Milícias atuam na ausência do poder público, afirmam especialistas

Da Redação | 03/06/2009, 15h42

As milícias (grupo paramilitares que dominam comunidades carentes) atuam em áreas ainda não tomadas por facções criminosas tradicionais, afirmou Lígia Portes Santos, procuradora de Justiça e coordenadora do Núcleo de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio de Janeiro. Ela participou nesta quarta-feira (3) de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).

De acordo com a procuradora, a origem das milícias está na pobreza, na violência e na falta de políticas públicas nas comunidades carentes.

- Quando combatemos milícias, temos que dar alternativas às populações carentes porque as milícias surgiram em situação de grande violência urbana nas favelas. O tráfico traz um movimento financeiro muito grande que, por sua vez, produz um enriquecimento grande e com isso se mantém a situação - avaliou a procuradora.

Lígia Santos disse que ações como o Bolsa Família não atuam no cerne da questão. E apresentou estatísticas que mostram a atuação das facções criminosas em 47% das áreas de favelas, enquanto sobra uma "área indefinida" de 15%, que pode vir a ser ocupada pelas milícias. Por isso, afirmou, há a necessidade de combater o chamado "crime tradicional", composto principalmente pelo tráfico de entorpecentes e crimes correlatos, como extorsão e homicídio.

Um dos pontos abordados pela procuradora foi o projeto (PLS 150/06), em exame na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e que trata da repressão ao crime organizado. Ela criticou o fato de a proposta enumerar os crimes praticados pelas facções criminosas: "sempre corremos o risco de um tipo penal estar fora o que causaria um grande dano".

Outro participante da audiência, o chefe da Policial Civil do Rio de Janeiro, Alan Turnowski, complementou o raciocínio da procuradora, ao alertar os parlamentares para a necessidade de o poder público assumir o "vácuo de poder" instalado com a prisão dos milicianos antes que o crime organizado o faça.

Turnowski informou que a Polícia Civil vem aumentando a cada ano o número de integrantes de milícias presos - cinco em 2006, 21 em 2007, 78 em 2008 e, até junho de 2009, já foram efetuadas 79 prisões, entre policiais militares, civis, bombeiros, agentes penitenciários e outros agentes públicos.

Alan Turnowski explicou que o combate às milícias passaram a ser feitos em conjunto com Ministério Público, o Tribunal de Justiça do Estado, e a Assembleia Legislativa.

Bala perdida

O senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) fez um apelo ao representante da polícia civil para que se encontrem meios de evitar a morte de pessoas inocentes durante os embates entre a polícia e o crime organizado.

-As polícias, ao atender as contingências, devolvem o fogo. Morrem pessoas honestas, homens e mulheres, crianças morrem - comparou.

O senador responsabilizou também a falta de vigilância das fronteiras brasileiras, por onde passam diariamente drogas e armas, como responsáveis pelas mortes em grande número, não somente no Rio de Janeiro, como em outros estados brasileiros. A solução estaria, na sua avaliação, em equipar e deslocar as Forças Armadas para essas regiões.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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