Cristovam diz que o Brasil se acostumou a comemorar dados "insignificantes"
Da Redação | 05/11/2007, 19h45
Em pronunciamento nesta segunda-feira (5), em Plenário, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que o Brasil vive uma "tradição de acomodamento", ao comentar slogan que circula na Internet, segundo o qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva "está bom demais" para o país.
- Quando comparamos o presidente Lula com os que vieram antes dele, não tenho a menor dúvida em dizer que, se não for o melhor, é um dos melhores. Agora, dizer que está bom para o Brasil é reconhecer que o Brasil não merece, não tem condições de dar um salto muito maior - disse o senador, manifestando a sua tristeza pela acomodação em que caíram os setores de esquerda.
Cristovam disse que a população brasileira acostumou-se a comemorar avanços "insignificantes" contidos em cifras oficiais, deixando de avaliar a distância existente entre as conquistas obtidas pelo Brasil e por nações democráticas desenvolvidas em diversos setores. Ele lembrou que, por ocasião da Independência, o Brasil escolheu como chefe de Estado "o filho do rei do país de que queria se libertar", enquanto os demais países da América Latina optaram por cidadãos locais.
O senador também ressaltou que, enquanto todos os países já haviam abolido a escravidão, o Brasil se contentou em adotar a Lei do Ventre Livre, que concedia liberdade aos filhos de escravas quando eles completassem 21 anos de idade, desde que ao longo desse período não fosse registrada nenhuma fuga em suas famílias.
- O tempo passou e a gente fez a Lei dos Sexagenários. Com 60 anos não dava mais para trabalhar no corte da cana-de-acúcar e na colheita do café. Fizemos a Abolição da Escravatura anos depois, mas sem dar escola aos filhos, sem dar terra aos ex-escravos, mas para o Brasil estava bom demais - afirmou.
Cristovam também lamentou que o Brasil continue a deter a maior concentração de renda do planeta, mesmo que no passado recente o país tenha alcançado a posição de oitava maior economia do mundo. Segundo o senador, o que irá garantir a redução das desigualdades sociais é a oferta de escolas, assistência e saneamento, e não o reforço na renda das famílias atendidas por programas sociais.
- Aí vem um programa que consegue distribuir um pouquinho dessa renda, e distribui R$ 60 por mês. Faz com que alguns saiam da renda zero para alguma renda, passem a comer. Ninguém pode dizer que isso é um salto. Só no Brasil é que a gente diz que isso está bom -afirmou.
O senador também criticou dados do governo que apontam o número de crianças matriculadas na rede de ensino público.
- Dizer que 97% das crianças estão matriculadas significa dizer que 3% delas não estão. Mas para o Brasil está bom demais. Não se analisa que desses 97% a imensa maioria vai à escola só para comer, vai pela merenda, não vai pela escola, que é um restaurante mirim popular. Ficam apenas duas horas na escola. Mas, para o Brasil, está bom demais - concluiu.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
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