Simon quer seguir exemplo de Teotônio e percorrer o país
Paola Lima | 23/12/2014, 15h37
A campainha toca encerrando o tempo do discurso na tribuna do Senado e a plateia parece nem ouvir. O orador segue falando, com a eloquência revelada nos gestos e nas mudanças de tom de voz. Os dez minutos a que teria direito para se pronunciar se transformam em 30, até 40, sem que ninguém ouse interromper.
Na tribuna está Pedro Simon (PMDB-RS). Aos 84 anos, o senador gaúcho conquistou como poucos a atenção e o respeito de seus pares. Seus discursos não passam despercebidos e, em várias oportunidades, mudaram nomes do primeiro escalão e interferiram nos rumos da política nacional. Como em 1998, quando conseguiu afastar, depois de um discurso incisivo, o então ministro das Comunicações, Mendonça de Barros, acusado de envolvimento no escândalo do grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Em mais de cinco décadas de vida pública — sem que se tivesse passado um dia sem exercer cargo público, como ele mesmo faz questão de ressaltar — tornou-se não apenas um político experiente. Sua trajetória, iniciada na década de 60, na Câmara Municipal de Caxias do Sul, cidade natal no interior do Rio Grande do Sul, foi marcada pelo estilo combativo, incansável na luta contra a corrupção e a impunidade, e acabou por elevá-lo ao papel de porta-voz da ética na política brasileira.
Em 31 de janeiro de 2015, dia de seu aniversário, Simon encerrará seu terceiro mandato consecutivo no Senado Federal — o quarto no total — e se afastará da vida pública, mas se prepara para percorrer o Brasil.
Aos 85 anos, irá repetir as andanças que fez quando era coordenador do Movimento pela Anistia, ao final dos anos 70, ao lado do senador Teotônio Vilela. Diz ter hoje mais disposição e saúde do que Teotônio, vítima de um câncer, tinha à época. Sua intenção é mobilizar a sociedade para que participe mais ativamente da vida política no país.
— Eu acho que o povo deve participar, dizer presente, em todos os momentos. O povo deve debater, e isso eu pretendo fazer: convidar as pessoas a irem para fora, a virem discutir o momento do país — tem repetido em Plenário.
Carreira política
Pedro Simon começou a vida pública em 1958, ao se eleger vereador numa época em que vereadores não recebiam salários. Em 1962, concorreu a uma vaga de deputado estadual, cadeira que ocupou por quatro mandatos seguidos, até 1978. Da assembleia legislativa, partiu para o Senado.
Eleito, vivenciou nessa primeira passagem pela Casa o que considera um dos melhores momentos de sua vida pública: a mobilização popular contra a ditadura militar. No meio do mandato, quando ocupava também o cargo de vice-presidente do PMDB, foi nomeado coordenador nacional da campanha pela aprovação da proposta de emenda à Constituição, que acabaria com as eleições indiretas para a Presidência da República, que ficou conhecida como Diretas Já.
O senador lembra que, mesmo sem redes sociais e as facilidades de comunicação dos dias atuais, centenas de milhares de pessoas foram às ruas pedir eleição direta para presidente. Com a rejeição pelo Congresso da emenda que permitia a eleição, foi Simon um dos articuladores para formação da Aliança Democrática, que elegeu Tancredo Neves e José Sarney para a Presidência e Vice-Presidência da República em 1985. Ainda que de forma indireta, pelas regras do regime, esta eleição acabaria com a ditadura militar.
Escolhido por Tancredo para ser ministro da Agricultura, Simon foi confirmado no cargo pelo vice José Sarney, que assumiu a Presidência após a morte do presidente eleito, em 21 de abril de 1985. Sarney manteve a equipe escolhida por Tancredo, com o intuito de assegurar o processo de redemocratização do país. Simon foi ministro por dois anos e saiu quando se elegeu governador do Rio Grande do Sul, em 1987.
Desse período, se orgulha, entre outras coisas, de ter conseguido reduzir o valor da dívida do estado em 16%. Como governador, implantou eleição direta para diretores de escolas e comprou terras em nome do estado para implantar a reforma agrária.
Impeachment
Em 1991, foi novamente eleito senador e teve um segundo mandato mais uma vez pontuado por feitos políticos importantes: coordenou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que levou ao impeachment do então presidente Fernando Collor e participou da CPI dos Anões do Orçamento. Em sua avaliação, um dos momentos mais dramáticos da política brasileira.
Em meio à crise, aceitou o convite para ser líder do governo de Itamar Franco no Senado, que assumiu a Presidência da República após a saída de Collor. No posto, ajudou a estabilizar o Congresso Nacional num momento de pouca credibilidade junto à população. O próprio Simon conta que, numa reunião de líderes partidários, explicou que a posse de Itamar não foi vontade do povo, mas consequência da votação pelo Congresso do impeachment de Collor. Por isso, merecia um esforço de entendimento por parte dos parlamentares.
O objetivo era votar o Plano Real, que acabou mudando de vez a economia do país. Para Simon, a história ainda não deu a Itamar o devido crédito pelo governo que comandou.
Em 1999, foi reeleito senador e novamente em 2006, exercendo seu terceiro mandato consecutivo na Casa. O combate à corrupção não se limitou aos discursos. Foi um dos articuladores, em 2010, da aprovação da Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, que impede a candidatura de políticos que tiveram o mandato cassado ou que foram condenados em processos criminais.
Nas últimas semanas na Casa, frequentador assíduo da tribuna do Senado, tem sido enfático nas críticas à atual forma de se fazer política no país — na base do toma lá, dá cá.
Ordem franciscana
Filho de libaneses católicos radicados no Rio Grande do Sul, caçula e único homem de uma família de quatro irmãos, Simon é casado e pai de quatro filhos homens — Tiago, Tomaz, Mateus (que faleceu precocemente em um acidente de carro) e Pedro. Todos ingressaram na advocacia, a exemplo do pai, advogado com especialização em Economia Política pela Universidade de Sorbonne (Paris). Tiago Simon, 44 anos, o mais velho, acabou de ser eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul.
Devoto de São Francisco de Assis, chegou a questionar a crença diante da trágica morte do filho Mateus, ainda criança, em um acidente de carro, em 1984. Um ano e meio depois, sua primeira esposa, Tânia, também veio a falecer.
Anos depois, reencontrado com a Igreja, ingressou na Ordem Terceira de São Francisco. Por devoção, fez voto de pobreza, distribuindo os poucos bens — cotas de sociedade na loja de tecido herdada dos pais, um apartamento em Porto Alegre, uma casa no litoral gaúcho — entre filhos e irmãs. A conversão à ordem foi marcada, em 2000, com uma peregrinação de seis dias pelos 136 quilômetros que separam Fortaleza de Canindé, no sertão cearense.
— São Francisco é o homem do milênio — costuma dizer. É um exemplo assim que ele aprendeu a seguir.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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