Preservação da biodiversidade pode levar a novo ciclo de industrialização, dizem especialistas

Valter Gonçalves Jr. | 31/01/2019, 15h52 - ATUALIZADO EM 31/01/2019, 16h39

No artigo Agro holandês é pop, publicado no jornal O Globo, os cientistas Carlos Nobre, Suzana Kahn e Fabiano Scarano defendem a “bioindustrialização sustentável” e apontam a eficiência da agricultura da Holanda, que mesmo usando entre 5% e 10% de área utilizada pela agricultura no Brasil, fatura mais com as exportações de produtos do agronegócio, altamente tecnológico.

No entendimento dos articulistas, é possível reverter o processo de desindustrialização do Brasil — cada vez mais dependente da exportação de produtos primários (commodities agrícolas e minerais) — a partir da preservação da cobertura vegetal nativa e do investimento em pesquisa científica. “A Quarta Revolução Industrial em curso, em velocidade sem precedentes, integra as tecnologias digitais, biológicas e físicas, no rol das biotecnologias, nanotecnologias e automação, e deverá ser elemento central para a obtenção de valor social e econômico para um novo modelo de uso sustentável da biodiversidade tropical”, afirmam os cientistas.

Enquanto isso, grande parte do debate sobre o desenvolvimento brasileiro segue em torno da expansão da fronteira agrícola. Para Joaquim Maia Neto, consultor legislativo do Senado na área de meio ambiente, é possível manter e proteger as florestas e o cerrado e ao mesmo tempo aumentar a produção de alimentos. Segundo ele, o Brasil ainda pratica uma pecuária de baixíssima produtividade por área. Um pequeno aumento de produtividade liberaria muitas áreas já desflorestadas para a expansão da agricultura.

— Não precisamos desmatar nenhum hectare de vegetação nativa para continuar aumentando a produção agrícola com competitividade por muitos anos. Isso sem falar no investimento tecnológico na própria agricultura. É por isso que considero estranhas a sanha do agronegócio contra as áreas protegidas, as afirmações de que o Brasil tem unidades de conservação e terras indígenas em excesso, e a insurgência contra as obrigações de manutenção de reservas em propriedades privadas. Nós temos áreas legalmente agricultáveis, sem necessidade de desmatamento, mais do que suficientes para sermos muito mais produtivos do que os Países Baixos e até mesmo países de grande extensão territorial — diz o especialista.

Para ele, um grande equívoco dos que criticam o sistema brasileiro de áreas protegidas é o de considerar as florestas como “improdutivas”. Muitas unidades de conservação e as reservas legais são passíveis de manejo florestal sustentável, inclusive manejo madeireiro, sem desmatamento, explica Neto.

— Investimentos em pesquisa e prospecção biotecnológicas costumam ser copiosos em retorno econômico, levando a produção com maior valor agregado e maior geração de empregos do que a agricultura tradicional. Esse pode ser um caminho para as nossas florestas, que podem gerar divisas sendo mantidas "em pé" — afirma o consultor.

Novos modelos

Presente na Conferência do Clima (COP 24) das Nações Unidas, realizada em Katowice, na Polônia, em dezembro do ano passado, o senador Jorge Viana (PT-AC), que encerra seu mandato neste dia 31 de janeiro, foi o relator da Comissão Mista Sobre Mudanças Climáticas do Congresso Nacional (CMMC). Ele afirmou que os parlamentos do mundo discutem o que precisa ser feito para estimular novos modelos de desenvolvimento.

— Não é só ratificar o Acordo de Paris, mas todo o aparato de legislação voltado para uma economia de baixo carbono [que diminui o impacto da produção e queima de energia, bem como a emissão de gases do efeito estufa]. Agora, como alcançar isso é o problema. Não pode ser algo que venha só do governo, não pode ser de um segmento da sociedade, tem que ser de todos. Parece que não caiu a ficha ainda — disse o senador, lembrando que, de acordo com as Nações Unidas, para cada dólar investido em prevenção de desastres climáticos, são economizados sete dólares em reconstrução.

O senador João Capiberibe (PSB-AP), que também participou da COP 24, lembra que o Brasil é uma “potência ambiental” e é preciso manter o seu protagonismo internacional. Já o senador Paulo Rocha (PT-PA), autor de projeto (PLS 388/2018) que estimula a produção científica na Amazônia, observa que grande parte da cobertura vegetal da região já foi dizimada. Para ele, apesar dos esforços do governo federal e de instituições para conter as atividades predatórias, o desenvolvimento sustentável ainda “caminha a passos lentos”. A inversão desse modelo, ressalta, só é possível com o domínio do conhecimento sobre a biodiversidade.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)