Ulysses teve presença decisiva na transição da ditadura para a democracia

Da Redação | 04/10/2007, 19h44

A contribuição de Ulysses Guimarães à vida pública brasileira adquire dimensão peculiar e, talvez, sem paralelo entre seus contemporâneos, pela sua presença decisiva em todos os momentos cruciais dos embates e negociações que se travaram em torno da reconquista da plenitude democrática, finalmente alcançada quando Tancredo Neves é eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral.

Seu súbito e inesperado desaparecimento do quadro político nacional, nas circunstâncias em que se deu - tragado pelo mar nas costas do Rio de Janeiro, em acidente com o helicóptero que o transportava -, conferiu a sua imagem algo de herói grego, em que pese sua figura lembrar, curiosamente, e de acordo com o senso comum, mais um senador romano.

Foi durante a campanha como anticandidato à presidente da República, em 1973, quando vigorava o sistema de escolha indireta do mandatário do país, que Ulysses se notabilizaria como uma das lideranças mais respeitadas contra o governo militar. Tendo como candidato a vice-presidente o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, a estratégia era aproveitar as eleições indiretas no Colégio Eleitoral para fazer uma pregação nacional contra esse instrumento da ditadura e contra os horrores e a violência que ela vinha perpetrando. Mesmo tendo sido impedido pelo arbítrio de disputar a Presidência da República, a estratégia da anticandidatura funcionou, na medida em que a oposição obteve retumbante vitória nas eleições parlamentares de 1974, jogando contra a parede o sistema político-militar que estava no poder.

Outro episódio protagonizado por Ulysses que repercutiu poderosamente junto ao ânimo dos que combatiam a ditadura se deu em novembro de 1978, em Salvador. De acordo com versão do jornalista Sebastião Nery, que assistiu aos fatos, Ulysses e outros membros da comitiva (Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre) estavam hospedados em um hotel, quando receberam a notícia de que não seria permitida a reunião partidária para lançamento dos candidatos da oposição ao Senado. Ulysses lembrou que havia uma portaria do Ministério da Justiça proibindo comícios em praça pública, mas não reuniões fechadas, como a que estava programada para a sede do partido, na Praça 2 de Julho, no Campo Grande.

Ulysses teria então anunciado: "Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites". Deixaram o hotel em vários automóveis e combinaram encontrar-se em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um campo de batalha, relata Nery: 500 homens com fuzil com baioneta calada; 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas e grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno de toda a praça. Ulysses olhou, pensou e comandou: "Vamos rápido, sem conversar". O resto da comitiva seguiu Ulysses.

Quando o grupo se aproximou, relata Nery, um oficial gritou: "Parem, parem". Ulyssses levantou o braço e gritou mais alto: "Respeitem o líder da oposição". Meteu a mão no cano do fuzil, jogou-o para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outroe também passou. O grupo foi em frente. Três cães saltaram sobre Ulysses. Freitas Nobre dá um pontapé na boca de um. Rômulo de Almeida defende-se de outro.

Todos entraram na sede do MDB e, das janelas, com alto-falantes voltadas para a praça, Ulysses abre o comício, que não havia sido planejado, mas acaba tendo 14 oradores e termina com uma passeata através de praças e ruas, livres da força policial de minutos antes: "Soldados da minha pátria, baioneta não e voto, cachorro não é urna".

Para o escritor Luiz Gutemberg, autor de Moisés Condinome Ulysses Guimarães, o incidente de Salvador foi o sinal de que a "resistência civil, pacífica e desarmada, havia ultrapassado o medo"

Biografia

Foi ministro da Indústria e Comércio no gabinete Tancredo Neves durante o breve período parlamentarista (1961-1962) e apoiou o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart (1964) por acreditar nas proclamações de liberdade do movimento. Em seguida foi um dos fundadores (1965), no bipartidarismo, do partido político de oposição ao governo, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que nascera aos olhos dos mais críticos ao regime como uma oposição consentida e outorgada.

Com o início da distensão política, foi um dos fundadores e presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB (1980), e participou da campanha pelas eleições diretas (1984) que resultou na eleição indireta de Tancredo de Almeida Neves contra Paulo Salim Maluf. Desapareceu em 1992, durante uma tempestade no mar, próximo a Parati, Rio de Janeiro, quando o helicóptero em que viajava com a esposa e amigos, caiu no mar. O desastre não teve sobrevivente e seu corpo jamais foi encontrado.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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