Especialistas em música defendem inclusão de educação musical como disciplina obrigatória no currículo escolar

Da Redação | 22/11/2006, 15h19

Incluir a obrigatoriedade de uma área de conhecimento presente na essência humana significa antes de tudo trabalhar com cidadania, com inclusão social, com acesso igualitário aos bens culturais nacionais e internacionais. A opinião é da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRSC) Liane Hentschke; que, junto com quatro outros especialistas em Música, defenderam nesta quarta-feira (22) a inclusão da Música como disciplina obrigatória no currículo escolar.

Os especialistas foram convidados para participar de audiência pública na Subcomissão Permanente de Cinema, Teatro, Música e Comunicação Social, vinculada à Comissão de Educação (CE). Para Liana, a atual Lei e Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, é ambígua em vários pontos, inclusive no ensino de Artes - no qual a Música está inserida -, causando interpretações diversas, em prejuízo da educação musical.

- A situação atual é a seguinte: universidade formando licenciados em áreas específicas e estados e municípios criando concursos para admitir professores polivalentes (em Artes). Isso sem contar que muitas escolas se utilizam de qualquer professor para "cantar" com as crianças - explicou Liane, que é presidente da Sociedade Internacional de Educação Musical.

Para o professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Sérgio LuizFerreira de Figueiredo, é fundamental que a orientação educacional prevista na LDB com relação à Música seja revista. Para ele, é um avanço que a atual legislação estabeleça como obrigatório o ensino da Arte em todos os seus níveis (Artes Visuais, Dança, Música e Teatro), eliminando, assim, segundo ele, a figura do professor polivalente. Por outro lado, destaca, tantos anos de ausência da Música na escola contribuem para a manutenção da situação anterior, quando educação artística não fazia parte da grade curricular ou mesmo quando havia a figura do professor polivalente.

- Exportamos música, e, no entanto, tornou-se natural não ter música no currículo, já que gerações de brasileiros têm sido privadas da experiência musical na escola - destacou Sérgio Luiz.

O músico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Turíbio Santos destacou a importância dos projetos idealizados por Heitor Villa-Lobos e voltados para a educação musical de professores e crianças. Turíbio afirmou que ele mesmo se considera um fruto desses projetos, assim como a maior parte dos intérpretes e músicos na faixa de 60 e 65 anos de idade.

- Visando dar continuidade à fantástica missão didática de Villa-Lobos, precisamos da garantia legal do ensino de Música nas escolas de educação básica, com realização de concursos para professores e cursos para o seu aperfeiçoamento constante - afirmou Turíbio.

Segundo o compositor e diretor da Sala Cecília Meirelles no Rio de Janeiro, João Guilherme Ripper,a supressão da disciplina de Educação Musical do ensino fundamental prejudica tanto a formação musical do ouvinte quanto a formação musical do futuro profissional.

- A Educação Musical não cria apenas pessoas capazes de assistir a um concerto ou uma ópera, mas também beneficia o aprendizado em outras áreas, como a Matemática. Afinal, Música é a proporção matemática traduzida em ritmo e som - explicou João Guilherme.

Ensino integral

Também o ex-ministro da Educação e atual conselheiro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação, Murilio Hingel, que veio representando o ministro da Educação, Fernando Haddad, defendeu a inclusão da Educação Musical nos currículos escolares. No entanto, ele destacou que esse projeto somente será possível com a implantação do ensino em tempo integral. Ele explicou que a carga horária das escolas brasileiras já é uma das menores do mundo, ocasionando, em conseqüência, resultados lamentáveis nos sistemas de avaliação.

- Temos que trabalhar para ter um ensino fundamental de tempo integral, porque é isso que vai tornar possível enriquecer o currículo - explicou Murilio, para quem a Educação Musical tem ainda que ser ministrada com base na vocação de cada aluno individualmente, para que cada um possa despertar o gosto pela música.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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