Arthur Virgílio alerta para o risco de se "constitucionalizar" a corrupção
Da Redação | 03/06/2005, 00h00
Ao criticar duramente o governo por supostas ações para impedir a instalação da comissão parlamentar mista de inquérito destinada a investigar denúncias de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), o líder do PSDB no Senado, senador Arthur Virgílio Neto (AM), sustentou que se a CPI for considerada inconstitucional "o Brasil vai acabar constitucionalizando a corrupção". Em sua opinião, o presidente Lula pode talvez construir, por alguns momentos, uma Comissão de Constituição e Justiça na Câmara à imagem e semelhança do seu governo, mas não poderá alterar o Plenário daquela Casa.
- Não fique o governo tão confiante, pensando que pode tudo e que controla o Plenário da Câmara, porque não controla nem o coração nem as mentes dos deputados deste país. Quero advertir o presidente que esse é o mesmo Plenário que elegeu Severino Cavalcanti, derrotando o candidato do PT. É o mesmo Plenário que colocou 256 assinaturas a favor da CPI, embora alguns as tenham retirado. É o mesmo Plenário que derrotou fragorosamente o governo no episódio da MP 232. É o mesmo Plenário que tem obrigado o governo a fazer seguidas manobras de obstrução, típicas da minoria - ressaltou o parlamentar.
Referindo-se à matéria segundo a qual o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, estaria liberando recursos orçamentários de interesse dos deputados para assegurar a derrubada da CPI, Arthur Virgílio recomendou que o ministro tenha cuidado para, com essas iniciativas, não manchar sua credibilidade nem aprofundar a crise econômica. Ele considerou "gravíssimo" o fato de o ministro estar se envolvendo nessas negociações.
- Até tu, Palocci? Essa é uma advertência que faço ao ministro da Fazenda, que tem sido tão prestigiado pela oposição brasileira. Talvez ele seja o último bastião de credibilidade desse governo, e deve imediatamente, por imposição da sociedade, por imposição do bom senso, para não aprofundar a crise econômica, se afastar de toda e qualquer manobra que esteja chafurdando em torno dessa chamada operação-abafa, sob pena de causar prejuízo ao seu desempenho de ministro e à própria economia do país - enfatizou.
No entender de Arthur Virgílio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não agiu de boa-fé com o presidente do Senado, Renan Calheiros, quando disse que ficaria isento no processo que se desenrola em torno da instalação dessa CPI. Mencionando matéria da jornalista Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo, segundo a qual Lula está otimista quanto à não instalação da CPI, o senador indagou:
- De que o presidente teria medo? O crime partiu do senhor Mauricio Marinho, que foi flagrado naquela situação impossível de desmentir. Ainda tem gente com a cara dura de dizer que não há fato determinado. Se aquilo ali não é fato determinado, eu não sei o que é. Falta o que para ficar mais explícito? Diante das televisões, recebendo dinheiro de propina, dizendo como é que se opera a roubalheira nos Correios... Aquilo não é fato determinado? - quis saber Arthur Virgílio.
O senador mencionou ainda a coluna da jornalista Tereza Cruvinel, que informou que não se repetirá este ano festa junina realizada pelo governo no ano passado. Isso porque o governo estaria entendendo que não haveria mais clima para festa. Na opinião do parlamentar, se o governo considera que não há clima para festa é porque o próprio presidente não estaria achando normal a atual situação e, por isso, deveria agir no sentido de normalizá-la.
- Senhor presidente, se houver operação-abafa, vamos morrer imaginando que o senhor tinha medo da operação. Se o senhor não quer dançar a quadrilha, é um direito seu, agora não impeça o Congresso e a sociedade de fazerem as quadrilhas desse país dançarem de acordo com a lei brasileira -alertou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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