Descontinuidade da ação pública leva saúde em Marajó a 'situação desesperadora'

Da Redação | 07/10/2009, 15h11

Em audiência para debater o surto de malária no município de Anajás, no Arquipélago do Marajó (PA), o prefeito da cidade, Edson da Silva Barros, admitiu que o problema está na falta de continuidade das ações de combate à doença. O prefeito informou que, embora na última ação estadual tenha sido investido R$ 500 mil em três meses, o trabalho dos técnicos, segundo ele, foi falho, impedindo o sucesso no controle da doença.

- De janeiro a setembro, tivemos mais de 19 mil casos, quando a população é de 25 mil habitantes. A situação é desesperadora - afirmou. O prefeito de Anajás participou nesta quarta-feira (7) de debate sobre o tema na Comissão de Assuntos Sociais (CAS).

Para Edson da Silva Barros, é necessário investir no combate da larva do mosquito transmissor, na redução da população de mosquitos e no tratamento adequado aos pacientes. O prefeito criticou, porém, a dificuldade de coordenação das ações a serem adotadas.

- Para onde se vira, a situação é de calamidade. Tem casos em que a pessoa já teve malária teve 40 vezes - assinalou.

A secretária de Saúde do município, Dilma da Silva Soares, apontou a dificuldade de contratação dos agentes comunitários de saúde, pelo excesso de exigências do Ministério da Saúde. Ela também pediu melhor capacitação dos profissionais e o envio de mosqueteiros para as 14 localidades atingidas, como medidas para reduzir as ocorrências de transmissão da doença. Dilma Soares solicitou ainda a liberação de recursos de emenda parlamentar apresentada pelo senador Tião Viana (PT-AC), para financiar ações de mobilização social no combate à endemia.

Fracasso na coordenação das esferas governamentais

Dom Luiz Azcona Hermoso, bispo prelado do Marajó, deu depoimento enfático sobre o que considera incompetência na gestão dos recursos financeiros e humanos na condução das políticas de combate à doença. O resultado, avalia, é a "forte politização da saúde" e o prejuízo à população de Anajás.

Segundo ele, fracassou o Plano de Desenvolvimento Integral e Sustentado do Marajó, implantado por ocasião de um surto violento de malária em 2006 e que contou com a participação de 18 ministérios e secretarias estaduais de saúde.

- O fracasso do plano e a inoperância do governo do estado e da União são realidades conexas - criticou.

Para o bispo, o distanciamento da realidade torna a aplicação das políticas públicas equivocada, com responsabilidades sendo distribuídas "de forma confusa" entre os níveis federal, estadual e municipal. O bispo afirmou que representantes do governo federal estiveram no local em julho e reconheceram a falta de efetividade das ações, comprometendo-se a dar solução ao problema, o que não ocorreu até o momento.

- O que ocorre é a aplicação indiscriminada de ações, de fármacos e de tratamentos. Esse é mais um exemplo de colonialismo na Amazônia, como sempre aconteceu - protestou.

Dom Luiz Azcona avalia que a situação em Anajás é uma questão humanitária, tal a gravidade da doença que, informou, atinge especialmente crianças e mulheres grávidas, com reincidência que provoca outras doenças igualmente graves, como a febre purpúrica. Afirmou ainda que a população está descrente da possibilidade de solução definitiva para o problema.

Capacitação

Já o prefeito do município de Portel, Pedro Rodrigues Barbosa, que também preside a Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó (Amam), enfatizou a necessidade de recursos financeiros, técnicos e humanos, com a capacitação dos agentes de saúde antes do início da época de chuvas na região, em dezembro.

- Pior que não tomar o remédio, é tomar uma dose pela metade - avaliou.

Pedro Barbosa ressaltou também que a malária prejudica o turismo na região.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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