Debatedores pedem atenção à cultura nativa na política de saúde voltada à população indígena

Da Rádio Senado | 28/04/2016, 17h58 - ATUALIZADO EM 28/04/2016, 18h01

As políticas públicas de saúde voltadas para as mulheres indígenas precisam levar em conta o conhecimento acumulado pelas etnias. Esse foi um dos pontos destacados em debate promovido pelas Procuradorias da Mulher do Senado e da Câmara, como parte do projeto Pautas Femininas, nesta quinta-feira (28). O evento teve a participação da senadora Regina Sousa (PT-PI).

Daiara Tukano, indígena que estuda na Universidade de Brasília e faz parte da primeira rádio online indígena do Brasil, a Rádio Yandê, defendeu o respeito à autonomia dos povos originários e aos seus conhecimentos durante a elaboração de políticas públicas voltadas para eles. O parto hospitalar, por exemplo, é considerado mais seguro, do ponto de vista ocidental, mas bate de frente com tradições ancestrais.

— Na cultura Ashaninka, o parto é uma coisa bastante solitária: a mulher vai para o meio da floresta e tem seu filho. Havia essa mãe que levou a filha ao hospital, não aguentou e foi parir no banheiro. Se trancou no banheiro e teve lá sua nenê, muito saudável, por sinal, mas que, infelizmente, estava em um ambiente muito mais insalubre do que a floresta — contou.

Da mesma forma, Daiara denunciou o avanço de áreas urbanas sobre territórios de saberes tradicionais na área da saúde:

— Aqui em Brasília mesmo existe uma aldeia Cariri Xokó, onde tem uma pajé, Cacica Tanoné, que por quase 30 anos cultivou no cerrado toda uma farmácia viva que foi derrubada na construção do Setor Noroeste.

De acordo com Viviane Bruno, da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, as ações coletivas, como as campanhas de vacinação, obtêm mais adesão do que exames individualizados, como o Papanicolau, por exemplo. Isso decorre da própria visão de coletividade das indígenas, que também deve ser levada em conta pelo governo na hora de elaborar políticas públicas:

- A gente vê o quanto a nossa sociedade é etnocentrista. É importante este momento para refletir sobre isso.

Na opinião de Bernardino Vitoy, representante da Organização Panamericana de Saúde (Opas), enquanto prevalecer o "viés colonizador", as políticas públicas para os indígenas não terão bons resultados:

— Fomos colonizados, introjetamos isso e agora queremos replicar. Então, precisamos respeitar o conhecimento, a sabedoria e construir a nossa própria referência.

O Sistema de Atenção à Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, contabiliza 322.140 mulheres em 688 territórios indígenas no Brasil, em 2016. A população geral, de acordo com o IBGE, é de 700.069 índios em aldeias.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)