CONTADOR ACUSA PAGAMENTOS NÃO REGISTRADOS EM CONTABILIDADE DE ENTIDADE
Da Redação | 22/06/1999, 00h00
Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga irregularidades no Poder Judiciário, o contador Esdras Augusto de Carvalho informou nesta terça-feira (dia 22) que doações e pagamentos recebidos pelo Centro de Orientação do Menor de Jundiaí (Comej) não foram registrados na contabilidade da entidade. Entre os pagamentos, Esdras listou cheques pagos a título de "devolução" à promotora Inês de Oliveira Bicudo, que participou de adoções autorizadas pelo juiz Luiz Beethoven Giffoni Ferreira.Para o relator da CPI, senador Paulo Souto (PFL-BA), o depoimento identificou a promotora, que atuava no Fórum de Jundiaí, como ponto comum entre o Comej e o esquema de adoções para estrangeiros. Inês Bicudo, segundo o depoente, foi uma das fundadoras do Comej, desligou-se formalmente da entidade em 1992, mas "continuava mandando". A entidade italiana AMI, segundo Souto, estaria também envolvida com as adoções e a Comej.Esdras, de 23 anos, prestou serviços de contabilidade ao Comej entre 1995 e 1996, mas não recebeu o pagamento devido. Em documentos que chegaram a seu escritório, ele encontrou entradas e saídas de recursos que não estavam listados nos livros-caixa da entidade como cheques emitidos a título de "devolução para manutenção" e "reembolso para Inês", em valores superiores a R$ 2 mil. Entre os recibos, Esdras citou alguns emitidos à Parmalat e outro, de R$ 135 mil, em nome de uma fundação, que não soube precisar.Segundo Esdras, os documentos chegaram a suas mãos "por acaso", junto com outros documentos contábeis. Mais tarde, segundo informações passadas por seu advogado, o juiz Beethoven teria expedido um mandado de busca e apreensão para que os papéis retornassem ao Comej. Esdras disse à CPI que pretendia, com os documentos, provar que a entidade tinha condições de saldar os débitos que tinha com ele.Por outro lado, o contador declarou que os extratos das contas correntes do Comej indicavam movimentações "compatíveis" com as doações recebidas. Na sua avaliação, tratava-se de uma contabilidade simples, mas os R$ 135 mil não teriam sido depositados em nenhuma das duas contas da entidade.TELEFONEMA ANÔNIMOEsdras relatou aos parlamentares que, quando resolveu entrar com uma ação de cobrança, foi ameaçado por um telefonema anônimo em que a pessoa dizia ser "fácil flagrar um porte de entorpecentes".- Não posso afirmar que esse esquema de adoção tem relação com alguns proventos que o Comej veio a perceber. Não tenho conhecimento de depósitos de entidades estrangeiras - afirmou Esdras, que disse ter tomado conhecimento dos fatos sobre adoções irregulares por meio do jornalista Mário Simas Filho, que depôs à CPI.O contador disse ao senador Djalma Bessa (PFL-BA) que tinha uma boa avaliação do trabalho de assistência social desenvolvido pelo Comej. Segundo relatou, jovens que cumpriam medidas sócio-educativas eram para lá encaminhados, tinham aulas e eram integrados ao mercado de trabalho por meio de contratos com a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e os Correios.O presidente da CPI, senador Ramez Tebet (PMDB-MS) considerou "estranho" o fato de a promotora Inês Bicudo sair do Comej e continuar mandando na entidade. Segundo ele, a comissão deve examinar "a título de que ela recebeu as quantias" relacionadas pelo depoente.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
MAIS NOTÍCIAS SOBRE:
Primeira página
Últimas
07/01/2026 11h28
Nova lei proíbe descontos associativos em benefícios do INSS
07/01/2026 10h22
CMA analisa política de governança climática