amarela. Ela viajou hasteada no navio que levou dom Pedro II para o exílio. Ante a indignação generalizada, resistiu só quatro dias.

Uma gigantesca Bandeira Nacional pende continuamente no mastro da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Feita de náilon paraquedas, ela tem 20 metros de comprimento e 14 metros de altura. São 280 metros quadrados. Desde 2000, uma empresa de Cascavel (PR) confecciona a bandeira, que é trocada todo mês. Diz Sérgio Tomasetto, proprietário da fábrica:

— Grande parte das bandeiras tem o preto e o vermelho, que indicam que o país enfrentou guerra. A nossa, não. O verde e o amarelo formam uma combinação singular, que torna a nossa bandeira bela, emocionante e inconfundível.

Reportagem atualizada em 13/01/2020

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)