Cultivo de soja ameaça o Pantanal, afirmam especialistas

Iara Guimarães Altafin | 21/09/2016, 16h19 - ATUALIZADO EM 21/09/2016, 16h30

O regime sazonal de inundação da planície do Pantanal impede o plantio de soja, por falta de tecnologia para o cultivo do grão na terra alagada, resultado das cheias do Rio Paraguai. No entanto, a cultura já avança na parte mais alta da bacia, com reflexos no ecoturismo, causando assoreamento de rios e prejuízos à biodiversidade da região, conforme alertaram, nesta quarta-feira (21), especialistas que participaram de debate na Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA).

O Pantanal ocupa a região baixa da Bacia do Alto Paraguai. A parte mais elevada, a vasta região do planalto, está cada vez mais ocupada por monoculturas e pastagens, impactando o regime hidrológico responsável pela sustentabilidade do bioma. Na planície inundada, pecuária e turismo ecológico se adaptaram às cheias e secas da bacia, em equilíbrio com a fauna nativa, como afirmou Roberto Klabin, presidente do Instituto SOS Pantanal, primeiro a falar no debate.

— O Pantanal é hoje um destino mundial para observação de fauna silvestre, que atrai turistas do mundo todo para apreciar aqui o que está desaparecendo no mundo todo, ou seja, uma natureza em harmonia com atividades humanas locais — disse.

Como explicou Felipe Dias, também dirigente do Instituto SOS Pantanal, o volume de chuvas na planície é menor que no planalto, sendo que parte significativa do bioma é considerada de clima subúmido com tendência a semiárido, com grande dependência da água proveniente da parte alta da bacia. Esse fato, frisou ele, torna ainda mais preocupante o avanço da soja.

O presidente do Instituto Homem Pantaneiro, Ângelo Paccelli Rabelo, também observou a relação entre planalto e planície, ao afirmar que a ocupação de locais estratégicos na parte alta está provocando danos irreversíveis na planície, como redução de biodiversidade e comprometimento de nascentes.

Assim como Rabelo, Paulo Carneiro, diretor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), disse ser preciso conter a ocupação agrícola de áreas mais sensíveis, para evitar efeitos ambientais que podem levar à destruição do Pantanal.

Desmatamento

André Sócrates Teixeira, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), confirmou o crescimento do desmatamento na região, mas disse não ser possível identificar se as novas áreas são autorizadas ou irregulares. Como informou, o órgão está implantado um sistema nacional que permitirá tal identificação, mas a prioridade de implantação é a Amazônia.

Para Ricardo Eboli, diretor de Licenciamento Ambiental do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, há uma concentração de políticas na floresta amazônica, em detrimento dos demais biomas.

— O governo federal tem sido omisso com o Pantanal. Precisamos ‘pantanalizar’ as políticas públicas, só se fala em Amazônia, não há política de sustentabilidade para o nosso Pantanal — protestou.

Para Eboli, o problema da região não é especificamente a soja ou outra cultura, mas a persistência de práticas agrícolas que resultam na destruição e contaminação do solo. Como exemplo ele citou o assoreamento do Rio Taquari, um desastre ambiental de grandes proporções, causado pela não adoção de práticas conservacionistas.

A elaboração de uma legislação capaz de proteger o Pantanal e promover a "conciliação com a produção agropecuária" também foi destacada pelo senador Pedro Chaves (PSC-MS), que presidiu a audiência pública.

— Vamos continuar lutando para que tenhamos uma legislação consistente — afirmou o parlamentar.

Modernização tecnológica

Conforme Luiz Nery Ribas, diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), as lavouras têm sido feitas conforme orientação da pesquisa, utilizando as técnicas de plantio direto e a integração lavoura-pecuária, sistemas que protegem o solo e reduzem o impacto da água da chuva, evitando a erosão e o assoreamento dos rios.

— Temos notado que, nas áreas trabalhadas, é impressionante o aumento de espécies da fauna e da flora, pois temos alimento o ano todo — disse.

No mesmo sentido, Lucas Galvan, diretor da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), lembrou que três unidades da Embrapa estão sediadas no estado, orientando as atividades agropecuárias na perspectiva de combinação de produção e proteção ambiental.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)