Há 20 anos Senado liberava uso de calça comprida para mulheres no Plenário

Patrícia Oliveira | 14/03/2017, 18h36 - ATUALIZADO EM 14/03/2017, 19h27

A primeira vez que uma mulher teve permissão para usar calça comprida no Plenário do Senado foi há duas décadas. O uso do traje era proibido até 1997, quando um ato do então presidente, senador Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), permitiu a entrada e a permanência de mulheres com essa vestimenta. O uso também foi liberado nas salas das comissões, na sala do café dos senadores, na tribuna de honra e na bancada de imprensa.

Uma questão simples, mas que só foi resolvida há 20 anos, revela como ainda é recente a participação das mulheres na vida política do país. Eunice Michiles, a primeira senadora eleita do Brasil, assumiu o cargo em 1979. Na época não havia nem mesmo um banheiro feminino no Plenário. Atualmente, a Casa tem 13 senadoras.

Dentro do fusca

Ainda nos anos 70, quando trabalhava como jornalista, a senadora Ana Amélia (PP-RS) se destacou como a primeira mulher comentarista de economia no Rio Grande do Sul. Ao viajar para cobrir a Festa da Uva no interior foi informada que não poderia entrar no evento de calça comprida. Como havia levado um vestido, voltou para o carro e trocou a roupa ali mesmo, dentro de um fusca, protegida por um policial militar.

— Eu sou uma pessoa muito prática. Entre contestar uma regra que não ia ser mudada naquela hora e fazer o meu serviço, eu preferi trabalhar. Essa regra seria mudada posteriormente, mas mesmo no jornal onde eu trabalhava em Porto Alegre era proibido entrar de calça comprida — relata.

No Senado, Ana Amélia é adepta dos elegantes conjuntos de calça social e blazer. Ela aponta o avanço mais rápido das mulheres nas carreiras de Estado, via concurso público, mas acredita que a maior participação na política é uma questão de mudança gradual da mentalidade.

— Os desgastes do processo político, os escândalos, inibem e afastam um pouco as mulheres, mas chegamos em 2010 a ter uma presidente da República eleita pela primeira vez na história do Brasil. Então, eu acho que isso é um passo a passo – avalia. 

Conquista

A Procuradoria Especial da Mulher no Senado é presidida por Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Para ela, os tempos da proibição da calça comprida ficaram para trás, mas demorou muito.

— A permissão tardia mostra o quanto a desigualdade de gênero foi e é naturalizada e precisa ser questionada, tanto nos poderes da República quanto em toda a sociedade. Cheguei à Câmara dos Deputados em 1998 e essa questão havia sido superada naquela Casa graças às precursoras da igualdade, como a deputada Ivete Vargas e ainda as componentes da Bancada do Batom, durante o período da Constituinte, quando eram apenas 25 deputadas e nenhuma senadora — ressalta Vanessa.

Para a parlamentar, a existência da Procuradoria Especial da Mulher, ao debater os temas femininos, “é o melhor exemplo da conquista de um espaço que chame a atenção para esta e outras situações arbitrárias”.

— Aqui conquistamos apenas no ano passado o banheiro feminino no Plenário, veja só — destaca.

Igualdade

Na esteira das mudanças também foi criado o Comitê pela Promoção de Igualdade de Gênero do Senado, que aderiu em 2012 ao Programa Pró-Equidade da Secretaria de Política paras as Mulheres e já ganhou dois selos de boas práticas.

Maria Terezinha Nunes, gestora do programa, avalia que a proibição da calça comprida fez parte de uma cultura mais rígida, que determinava a vestimenta considerada adequada para o homem e para a mulher.

— A mobilização feminina ao longo dos últimos anos permitiu que esses padrões culturais fossem rediscutidos, e com isso a mulher foi se liberando — observa Maria Terezinha.

Entre as ações do comitê está a garantia de igualdade na ocupação de cargos de destaque no Senado. Sem o problema da diferença salarial, o desafio é fazer com que as servidoras, que representam um terço dos ocupantes de função, também tenham acesso aos cargos mais altos. Essa readequação da força de trabalho passa pelo estímulo à participação das mulheres com a oferta dessas posições.

— Independente de terem filhos ou não, é preciso oferecer e deixar que elas decidam se aceitam o cargo. Às vezes você reproduz estereótipos sem sentir, como o de que as mulheres não podem se dedicar à vida profissional por causa da preocupação com a vida doméstica. Esse estereótipo sobre o que as mulheres podem fazer ou o que podem vestir traz prejuízos para elas — constata.

A exigência do uso de vestido ou saia para o acesso ao Plenário retratava a cultura do país. O uso da calça comprida por mulheres, mesmo nas ruas, foi motivo de escândalo até meados do século passado.

Pela praticidade, a peça, antes considerada exclusiva do guarda-roupa masculino, agora está entre os trajes preferidos das mulheres no Senado.

— Se a gente deixar ao sabor do tempo, demora demais para as coisas acontecerem. Os movimentos feministas foram um impulso maravilhoso para desnaturalizar esses padrões rígidos. E essa cultura vai mudando, graças a Deus — comemora Maria Terezinha.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)