Wladimir diz que trabalhava ‘de forma lícita’ para Cachoeira

Anderson Vieira | 24/05/2012, 15h43

O ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Wladimir Garcez Henrique, negou pertencer a qualquer tipo de organização criminosa e disse ter prestado apenas trabalhos lícitos à construtora Delta e ao empresário Carlos Cachoeira, acusado de corrupção e exploração de jogos ilegais. Aparentando nervosismo, durante pouco mais de 20 minutos, o ex-vereador leu um texto se defendendo das acusações à CPI que investiga as relações do contraventor goiano com agentes públicos e privados.

Numa reunião tensa, marcada por divergências políticas e debates sobre a necessidade de convocação de governadores, Wladimir foi o único dos três depoentes a falar nesta quinta-feira (24). Os outros acusados de participar do esquema de Cachoeira, Jairo Martins de Souza e Idalberto Matias de Araújo, também conhecido como Dadá, preferiram ficar calados, exercendo o direito constitucional de não fornecerem provas contra si mesmos.

Salário de R$ 20 mil

Preso pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, Wladimir Garcez é apontado como um dos principais colaboradores de Cachoeira. O ex-vereador disse estar preso há 86 dias ilegalmente, visto que é acusado de crimes para os quais não cabe prisão preventiva.

O político informou que foi contratado para prestar assessoria ao ex-diretor regional da construtora Delta, Cláudio Abreu, e recebia R$ 20 mil. Também assessorava o empresário Carlos Cachoeira, recebendo R$ 5 mil pelo serviço.

– Não sou deliquente, nem criminoso. Tenho história e tenho família. Atuava sob o ponto de vista institucional, nunca com assuntos ilícitos. Também não participava de processos licitatórios da empresa – disse.

Ainda de acordo com o político goiano, as gravações feitas pela Polícia Federal são ilícitas, pois foram autorizadas por juiz sem competência para tal.

– Não reconheço a validade jurídica das gravações até porque muitas delas foram editadas e muitos diálogos foram ocultados. E não se sabe o porquê.  Por isso, peço zelo para análise destes áudios – afirmou.

Casa

Wladimir informou aos parlamentares que foi ele e não Cachoeira quem quis comprar uma casa de luxo do governador de Goiás, Marconi  Perillo (PSDB). O imóvel estava à venda por R$ 1,4 milhão e, para efetivar a compra, Wladimir disse que pediu dinheiro emprestado para Cláudio Abreu, que lhe repassou três cheques.

– Minha intenção é fazer negócio, revendendo a casa por valor maior, mas não consegui. Cláudio passou a me pressionar e finalmente consegui passar a casa para o professor e empresário Valter Paulo e quitar minha dívida – explicou.

O ex-vereador ainda negou ter entregado dinheiro no palácio do governo de Goiás, conforme indicam interceptações telefônicas da Polícia Federal.

– Repassei os três cheques, assinados nem sei por quem, para um assessor do governador – resumiu.

As explicações não convenceram o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), que, ao deixar a sessão, disse estar convencido da relação próxima entre Cachoeira, Cláudio Abreu,Wladimir Garcez e Marconi Perillo, governador de Goiás.

– Este senhor era operador político da organização criminosa de Carlos Cachoeira. Já foi condenado por improbidade administrativa e mantinha relações com o governo do Estado de Goiás. O depoimento de hoje confirmou que ele tem uma relação íntima com Marconi Perillo, pois ninguém entrega R$ 1,4 milhão na mão de uma pessoa que não confia – disse.

Divergências políticas

Depois de iniciar uma série de perguntas a Wladimir Garcez, o relator foi alvo de críticas de parlamentares da oposição. O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), por exemplo, afirmou que os questionamentos estavam sendo direcionados para atingir somente o governador Marconi Perillo, e o PSDB.

– A relatoria formular tão somente perguntas direcionadas para atender à determinação palaciana não é postura de parlamentar que exerce papel de magistrado, com a isenção que deve ser exigida – afirmou o deputado.

Em defesa do relator, o senador José Pimentel (PT-CE) afirmou que todas as perguntas feitas por Odair Cunha tiveram como base o inquérito criminal.

– As questões foram todas corretíssimas. Partiram todas do inquérito criminal e da representação feita pelo Ministério Público Federal. Ele está identificando os depoentes, pegando as provas já feitas pela Polícia federal – disse José Pimentel.

Próximos interrogatórios

Para a próxima quarta-feira (30), também às 10h15, estão marcados os depoimentos de mais três pessoas: José Olímpio de Queiroga Neto, acusado de gerenciar a organização no entorno do Distrito Federal; Gleyb Ferreira da Cruz, apontado como laranja; e Lenine Araújo de Souza, apontado como contador do grupo e gerente do jogo do bicho comandado por Cachoeira.

Antes disso, na terça-feira (29), a CPI receberá Claúdio Abreu, ex-diretor regional da Delta. Na mesma ocasião, ficou definido, depois de muita discussão entre os parlamentares, que será realizada também uma reunião administrativa para votação de requerimentos, entre eles os que pedem a convocação dos governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; do Distrito Federal, Agnelo Queiroz; e de Goiás, Marconi Perillo.

Os parlamentares pretendem apreciar também requerimentos que pedem a quebra dos sigilos bancário, telefônico e de dados.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)