Debates presidenciais foram incapazes de discutir questões essenciais para o país, diz Cristovam
Da Redação | 25/10/2010, 18h16
Em pronunciamento nesta segunda-feira (25), o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que os debates presidenciais têm sido incapazes de abordar questões fundamentais para o futuro do país, embora tanto a candidata do PT, Dilma Rousseff, como o candidato do PSDB, José Serra, sejam "personalidades marcantes", oriundas das forças progressivas do espectro político, tendo lutado contra o regime militar (1964-1985) e tido participação ativa em governos democráticos.
- Lamentavelmente, a gente não está vendo o debate que deveria provocar o povo brasileiro a repensar o seu futuro. Para onde vamos? No máximo, discute-se como avançamos mais rápido, mas não para onde avançamos - afirmou.
Em relação à política internacional, Cristovam disse que os debates não fizeram menção ao Brasil no mundo global, "que é onde vamos estar nos próximos anos e décadas". Segundo ele, "não houve debate sobre qual é o tipo de crescimento que vamos ter e nem sobre a crise no mundo de hoje, que está em chamas".
- Portugal, Espanha, a França, cheia de greves. A Grécia com manifestações quase que diárias. A Alemanha em crise. A Inglaterra com o maior corte de gastos que já se viu na história. A Europa inteira está em crise. Os Estados Unidos já vêm nessa crise desde 2008. A China ocupando um espaço que ninguém imaginava há vinte anos ou mesmo há dez anos - afirmou.
Cristovam disse ainda que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi muito feliz ao cunhar a expressão 'nós vivemos uma guerra cambial', tendo em vista que, "dependendo do que cada país faz com sua moeda em relação às outras, o Brasil sofre ou não sofre".
- Isso não entrou no debate, sobretudo com a profundidade que deveria. Hoje esses países estão em crise de um modelo, não é a crise no modelo, não é crise da taxa de câmbio apenas. Não é da taxa de juros, apenas. Não é do desemprego, apenas. Não é uma crise de taxas, é uma crise de concepção do modelo sócio-econômico - afirmou.
Embora, como salientou, o Brasil tenha uma imensa dívida interna, Cristovam disse que o que mais o preocupa hoje é a dívida das famílias para manter o padrão de consumo necessário com vistas a dinamizar a produção econômica e gerar emprego, realimentando o ciclo do consumo. Ele explicou ainda que o controle da crise financeira gera crise no crescimento, tendo em vista a redução de gastos públicos, e que o aumento da confiança do investidor estrangeiro talvez não seja suficiente para aumentar investimentos e produção, "se não tem quem compre".
Cristovam citou ainda o problema da crise ambiental, do aquecimento global e da destruição da natureza, que no futuro poderão afetar a produção agrícola, aumentando o preço dos alimentos e gerando fome. Segundo o senador, o crescimento é "quem vai pagar o pato" na tentativa de controlar a produção para garantir o equilíbrio ecológico do planeta.
- E a gente não vê esse debate entre os candidatos, que o problema está no crescimento. É o crescimento que provoca, porque exige o endividamento. É o crescimento que provoca a crise ambiental - afirmou.
Cristovam ressaltou ser comum ouvir que "o crescimento é uma necessidade e que temos que ampliar, aumentar a taxa de crescimento". Em sua avaliação, "ninguém fala que o crescimento é o problema porque isso levaria a defender uma posição que certamente é um desastre eleitoral".
O senador disse ainda que uma idéia que começa a tomar conta de diversos públicos intelectuais europeus, ainda não grupos políticos, é a do 'decrescimento feliz', segundo a qual "é possível e até necessário reduzir o crescimento da produção material para que as pessoas possam viver mais felizes".
- O problema do endividamento está no crescimento. O problema ambiental está no crescimento. O problema dos gastos públicos está no crescimento. Sem o crescimento, isso não ocorreria. Mas ninguém debate o crescimento. Ninguém discute que o crescimento precisa ser contestado pelo menos no debate, o que é o mesmo que dizer 'qual crescimento' e não 'como crescer' - afirmou.
Citando o exemplo da industria automobilística, Cristovam disse que o aumento da produção de carros gera primeiro o endividamento, "porque não se vende automóvel sem divida". Em segundo lugar vêm os engarrafamentos, "pois não tem dinheiro que chegue parar mudar a infraestrutura de um pais, de uma cidade, na velocidade com que aumenta o número de carros". O aumento do sistema viário, para a absorção crescente de novos automóveis em circulação, gera aumento do gasto publico e diminui investimento em água, saneamento, educação e saúde.
- Toda vez que a gente tem um engarrafamento monumental, o PIB [Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país] aumenta, porque cada litro queimado de gasolina, mesmo que não o leve de um lugar a outro, aumenta o PIB. Quanto mais desperdício, mais aumenta o PIB. Tinha alguma coisa errada nisso. E ninguém vê esse debate entre os candidatos a presidente - afirmou.
Cristovam Buarque disse que a candidata a presidente do PV, senadora Marina Silva (AC), que obteve quase 20% dos votos, 'tangenciou isso, falou da necessidade de mudar o modelo, falou em quem precisava ajustar e não mais ficar procurando só o crescimento, mas também procurando o bem-estar, a felicidade que pode vir do aumento da produção de bens imateriais que não poluem, que não geram a crise ambiental".
- Um sistema de transporte público é muito mais eficiente de que basear o transporte de pessoas no automóvel privado. Mas fale isso e a derrota é certa, porque as pessoas não querem debater. E a não debater, a gente vai seqüestrando o futuro do País.
O futuro do Brasil está seqüestrado pela incapacidade do debate eleitoral colocar na pauta os grandes problemas de longo prazo e globais do País - afirmou.
Cristovam disse que 'nós estamos sequestrados pelo curto prazo e pelo provincianismo ou nacionalismo, sem perceber que a dimensão dos nossos problemas é maior de que nós somos, é o mundo inteiro que traz e que leva nossos problemas"
- A gente não vê o mundo no debate dos presidenciáveis. Não vemos o aspecto da globalização sendo debatido nesse processo eleitoral. Não vemos o tema de que tipo de desenvolvimento Tínhamos ficado até abaixo dos temas pequenos. Ficamos num debate quase que tão baixo que eu diria que foi subterrâneo, porque nem o problemas pequenos nós debatemos - concluiu.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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