Citando Toffler, Mão Santa diz que instituições como o Senado 'estão obsoletas'

Da Redação | 17/08/2009, 19h03

Citando o livro A Terceira Onda, de Alvin Toffler, o senador Mão Santa (PMDB-PI) pregou, nesta segunda-feira (17), a necessidade de mudança das instituições políticas, de modo a fazer frente aos desafios de uma nova sociedade. O parlamentar recomendou aos atuais políticos "inspirações" como as que tiveram os homens que criaram a instituição do parlamento.

- É isso: o mundo da terceira onda é muito acelerado. Nós somos muitos lentos. Isso é o que está havendo nessa desmassificação. Então, não é aqui, no Senado [brasileiro]. É a estrutura criada para vivermos esses momentos democráticos - não somos nós - que ficou absoleta - avaliou Mão Santa.

A análise feita por Toffler em A Terceira Onda encontra-se no capítulo O Mausoléu Político, disse Mão Santa, que reproduziu um trecho: "Então, estão tornando o Congresso, outrora [lugar] de sínteses e debates cuidadosos e ponderados, no alvo do riso de toda a nação". O senador disse entender que o escritor refere-se aos congressos dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Mas ressaltou:

- Atentai bem para o nosso raciocínio. Estão tornando o Congresso, outrora [lugar] de sínteses e debates cuidadosos e ponderados, no alvo do riso de toda a nação.

O senador dirigiu-se também ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), para dizer que leu trechos do livro de Toffler para o senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

- Esse negócio de Senado já foi previsto, então, para que Vossa Excelência saia daqui. E eu diria, com uma sabedoria que eu aprendi: A inveja e a mágoa corrompem os corações - recitou, esclarecendo que, em sua opinião, há muita inveja da trajetória política e intelectual de Sarney.

Dizendo acreditar que "a ignorância é audaciosa", Mão Santa levou o livro para mostrar a Cristovam. E destacou outro trecho: "Os políticos parecem inúteis para estancar as tendências, sempre desligados dos seus líderes. Esta é, pois, a questão política mais importante por si só com que nos defrontamos: o envelhecimento das nossas instituições políticas governamentais mais básicas. Teremos de inventar novas instituições, como os pais fundadores da América fizeram há dois séculos."

Conforme o senador disse ter apreendido da leitura, as crises vividas por instituições como o Senado fazem parte de um quadro de aceleradas transformações batizadas pelo escritor de "a terceira onda". Toffler observa que há um desgaste das lideranças tradicionais, mesmo no que se refere à religião, remanescentes da primeira onda, a agricultura, que durou 10 mil anos, e da segunda, a era industrial, que compreendeu quatro séculos.

A partir da segunda metade do século 19, o intelecto humano criou, já num cenário de crescentes mudanças econômicas e tecnológicas, novos parâmetros de percepção e atuação na realidade. As instituições políticas ainda ativas hoje, entretanto, foram projetadas "num mundo intelectual, que é quase inimaginável - um mundo que foi pré-Marx, pré-Darwin, pré-Freud e pré-Einstein", de acordo com Toffler.

Dirigindo-se a Cristovam, Mão Santa, lembrou que como um entusiasta da possível candidatura da senadora Marina Silva a presidenta da República, o parlamentar pedetista deveria oferecer à senadora o livro Inabalável, de Wangari Maathai, líder ambientalista que ganhou o primeiro Prêmio Nobel. Ali, Mão Santa chamou a atenção para o trecho que diz: "É incrível o que conseguimos realizar quando somos obstinados o bastante".

Piauí

O senador dedicou outra boa parte de seu pronunciamento a analisar as consequências da administração petista no Piauí para as tendências de voto nas eleições presidenciais do ano que vem. Num confronto entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), sem a presença de Ciro Gomes (PSB), o primeiro ficaria com 60% dos votos, contra 20% da possível candidata do Palácio do Planalto, conforme pesquisas mencionadas por Mão Santa.

Entre os fatores que estariam influenciando a preferência do eleitorado piauiense, a violência ocuparia o primeiro lugar:

- No meu Piauí, que era, há dez anos, pacato, mais rápido do que a gripe do porco que está aí, a epidemia da violência alastrou-se - descreveu Mão Santa. - oje a violência na minha cidadezinha de Parnaíba é aterrorizante.

O outro fator é o desemprego, classificado por Mão Santa como "alarmante" no estado. O senador recordou que nos governos passados foi obtido um grande resultado com esforços para a industrialização do Piauí. Já o atual governo teria agido de maneira "míope" investindo na produção de biodiesel a partir da mamona.

- Passaram-se anos, propaganda, gastos irresponsáveis, incomensuráveis. Criaram três [unidades de produção] no Piauí. Todas três faliram, todas três não foram adiante. Anos e anos de investimento, desilusões e, hoje, milhares de desempregados, decepcionados - relatou o parlamentar do PMDB.

O terceiro e último fator, segundo Mão Santa, é a corrupção. De acordo com o parlamentar, o procurador da República no Piauí, Antônio Cavalcante de Oliveira, remeteu ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, processo contra o governador Wellington Dias e quatro de seus secretários por uso de máquina pública e proveito próprio, com fins eleitorais.

"Assistimos, com freqüência, às denúncias da prática de corrupção, com utilização de dinheiro público, estadual e federal, no Piauí. Este quadro de impunidade não pode continuar. É preciso, encontrada, efetivamente, a culpabilidade dos gestores públicos, que eles respondam, como qualquer pessoa civil, com a devolução do dinheiro e com a prisão dos responsáveis pelos atos ilegais", disse o advogado Antônio de Deus Neto, autor das denúncias contra Wellington Dias, segundo Mão Santa.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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