Atração de empresas brasileiras pelo Paraguai preocupa senadores

Sergio Vieira | 10/11/2016, 14h20 - ATUALIZADO EM 10/11/2016, 19h35

A iniciativa do governo do Paraguai de atrair empresas brasileiras para o seu território foi o principal tema de debate na reunião deste quinta-feira (10) da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), quando foi aprovada a indicação do diplomata Carlos Alberto Simas para a embaixada brasileira em Assunção. Muitas empresas brasileiras têm deslocado partes de sua produção para aquele país, devido aos baixos custos de trabalho e condições fiscais vantajosas.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) reconheceu as razões do governo paraguaio em sua política agressiva de atração de investimentos, mas acredita que esse tema precisa ser regulado no âmbito do Mercosul.

— A região sul de nosso país por exemplo tem sofrido muito com a instalação de free shops incentivadas pela Argentina e pelo Uruguai nas regiões de fronteira com o Brasil. E o Paraguai agora tem essa estratégia de se tornar uma espécie de China sul-americana, uma plataforma de exportação pra toda a região — comparou.

Tasso Jereissati (PSDB-CE) reclamou que o Nordeste brasileiro, especialmente estados como o Ceará e a Bahia, já têm sofrido e devem sofrer ainda mais com a ida de investimentos brasileiros para o Paraguai. Ele citou especificamente a Riachuelo e a Estrela, entre outras companhias que "como consequência geram desemprego e aprofundam nossas desigualdades regionais", já que os acordos referentes ao Mercosul tornariam impossível concorrer com as vantagens oferecidas pela nação vizinha.

— Nem imposto de renda eles têm, além de mão-de-obra barata, baixíssimos encargos sociais e também um custo muito baixo de energia — observou Tasso, para quem "superar nossas desigualdades é mais importante que o Mercosul".

Integração vantajosa

Na resposta aos senadores, Simas reconheceu que desafios referentes à integração fiscal e prejuízos para setores localizados estão presentes desde a fundação do Mercosul, em 1991.

Mas acredita que o fenômeno apontado por Tasso Jereissati ainda não tem uma dimensão capaz de provocar prejuízos estruturais na dinâmica econômica do Brasil, embora as questões regionais apontadas tanto por ele quanto por Ana Amélia "mereçam toda a atenção de nossa atuação em Assunção, e dessa maneira serão tratados".

— É importante lembrar que o Brasil também ganha muito com o Mercosul, inclusive o setor privado. Exportamos bem pra todos eles. A integração das cadeias produtivas pode e tem gerado ganhos significativos também —lembrou.

Essa estratégia também foi defendida por Armando Monteiro (PTB-PE), que admite que setores de confecção podem se sentir atraídos pelo Paraguai, mas que o setor industrial brasileiro é beneficiado por esse processo, ao, entre outros fatores, substituir importações provenientes da China, gerando no seu entender impactos mais positivos também no nosso mercado de trabalho.

Contrabando

Lasier Martins (PDT-RS), Edison Lobão (PMDB-MA) e Ana Amélia também questionaram Simas sobre as questões referentes à fronteira Brasil-Paraguai, onde se registra grande contrabando de drogas e armas.

Lobão chegou a dizer que o Estado brasileiro sofre um prejuízo "de R$ 100 bilhões por ano" por causa do problema. Simas admitiu a "gravidade e delicadeza" da questão, citando que ela passa por um reforço das duas nações em suas táticas de inteligência, repressão à criminalidade e fortalecimento de vigilância nas fronteiras.

Pediu ainda a compreensão dos parlamentares por não poder "aprofundar muito a temática numa reunião pública", chegando a citar que o Paraguai assinou recentemente acordos de cooperação com os Estados Unidos e Israel buscando incrementar seu setor de inteligência. Mas lembrou que, se o contrabando entre os dois países é tão grande, é porque também brasileiros se beneficiam disso em esquemas de lavagem de dinheiro e outros crimes.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)