"Calvário" do trânsito afeta a saúde de usuários
Jefferson Rudy
Longas jornadas em pé resultam em estresse, doenças e perda de produtividade

As principais cidades do Brasil estão entre aquelas onde mais se demora a chegar ao trabalho. São Paulo e Rio de Janeiro ficam na frente de Londres, Nova York, Tóquio e Paris, por exemplo, só perdendo para Xangai numa comparação entre 20 cidades do exterior e 10 brasileiras. Os dados fazem parte de um estudo elaborado em 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que aponta um aumento de 4% no tempo de deslocamento nas áreas metropolitanas do Brasil para os mais pobres e 15% para os mais ricos no período de 1992 a 2009.

Esse tempo perdido que afeta a qualidade de vida e a produtividade dos trabalhadores brasileiros não é uma realidade apenas nas metrópoles, de acordo com o pesquisador do Ipea Rafael Pereira. Ele desenvolveu o estudo em parceria com o professor Tim Schwanen, da Universidade de Oxford. Os pesquisadores afirmam que áreas menos populosas e mais pobres também vêm experimentando piora no tempo de viagem dos seus habitantes, seja por carência de sistemas de transporte de massa, seja pelo forte aumento no número de automóveis e motos, que congestionam as vias públicas.

O estudo alerta ainda para o fato de que os trabalhadores de baixa renda fazem viagens 20% mais longas, em média, do que os mais ricos. De acordo com a pesquisa, 19% dos mais pobres gastam acima de uma hora de viagem contra apenas 11% dos mais ricos. A diferença de tempo de viagem entre ricos e pobres varia entre as regiões metropolitanas, sendo muito maior em Belo Horizonte, Curitiba e Distrito Federal. Em Salvador, Recife, Fortaleza e Belém a desigualdade é quase nula, revela o estudo do Ipea.

Pedro França
Viana: govermos dizem que vão construir metrôs enquanto dão incentivos à compra de automóveis

Em meio aos protestos de junho de 2013, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) se manifestou em Plenário sobre depredações de monumentos públicos em Brasília e, embora considerasse papel da polícia retirar os manifestantes do prédio do Ministério das Relações Exteriores, propôs uma reflexão sobre a ideia de vandalismo.

“Queimar um ônibus é um vandalismo de pessoas. Mas o sistema público de transporte no Brasil é um vandalismo ainda maior contra milhões de pessoas, milhões de pessoas que são vandalizadas no tempo roubado numa parada de ônibus desconfortável, no tempo perdido dentro de um ônibus apertado. Isso é vandalismo”, sustentou o senador.

Jorge Viana (PT-AC) defendeu a ênfase no transporte coletivo de qualidade e não no automóvel, ressaltando que há décadas os governantes no Brasil “faziam de conta” que construíam metrôs enquanto desoneravam os consumidores de tributos na compra de carros e motocicletas. A rotina de muitos trabalhadores de grandes cidades foi questionada pelo parlamentar.

“Há pessoas numa cidade igual a São Paulo que têm que acordar três e meia da manhã e chegar quase na madrugada de novo de volta para casa. Que vida é essa?”, disse o senador, com indignação.

Mariana Gil/EMBARQ Brasil
Dora: ruídos do trânsito provocam distúrbios. Temas da saúde devem integrar todas as políticas públicas

Irritação

No livro Transporte, Meio Ambiente e Saúde, o epidemiologista Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde e Meio Ambiente da Organização Mundial de Saúde (OMS), pondera que os efeitos na saúde humana das políticas de transporte e de uso da terra são cada vez mais reconhecidos. Ele afirma que acidentes com lesões e mortes e a irritação ao ruído do tráfego vêm sendo identificados como consequências importantes de certos padrões de atividades de transporte, ainda que apenas nos últimos anos haja evidência de um efeito direto dos poluentes atmosféricos sobre a mortalidade e doenças respiratórias e cardiovasculares.

“A maior parte da exposição humana aos poluentes do ar vem do tráfego e surgem evidências de uma ligação direta entre problemas respiratórios e residências próximas a rodovias movimentadas ou com tráfego de veículos pesados”, diz o epidemiologista.

Carlos Dora relata que cerca de 65% dos europeus estão expostos a níveis de ruído que levam a distúrbio de sono, interferência na fala e irritação. Segundo o especialista, o desafio é promover alternativas de transporte sustentáveis para prevenir esses efeitos negativos na saúde humana. Uma maneira importante de fazer isso seria assegurar que os temas de saúde estivessem claramente na agenda quando as políticas fossem formuladas e as decisões sobre transporte, tomadas.

“A inclusão da saúde, do meio ambiente e de outras preocupações sociais nas políticas de transporte requer um alto nível de comprometimento político para cooperação intersetorial e para uma mudança nas estratégias atuais”, defende o médico.

O estudo “Condições de trabalho e saúde de motoristas de transporte coletivo urbano” caracterizou a situação desses profissionais em Florianópolis (SC) por meio de entrevistas com 21 deles e avaliação do local de trabalho. Os pesquisadores concluíram que a atividade de dirigir é desgastante, causa fadiga e sua eficácia está relacionada principalmente a fatores ambientais do local de trabalho e à forma como os motoristas lidam com esses fatores. Eles relatam a incidência de distúrbios orgânicos (dores de cabeça e nas pernas e problemas auditivos) e psíquicos (estresse, irritabilidade e fadiga), que afetam não só a atividade de dirigir, mas também a vida social dos motoristas.

“O incômodo causado pelo ruído vai além do gerado no ambiente de trabalho. Houve relatos de dificuldade de compreensão da fala das pessoas e a necessidade de ouvir a televisão em volume elevado após o término da jornada de trabalho. A exposição excessiva ao ruído pode ocasionar a perda auditiva, dado que 47% dos motoristas relataram a ocorrência de zumbidos”, expõem os pesquisadores no estudo.

Vários dirigentes de entidades empresariais foram ouvidos sobre o assunto em 2014 pelo jornal O Popular, de Goiânia. Eles foram unânimes em atribuir às más condições dos transportes públicos urbanos uma deterioração das condições da mão-de-obra.

De acordo com o assessor executivo do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), Nelson Aníbal, os problemas com o transporte público acarretam prejuízos para as empresas. Ele relatou “queda de produtividade”, uma vez que o trabalhador “já chega cansado ao trabalho”. Para os empregados, os danos são financeiros, além de físicos e psicológicos, quando têm o ponto cortado pela empresa.

Para o presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio-GO), José Evaristo dos Santos, os lojistas contabilizam perdas: os atrasos e faltas dos funcionários e a queda nas vendas. Muita gente desiste de pegar ônibus para comprar. “A pessoa sabe que terá dificuldade para ir e chegar e evita sair”, disse Santos ao Popular.

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