Senadores homenageiam centenário de nascimento de Rachel de Queiroz
Da Redação | 17/11/2010, 19h08
O Plenário do Senado Federal homenageou nesta quarta-feira (17) a escritora cearense Rachel de Queiroz, nascida há exatos 100 anos. O primeiro a discursar foi o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), autor do requerimento que solicitou a homenagem. O presidente da Casa, José Sarney, e os senadores Marco Maciel (DEM-PE), Marisa Serrano (PSDB-MS), Roberto Cavalcanti (PRB-PB) e Eduardo Suplicy (PT-SP) também discursaram elogiando a herança literária e humana deixada pela jornalista e escritora falecida em 2003.
Inácio Arruda fez um agradecimento especial ao jornal O Povo, do Ceará, por publicar escritos de Rachel de Queiroz desde o início de sua carreira e por organizar, neste ano, uma série de homenagens à escritora. Foi nesse periódico que, aos 16 anos, Rachel de Queiroz começou a escrever na página literária sob o pseudônimo Rita de Queluz. No final de 1930 publicou seu primeiro romance, O Quinze, obra social sobre a luta dos nordestinos contra a miséria e a seca.
Também no início da década de 1930, Rachel mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu José Olympio e passou a publicar pela editora do amigo. Essa parceria duraria mais de meio século, com a publicação da maioria das obras da autora e também dezenas de clássicos da literatura traduzidos pela escritora.
- Saúdo Rachel de Queiroz, deusa mãe no panteão intelectual brasileiro. Salve minha conterrânea, mulher cearense, brasileira, cuja luz alcança até os confins da terra - disse Inácio Arruda.
Inácio Arruda também lembrou que Rachel de Queiroz foi militante do Partido Comunista. Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos. A escritora foi detida e passou três meses presa.
- Nunca lhe abandonou a crítica e as injustiças e o sentimento social que a levou a escrever O Quinze. Nunca lhe abandonou a preocupação com a educação. Nunca lhe abandonou, sobretudo o entendimento da democracia, da importância do voto e da liberdade de manifestação do pensamento - afirmou Inácio Arruda.
Inácio Arruda encerrou lendo o poema "Louvado para Rachel de Queiroz", escrito pelo poeta Manuel Bandeira quando do cinquentenário da autora.
Patrimônio da cultura universal
A senadora Marisa Serrano lembrou que, na eleição de Rachel de Queiroz para a Academia Brasileira de Letras (ABL), houve "uma grande agitação nos meios culturais e literários da época pelo fato de ela ser uma mulher". Mas a escritora simplesmente teria dito que sua escolha não era pelo fato de ser mulher, mas sim por ela ter uma obra literária. A autora, segundo a senadora, escrevia com "vigor, solidez e energia".
Entre 1930 e 1993, disse Marisa Serrano, Rachel de Queiroz recebeu diversos prêmios por sua literatura, como o prêmio da Fundação Oswaldo Aranha em 1930 pelo livro O Quinze; prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira pelo livro As Três Marias (publicado em 1939); o prêmio Saci em 1954, pela obra O Lampião; o prêmio Machado de Assis em 1957 (concedido pela ABL pelo conjunto da obra); o Jabuti de Literatura Infantil em 1969, por O Menino Mágico; e o prêmio Camões, em 1993. A adaptação televisiva de seu livro Memorial de Maria Moura garantiu repercussão nacional e internacional à sua obra.
- Mas eu gostaria mesmo, como professora de Língua Portuguesa e amante de Rachel de Queiroz, de ver o Brasil inteiro falando nela. Também quero aproveitar esta hora para insistir na necessidade de uma política nacional de instituição de bibliotecas públicas, para que obras, como a de Rachel, patrimônio da cultura brasileira e universal, possam estar acessíveis a todos os cidadãos. Acho que essa tem que ser a nossa luta e a luta desta Casa em homenagem ao grande nome que é Rachel de Queiroz - afirmou Marisa Serrano.
Primeira-dama das letras brasileiras
Já o senador Marco Maciel iniciou seu discurso saudando o centenário de nascimento "da primeira-dama das letras brasileiras, a inesquecível Rachel de Queiroz". O senador recordou que, em 2008, quando presidiu a Comissão do Ano Cultural do Senado, conseguiu com o acadêmico José Mindlin autorização para o Senado imprimir os originais de O Quinze.
Maciel também elogiou obras menos conhecidas da autora, como O caminho das pedras (1973) e O galo de ouro (1986) e livros de crônicas reunidas, como A donzela e a moura torta; Um alpendre, uma rede, um açude e Falso mar, falso mundo. Além disso, o senador acrescentou que Rachel de Queiroz publicou seus escritos na revista O Cruzeiro e no jornal O Estado de S. Paulo; escreveu peças infantis e livros didáticos; traduziu grandes autores como Dostoievski e Tolstoi. Em 2002, simplesmente recusou-se a assinar sua inscrição para o Prêmio Nobel de Literatura.
- Em sua obra, podemos identificar quatro grandes temas: a liberdade, o amor, a solidão e a morte. Quase todas as suas personagens são criaturas solitárias, mas buscam a afirmação do amor e da liberdade - disse Marco Maciel.
Obra seminal
Para o senador Roberto Cavalcanti, Rachel de Queiroz teve "a vida marcada pela força da palavra". O senador declarou que a autora deixou para o Brasil "páginas imorredouras de uma literatura feita com alma e generosidade".
- Em toda a sua obra, dos primeiros poemas aos textos jornalísticos, das crônicas aos romances, a palavra se apresenta limpa, livre de qualquer excesso, despojada de adereços supérfluos. Nela, basta a palavra certa, afiada, que não se presta a subterfúgios ou a evasivas - afirmou Roberto Cavalcanti.
Ele disse ainda que Rachel de Queiroz foi uma "mulher extraordinária e escritora de invulgar brilho" e defendeu que o Brasil deve à ela "uma obra seminal".
Por sua vez, o senador Eduardo Suplicy homenageou a escritora lendo uma de suas crônicas, "Menino Pequeno", que narra a sina de uma criança nordestina desfavorecida.
- Seria perfeitamente possível que a sociedade humana se organizasse para que não houvesse mais fome e miséria, como retratado nesse belo conto de Rachel de Queiroz - explicou.
Também participaram da solenidade a diretora da Editora José Olympio e amiga pessoal de Rachel de Queiroz, Maria Amélia Mello; o diretor Institucional do Grupo de Comunicação O Povo, Plínio Bertolotti; o escritor e ator cearense B. de Paiva; outros senadores, embaixadores e diplomatas. B. de Paiva, segundo o senador Inácio Arruda, foi a primeira pessoa a encenar, em 1954, a obra O Lampião, de Rachel de Queiroz.Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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