Paulo Nogueira Batista Jr. critica política econômica e burocratas que "vêm do mercado financeiro ou lá querem chegar"
Da Redação | 28/11/2005, 00h00
A política econômica adotada no país nos últimos anos - que vem se refletindo em altas taxas de juros e pesada carga tributária - seria resultado, entre outras causas, do fato de o comando do Ministério da Fazenda e do Banco Central estar sendo exercido "por economistas ou financistas que provêm do mercado financeiro ou que lá pretendem chegar". Essa afirmação é de Paulo Nogueira Batista Jr., economista e professor da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo, que participou nesta segunda (28) de uma palestra promovida pela Frente Parlamentar do Pleno Emprego, presidida pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ).
- Essa hegemonia de, digamos, técnicos formados dentro de uma visão bastante convencional do processo econômico, preocupados fundamentalmente com questões financeiras e com os interesses do mercado financeiro, tem contribuído muito para que a política econômica se distancie dos interesses maiores do país e do grosso da população brasileira - argumentou Paulo Nogueira.
O economista também criticou o "apego" da diretoria do Banco Central a modelos formais e ortodoxos. Como contraste, ele declarou que Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), caracterizou sua gestão à frente da instituição pelo "empirismo e pragmatismo". E destacou que o norte-americano "é um homem experiente" que deixa o Federal Reserve com quase 80 anos.
- Isso difere do que ocorre com a diretoria do Banco Central brasileiro, que é jovem, inexperiente e dogmática. Os mais velhos, em geral, não são dogmáticos, devido a sua experiência - afirmou.
Metas de inflação
Paulo Nogueira criticou, ainda, a defesa que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, faz do regime de metas de inflação (o qual visa controlar o nível geral de preços por meio da taxa de juros, entre outros instrumentos), adotado na gestão de Fernando Henrique Cardoso e mantido pelo atual governo. Paulo Nogueira ressaltou que, ao contrário do que diz Meirelles, o regime de metas não é adotado em todo o mundo, e nem pelos três principais bancos centrais do planeta: o dos EUA, o da União Européia e o do Japão.
- O presidente do Banco Central tem dificuldades com dados básicos. O regime de metas é adotado por apenas 20 países, quando há no mundo cerca de 200 - afirmou.
O economista também destacou que Ben Bernanke, defensor do regime de metas, foi cauteloso, quando assumiu a presidência do Federal Reserve, ao dar declarações sobre o tema.
- E uma das razões dessa cautela reside no fato de que a própria legislação dos EUA determina três objetivos para a política monetária do país: máximo nível de emprego, estabilização de preços e taxas de juro de longo prazo moderadas. A lei norte-americana é, a rigor, incompatível com o regime de metas de inflação - explicou.
O professor ressaltou que o baixo crescimento da economia brasileira tem como uma de suas principais causas a política econômica de caráter contracionista, "e, portanto, hostil ao crescimento", que se refletem nas políticas monetária (com altas taxas de juros), fiscal (com pesada carga tributária) e cambial (com a valorização do real frente ao dólar, que prejudica exportações e estimula importações), e também na queda dos investimentos públicos.
Para o economista, "a política do atual governo é pouco criativa e se limita a reproduzir a do governo anterior, que o próprio PT chamava de 'herança maldita'". E o nível de emprego, nesse contexto, é uma das vítimas dessa política econômica.
-Programas assistenciais como o Bolsa Família são muito importantes, mas nada substitui o emprego. Sem isso, não há sociedade que possa ser feliz e prosperar - enfatizou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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