Arruda reconhece erro e renuncia "para ser julgado pelo povo"
Da Redação | 24/05/2001, 00h00
Onze meses depois de votar na sessão secreta do Senado que cassou o mandato de Luiz Estevão (PMDB-DF), o ex-líder do governo José Roberto Arruda (sem partido-DF) compareceu nesta quinta-feira (dia 24) ao mesmo Plenário para anunciar, em discurso,sua renúncia ao cargo de senador da República. Como justificativa principal, alegou estar sendo vítima de "pré-julgamento" no processo proposto pelo Conselho de Ética visando à sua cassação. Relatório aprovado por aquele colegiado concluiu que Arruda e o ex-presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) foram"confessadamente coniventes" com a violação do sigilo do painel eletrônico do Plenário, quando da cassação de Estevão, no dia 28 de junho do ano passado.
— Cometi um grande erro, talvez o maior da minha vida. Tentei negá-lo, e esse foi outro grave erro. Estou pagando caro por isso - reconheceu Arruda em discurso iniciado às 10h45.
Apesar de admitir a culpa, o senador considera o processo no conselho um "jogo viciado", em que estaria sendo moralmente linchado, "de maneira covarde".Por considerar a cassação como "pena descabida, máxima, cruel e inapelável",decidiu renunciar para ser julgado pelos eleitores do Distrito Federal. Como determina a Constituição, a renúncia nesta fase do processo evita a perda dos direitos políticos do acusado, que pode candidatar-se novamente, sem ter de esperar oito anos para concorrera cargos eletivos.
— O balanço dos meus acertos e erros dever ser feito pela população de Brasília –afirmou Arruda, sendo aplaudido pelos filhos, amigos e simpatizantes sentados numa das galerias. Ele alegou ainda que, renunciando, evitaria um processo prolongado, e permitiria que o DF voltasse a ter um senador no pleno exercício do mandato. Assumirá em lugar de Arruda o seu primeiro suplente, Lindberg Aziz Cury.
O ex-líder do governo e ex-membro do PSDB lembrou seus seis anos e meio no cargo e sua luta pelos interesses de Brasília, lamentando que a participação na fraude do painel tenha interrompido um projeto político apoiado nas eleições de 1994 por mais de 300 mil pessoas. Mas disse preferir olhar para sua saída como "um novo começo, e não como um fim".
A renúncia, disse Arruda, evitará que ele seja vítima da expiação de pecados como a corrupção e a "troca desrespeitosa de acusações e insultos", numa referência às denúncias mútuas feitas por Antonio Carlos e o atual presidente do Senado, Jader Barbalho. Para Arruda, essa "catarse" estaria sendo promovida pelo Conselho de Ética, transformado, em suas palavras, num "tribunal de exceção".
O conselho, disse, estaria sendo pautado pela imprensa e guiado pela sedução dos holofotes das redes de televisão.
Ao reafirmar que não roubou, não matou nem desviou dinheiro público, Arruda lamentou que a lista extraída do computador do painel, contendo a identificação dos votos a favor e contra a cassação de Estevão, esteja sendo supervalorizada.
— Buscam concentrar toda a justa indignação popular numa tal lista de votação, na esperança vã de que os verdadeiros problemas do país, o desrespeito à atividade pública, a corrupção e o denuncismo irresponsável sejam relegados a segundo plano – disse Arruda.
Em sua defesa, Arruda alegou ainda ter sido a violação do painel o único "desvio de conduta" cometido por ele em 20 anos de vida pública. E por se considerar um homem íntegro disse que não ficaria "na expectativa de um acordo de cúpula, na Mesa", destinado a preservar um ano e oito meses de mandato.
— Não cometerei a infâmia de recorrer a expedientes escusos para continuar no Senado.Não aceito que tentem me igualar a homens que abastardam a política e envergonham o país – afirmou Arruda.
Em contraposição às "hipocrisias e mentiras" do Conselho de Ética, Arruda mencionou os ensinamentos recebidos durante sua passagem pelo Senado e agradeceu a solidariedade que tem recebido. Embora tenha usado os adjetivos "covarde e cruel" para classificar a atitude de seus acusadores, foi justamente dos senadores José Eduardo Dutra (PT-SE) e Heloísa Helena (PT-AL) que Arruda recebeu as maiores atenções antes de iniciar o seu discurso. Ainda no cafezinho dos senadores, contíguo ao Plenário, recebeu de Heloísa um abraço fraternal. A senadora foi pessoalmente atingida pela violação do painel, já que, em conversa com procuradores da República, Antonio Carlos disse que ela votara com Estevão.
— Criticar um discurso de renúncia seria tripudiar. É natural que ele tenha dito aquilo – disse Dutra.
Embora não tenham feito apartes, os senadores cumprimentaram Arruda ao final do discurso.Mesmo Eduardo Suplicy (PT-SP), com quem trocou farpas nas últimas semanas, dirigiu palavras amáveis ao ex-líder do governo.
Arruda deixou o Plenário escoltado por Jader Barbalho, que o protegeu do batalhão de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos até o hall conhecido como chapelaria. Ali o senador concedeu tumultuada entrevista em que reafirmou sua disposição de retomar a carreira política:
— Tenho idade e saúde para isso - avisou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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