Crianças com microcefalia têm atendimento especializado

Patrícia Oliveira | 13/06/2017, 09h19

Não há cura para a microcefalia, mas os laboratórios estão cada vez mais perto da vacina contra a infecção provocada pelo vírus Zika. A previsão do Instituto Evandro Chagas, órgão de pesquisas vinculado ao Ministério da Saúde, é de começar a aplicação em humanos neste segundo semestre, logo depois dos testes pré-clínicos (em primatas e camundongos). Paralelamente, o tratamento especializado avança, melhorando o desenvolvimento e a qualidade de vida dos pacientes.

A vacina é desenvolvida em parceria com a Universidade Medical Branch do Texas, Estados Unidos. Os primeiros resultados são animadores: apenas uma dose foi capaz de induzir o organismo dos camundongos a produzir anticorpos que protegem contra a infecção. A imunização de mulheres em idade fértil pode ajudar a prevenir a transmissão do vírus e, consequentemente, a microcefalia nos bebês.

A vacina não poderá ser aplicada em mulheres grávidas. Para elas, o Instituto Evandro Chagas desenvolve outra tecnologia, a partir do DNA recombinante do vírus. Por causa da complexidade do quadro clínico nos casos de microcefalia, o diagnóstico precoce é importante, pois o primeiro ano de vida é um período crítico para o desenvolvimento do cérebro.

No Distrito Federal, um protocolo da Secretaria de Saúde para investigação de doenças congênitas notifica os casos suspeitos, que posteriormente são encaminhados pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) para o atendimento nos hospitais.

— Existe uma vigilância dentro de cada hospital regional. Temos um programa com o Ministério da Saúde para fazer a notificação. E de lá, a gente faz uma investigação na casa do paciente. Com os exames e todas as informações, a gente faz a previsão e encaminha para o ambulatório — explica a epidemiologista Patrícia Gonzaga.

Com a epidemia de zika, as gestantes que apresentam sintomas (febre, manchas pelo corpo e dor nas juntas) também passaram a ser acompanhadas. Já as crianças têm acompanhamento por até mil dias, mesmo as que nascem sem sinais da doença, pois ainda pode surgir um atraso no desenvolvimento.

Ensinar a brincar

O Hospital de Apoio de Brasília conta com uma equipe formada por duas neuropediatras, uma fisioterapeuta, uma terapeuta ocupacional, um fonoaudiólogo, uma enfermeira e uma assistente social. Uma parte importante do trabalho deles é ensinar a criança com microcefalia a brincar. É tanta dedicação que alguns dos brinquedos são doados pelos próprios profissionais de saúde.

Atualmente, o hospital atende 19 crianças encaminhadas pelo Cievs. Uma delas é Maria Helena Santos, que nasceu há um ano com microcefalia e problemas na visão. A rotina da mãe, Thaise de Almeida Santos, de 29 anos, é levar a filha para as consultas médicas duas vezes por semana.

— Eu só me desesperei no começo, porque é um baque. É estranho, muda tudo na vida. Eu tive que pesquisar o que era microcefalia e entender que demora mais para o bebê se desenvolver. Eles falam no hospital para a gente não deixar ela cair, não deixar num cantinho quieta, para brincar com ela e estimular a fazer as coisas — relata Thaise.

O programa de reabilitação faz atendimentos periódicos para reduzir as sequelas da microcefalia nos bebês. São atividades de estimulação do desenvolvimento, com o treinamento dos pais para repetirem em casa o que aprenderam no hospital.

— A gente vai ensinando as mães a como brincar, a como fazer a criança sentar, a alimentação, a melhor postura para uma troca de fraldas, para dar um banho. Elas precisam se organizar — diz a terapeuta ocupacional Ana Paula Closs.

O trabalho em equipe ajuda a determinar qual é o melhor plano terapêutico para o paciente, como explica a fisioterapeuta Suyenne Figueiro Vieira.

— A criança pode ter dificuldade para segurar a cabeça, para rolar, para engatinhar. Às vezes ela pode não aceitar o toque, ter alguns movimentos repetitivos. Algumas também podem ter algum tipo de alteração na parte sensorial associado, então também se faz a estimulação visual e auditiva.

A neuropediatra Ellen Siqueira esclarece que a evolução do tratamento também depende da gravidade da lesão cerebral.

— No caso dos pacientes com microcefalia, há uma variedade muito grande na evolução, depende de cada criança. Na maioria dos casos a gente percebe um atraso no desenvolvimento. E a estimulação precoce é muito importante, o mais rápido possível, porque dá o melhor resultado.

Thaise acredita no tratamento e tem esperança de que a filha vai aprender a sentar e a caminhar.

— Ela vai andar, sim, se Deus quiser. E eu vou atrás dela para tudo quanto é canto — diz.


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