Congresso presta homenagem a Miguel Arraes em seu centenário de nascimento

Da Redação | 13/12/2016, 18h17 - ATUALIZADO EM 13/12/2016, 20h48

Os cem anos do nascimento de Miguel Arraes foram comemorados em sessão solene do Congresso Nacional, nesta terça-feira (13). Nascido no Ceará, em 15 de dezembro de 1916, o político fez carreira em Pernambuco. Reconhecido como um dos mais importantes líderes da esquerda brasileira, Arraes foi deputado estadual e federal, prefeito do Recife e governador de Pernambuco por três mandatos.

No dia 1º de abril de 1964, quando era governador, foi deposto pelo golpe que instituiu a ditadura militar. Preso por quase um ano, ele conseguiu deixar o país para se exilar na Argélia, onde permaneceu por 14 anos. De volta após a anistia, em 1979, Arraes ingressou no Partido Socialista Brasileiro (PSB), do qual foi presidente. Ele morreu aos 88 anos, em 13 de agosto de 2005, no exercício do seu segundo mandato de deputado federal.

A homenagem, realizada no Plenário da Câmara dos Deputados, foi proposta pela senadora Lídice da Mata (PSB-BA) e pelo deputado Tadeu Alencar (PSB-PE).  Em seu pronunciamento, Lídice salientou que Arraes "ousou enfrentar os coronéis” e adotar em Pernambuco, no primeiro governo, uma política para o campo que “redesenhou” a base econômica estadual em favor dos mais necessitados.

Ainda segundo Lídice, outras duas marcas da atuação de Arraes foram as políticas de educação e cultura, essa com forte enraizamento popular, e a visão de futuro em relação ao papel da tecnologia. Ela destacou ainda a atuação do político na resistência democrática à ditadura, mesmo estando longe do país. A senadora também citou manifestação de Arraes sobre as políticas de austeridade fiscal adotadas nos anos 90, que comparou com as ideias atuais sobre controle de gastos.

- Nesses tempos em que todos os esforços são feitos em nome da estabilidade econômica, ele dizia que a estabilidade desejada é o que permite reformular de modo construtivo os rumos do país, para que brasileiros não sejam separados pelo fosso da vergonha entre os que comem três vezes por dia os que nada comem – afirmou.

O deputado Tadeu Alencar disse que a homenagem não era simplesmente à figura política de um homem que ocupou importantes cargos e dirigiu o PSB por mais de 20 anos, mas sim a alguém que expressa uma conduta e um conjunto elevado de valores.

- Arraes teve a noção das desigualdades e das injustiças, dos desafios abissais para que nosso povo seja incluído num modelo de desenvolvimento que até então acalenta os privilégios excessivos de uma elite e o mantém à margem – disse.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, do PSB, em reflexão sobre como Arraes se colocaria diante do quadro atual do país, marcado por problemas sociais e econômicos, disse que o político homenageado mais uma vez seria exemplo de “coragem, determinação e honestidade”, mostrando sua capacidade de manter “sempre viva a esperança”.

Participou também da solenidade o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, também do PSB, que relatou momentos em que buscou contar com a experiência de Arraes, a quem atribui "larga visão de futuro". Dele teria ouvido conselho para visitar municípios nordestinos onde arranjos produtivos potencializaram a economia local a partir de tecnologias sociais que aproveitavam o conhecimento das comunidades.

Familiares

O homenageado deixou viúva Madalena Arraes e nove filhos vivos, vários deles presentes à solenidade, entre os quais a ministra Ana Arraes, do Tribunal de Contas da União. Ela era mãe de Eduardo Campos, que foi governador de Pernambuco e morreu em um acidente aéreo em 2014, em meio à campanha para a Presidência da República.

José Almino Alencar e Silva, o filho mais velho do homenageado, falou em nome da família. Segundo ele, o pai nunca abraçou ideias políticas extremistas, mesmo se movendo pela firme convicção de enfrentar o quadro de miséria do seu estado e a precariedade de uma nação ainda indiferente aos problemas do povo.

Almino foi um entre muitos oradores a destacar a passagem de Arraes pela Prefeitura de Recife nos anos 50 do século passado, quando implantou cerca de 200 escolas, com esforços especiais para alfabetizar jovens e adultos. Outro ponto muito lembrado foi seu empenho para assegurar, já como governador do estado, o chamado Acordo do Campo. As negociações entre proprietários de terra e camponeses resultaram, ao fim, em favor dos trabalhadores do campo, a conquista do pagamento de um salário mínimo e de jornada diária de oito horas de trabalho.

- Foi momento de ruptura profunda com um passado de exploração brutal sobre um grupo de homens, cuja grandeza, a meu ver, não poderia jamais receber a designação burocrática contemporânea de política de distribuição de renda – disse Almino.

Diálogo

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF), que nasceu e viveu sua juventude em Pernambuco, lembrou orgulhosamente que seu primeiro voto foi dado a Miguel Arraes. Lamentou que, no cenário atual de conflagração política, o país não possa contar com um político com a capacidade de diálogo do homenageado.

- É como se tivéssemos um muro nos separando, ou, pior, com um tangue de guerra. Porém, muitas vezes é mais difícil derrubar um muro que não nos deixar conversar do que um tanque de guerra que não nos deixa caminhar – disse.

O também senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) disse que Arraes deixou a lembrança de um líder respeitado pela coerência e a coragem diante dos desafios. No comando do PSB, acrescentou, sempre soube ouvir e decidir de acordo com a vontade da maioria.

O ex-senador Pedro Simon, que integrou círculo de amigos próximos de Arraes, também destacou a capacidade de Arraes de apresentar soluções e caminhos para as horas mais difíceis, como seria o momento atual.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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