“Guerra do Paraguai foi feita às apalpadelas”, afirmou Caxias no Senado

Ricardo Westin | 01/12/2014, 16h01 - ATUALIZADO EM 13/01/2020, 20h33

Em julho de 1870, o duque de Caxias, senador vitalício pelo Partido Conservador desde 1845, subiu à tribuna do Senado para fazer uma prestação de contas de seu trabalho como comandante das tropas aliadas na recém-concluída Guerra do Paraguai. Na prática, tratou-se mais de uma resposta às inúmeras acusações feitas pelos senadores do Partido Liberal enquanto ele esteve na guerra. Os adversários criticaram, por exemplo, a lentidão com que os soldados tomaram a Fortaleza de Humaitá e ocuparam Assunção.

— Senhores, não há nada mais fácil do que criticar operações e indicar planos mais vantajosos depois de os fatos estarem consumados, de longe e com sangue frio. Mas o mesmo não acontece a quem se acha no teatro das operações, caminhando nas trevas, em um país inteiramente desconhecido e inçado de dificuldades naturais — disse.

No pronunciamento, Caxias lembrou que não existiam mapas do Paraguai nem pessoas de confiança que conhecessem os acidentes geográficos do país:

— É preciso que os nobres senadores se convençam de que a Guerra do Paraguai, desde o seu começo, foi feita às apalpadelas. Só se conhecia o terreno que se pisava. Era preciso ir fazendo reconhecimentos e explorações para poder dar um passo.

Caxias era considerado um militar brilhante, célebre por sufocar movimentos revoltosos como a Balaiada, no Maranhão, e a Revolução Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Quando foi convocado para comandar as tropas na Guerra do Paraguai, em 1866, era marquês. O título de duque seria dado por dom Pedro II em 1869.

O senador foi chamado para os campos de batalha porque o comando anterior dava mostras de que não conseguiria vencer Solano López. No discurso no Senado, Caxias disse que, ao assumir o posto, encontrou as tropas num estado lamentável. Elas estavam divididas em dois corpos completamente diferentes, inclusive com soldos, critérios de promoção e uniformes próprios. Segundo ele, “pareciam pertencer a nações diferentes”.

O comandante resolveu o problema da falta de cavalos para os soldados e providenciou lugares seguros para se trancafiarem os prisioneiros de guerra. Antes, contou ele no Senado, os detidos eram simplesmente mantidos “no meio do campo, cercados de sentinelas”. Com a guerra em curso, Caxias fez uma reforma no Exército.

Após a tomada de Assunção, na virada de 1868 para 1869, Caxias disse que não havia motivos para continuar com a guerra. Dom Pedro II, contudo, não pensava assim. Para o imperador, o conflito só acabaria com a prisão de Solano López. Alegando problemas de saúde, Caxias conseguiu voltar para o Rio de Janeiro. 

Naquele momento, os militares cotados para sucedê-lo ocupavam postos políticos. Se dom Pedro II escolhesse um liberal, provocaria a ira dos conservadores — e vice-versa. Acabou optando pelo conde d’Eu, marido da princesa Isabel, por ser uma figura politicamente neutra. Nascido na França, ele havia adquirido experiência militar em campos de batalha no Marrocos, antes de se mudar para o Brasil.

Reportagem atualizada em 13/01/2020

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)