Especialista adverte para descontrole na realização de cirurgias bariátricas

Gorette Brandão | 10/04/2014, 16h55

O médico Rogério Toledo Júnior alertou, em audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) nesta quinta-feira (10), para a "banalização" das cirurgias bariátricas que visam à redução de peso. Especialista em aparelho digestivo, ele disse que muitas das intervenções desse tipo realizadas no país são desnecessárias.

O especialista afirmou que os pacientes normalmente desconhecem que depois da cirurgia vão adquirir para sempre uma condição mórbida de má absorção de nutrientes - problema causado pelas modificações na anatomia intestinal.

- Temos que ser rígidos na informação: a cirurgia vai deixá-los doentes para sempre – esclareceu.

A audiência foi sugerida pela senadora Ana Amélia (PP-RS) para debater políticas públicas de combate à obesidade. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em conjunto com o Ministério da Saúde, 50% dos homens do país apresentam excesso de peso, o mesmo ocorrendo com 48% das mulheres, sendo que 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam obesidade.

- Lamentavelmente, o Brasil está caminhando para ter a obesidade como epidemia – lamentou Ana Amélia.

A audiência, presidida pelo presidente da CAS, senador Waldemir Moka (PMDB-MS), contou ainda com a participação de Silvia Cozzolino, que preside o Conselho Regional de Nutricionista da 3ª Região (SP/MS), e de Patrícia Constante Jaime, coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.

Desmineralização

Rogério Toledo, coordenador da Comissão de Prevenção e Combate da Obesidade da Associação Médica Brasileira (AMB), esclareceu depois da audiência que a condição decorrente da cirurgia impede a absorção de ferro. Por isso, de tempos em tempos, o paciente precisa fazer a reposição dessa substância, sempre por via venosa, já que não funciona por via oral. No que diz respeito ao cálcio, conforme o médico, não há mais como fazer a reposição. Por isso, o organismo começa a se “desmineralizar”, o que resulta em fragilidade óssea, com a instalação acelerada da oesteopenia e da osteoprose, em alguns casos.

Diante dos riscos, conforme o médico, o mais adequado é perseverar com tratamentos de emagrecimento que conjuguem dieta orientada e atividades físicas, além de suporte psicológico, para ampliar as chances de sucesso. Ele salientou, no entanto, que nos quadros extremos, quando o paciente já atingiu a superobesidade (a obesidade mórbida), a cirurgia bariátrica é indicada. Porém, observou que 10% dos superobesos sequer podem ser operados, diante do risco de morte na mesa de cirurgia.

Doenças crônicas

Silvia Cozzolino destacou que a obesidade é o primeiro passo para o aparecimento de um conjunto importante de doenças não transmissíveis, crônicas e de instalação lenta. Entre outras, ela citou as doenças coronarianas, a principal causa de mortalidade no mundo, que teria na obesidade o principal fator. Também mencionou a hipertensão, que predispõe ao acidente vascular cerebral, e mesmo o câncer, o que se explicaria em razão dos processos inflamatórios a que o obeso fica sujeito.

A nutricionista criticou, no entanto, dietas muitos restritivas, abaixo de 1.200 calorias por dia, que segundo ela não propiciam os micronutrientes necessários a um padrão de vida saudável. Ela também defendeu atividades físicas regulares como forma de prevenção, lamentando que essas práticas já não recebam tanta atenção nas escolas. Também criticou a falta de espaços públicos para exercícios físicos, o que favorece o sedentarismo.

- As crianças acabam em frente da televisão consumindo alimentos calóricos - concluiu..

Patrícia Constante, do Ministério da Saúde, observou que a desnutrição deixou de ser um problema de grande magnitude no país, sendo substituída pela questão do sobrepeso e da obesidade. Ela disse que o problema avança com velocidade, havendo estimativa de que o país chegará a um padrão semelhante ao registrado hoje nos Estados Unidos e no México, o que tende a provocar aumento crescente nas despesas do Sistema Único de Saúde (SUS) com tratamento das doenças decorrentes.

- O SUS paga a conta, mas a causas não estão dentro dos seus muros – disse, salientando a necessidade de ações preventivas com participação de toda a sociedade.

Para a gestora, as mudanças nos padrões alimentares explica em grande medida o avanço da obesidade. Ela destacou políticas da área de saúde e outras de caráter intersetorial voltadas a combater o problema, desde o estímulo ao aleitamento materno. Salientou, ainda, a importância do programa Saúde na Família como meio de disseminação de práticas preventivas por meio de uma rede de atenção básica presente em todo o país, mas observou que as soluções dependem sobretudo do “diálogo entre saúde e educação”.

- Temos que levar a nutrição para dentro de projetos pedagógicos emancipadores – disse, defendendo que desde cedo a criança aprenda a comprar e consumir.

Comissão

Depois de sugestão de Moka, os convidados se comprometeram em formar uma comissão para sugerir proposta para o enfrentamento da obesidade, com recomendações ou iniciativas de projetos de lei da própria comissão. A seu ver, dessa forma, as medidas podem ganhar mais “força e repercussão”. Cyro Miranda disse ser contrário a medidas proibitivas de consumo ou de restrições à venda de alimentos.

– O problema é mesmo de educação. Do contrário, é pensar que dá para resolver a febre quebrando o termômetro – disse o senador.

Ana Amélia aproveitou para indagar o médico Rogério Toledo sobre proibição da venda de diversos remédios auxiliares no tratamento da obesidade, dele ouvindo que a medida adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi excessiva – inclusive porque um dos remédios é essencial ao tratamento da esteatose hepática (gordura no fígado).

Ana Amélia lembrou que em breve estará no Senado um projeto com origem na Câmara dos Deputados que libera a venda dos medicamentos.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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