Ex-secretário nacional de Segurança Pública confirma que empresário lhe propôs esquema de corrupção
Da Redação | 02/08/2005, 00h00
Soares participou do governo de transição de Benedita da Silva (PT) no Rio de Janeiro, quando a então vice-governadora tomou posse após a renúncia de Anthony Garotinho, que iria disputar a Presidência da República em 2002. Ele disse, em seu depoimento à CPI dos Bingos, na manhã desta terça-feira (2), que o empresário Sérgio Canozzi o procurou para expor os planos de um esquema de desvio de recursos públicos que poderia chegar a R$80 milhões. Desse total, Benedita poderia ficar com R$ 10 milhões, Soares com R$ 5 milhões e Canozzi com R$ 1 milhão.
Durante a conversa, o empresário teria feito referência às atividades de Waldomiro Diniz, então presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). Canozzi teria afirmado que Waldomiro era inepto, já que desviou R$ 300 mil, quando poderia ter chegado à quantia de R$ 500 mil.
Em seu depoimento, ocorrido em seguida ao de Luiz Eduardo Soares, Sérgio Canozzi, que é sócio de empresas de consultoria financeira e mercadológica, negou todas as acusações, alegando ter se encontrado com o ex-secretário para tratar dos interesses de uma empresa espanhola por ele representada. Essa empresa estaria interessada em comprar casas de bingos no Rio de Janeiro, mas estava preocupada com a concorrência, já que havia várias casas numa mesma área, disputando o mesmo público. Canozzi garantiu que procurou Soares para discutir a implantação de um plano que regulamentasse a distribuição dos bingos por áreas geográficas.
O empresário ainda admitiu ter conversado com Waldomiro Diniz, então presidente da Loterj, para tratar do mesmo assunto. A conversa teria acontecido por orientação da então governadora Benedita da Silva, com quem ele teria se encontrado previamente. Canozzi disse ainda que encontrou-se uma vez com o deputado e ex-ministro José Dirceu (PT-SP), apenas cumprimentando-o durante a festa de aniversário de Benedita, para a qual teria sido convidado pela própria aniversariante. O senador Tião Viana (PT-AC) informou à comissão que entrou em contato com Benedita da Silva e ela negou ter se encontrado com Canozzi.
Acareação
As divergências entre os depoimentos levaram os membros da comissão a pedir uma acareação entre Canozzi e Soares, que foi contatado quando já estava no aeroporto e voltou à CPI logo em seguida. Os depoentes reafirmaram o que tinham dito.
- Estou perplexo. O senhor produz um cenário que não existiu. As suas brigas partidárias com correligionários o levaram a procurar chifres em cabeça em que eles não existem - disse Canozzi, dirigindo-se a Luiz Eduardo Soares.
Este, por sua vez, acusou Canozzi de estar mentindo.
- O senhor está mentindo. O senhor me procurou e expôs um esquema de corrupção demonstrando um profundo conhecimento da máquina administrativa - acusou Soares.
O ex-secretário disse que o esquema exposto envolveria as Secretarias de Obras e da Fazenda do estado do Rio de Janeiro, além da massa falida do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj). Ele explicou que, na ocasião, imaginou que a conversa com Canozzi faria parte de um "ardil político", mas que reviu essa avaliação quando foi divulgada uma fita de vídeo mostrando Waldomiro Diniz negociando propina com o empresário Carlos Cachoeira.
Os senadores pediram a quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico de Canozzi, de sua mulher e de suas empresas. Luiz Eduardo Soares ofereceu a quebra de seu sigilo telefônico.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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