Controlador diz que problema em software contribuiu para acidente

Da Redação | 24/05/2007, 14h47

Em resposta a questionamentos do relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Apagão Aéreo, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o presidente da Associação Brasileira de Controladores de Tráfego Aéreo, Wellington Andrade Rodrigues, afirmou, nesta quinta-feira (24), durante depoimento à comissão, que o software usado para monitorar os vôos induziu os controladores de Brasília a erro no dia do acidente entre o Boeing da Gol e o jatinho da American ExcelAire, em setembro do ano passado.

- Na passagem por Brasília, não houve falha de equipamento. Houve um problema de software e isso induziu o controlador a erro - disse.

Segundo Wellington Rodrigues, o software informou ao controlador que o jatinho estava na altitude prevista no plano de vôo (360 no jargão técnico ou 36 mil pés) e não "na contramão" da aerovia, altitude em que se encontrava na realidade (370, ou seja, 37 mil pés), a mesma altitude do avião da Gol. Além disso, contou que o jatinho passou sobre Brasília no momento de "passagem de serviço" entre dois controladores.

Wellington Rodrigues afirmou ainda que deficiências de comunicação - comuns na região do acidente - impediram o contato entre o jatinho e o centro de controle de vôo da capital. Ao responder às perguntas de Demóstenes, Wellington Rodrigues disse também que o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Espaço Aéreo (Cindacta) de São José dos Campos (SP), primeiro a ter contato com o jatinho Legacy, que mais tarde viria a se chocar com o Boeing da Gol, passou orientações apenas sobre o trecho até Brasília (orientando o vôo a 37 mil pés) e não sobre o trecho todo, com as necessárias mudanças de altitude. Mas, segundo Wellington, essa situação é aceitável dentro das regras.

A associação liderada por Wellington Rodrigues representa cerca de 400 controladores. Os profissionais, informou, passam por dois anos de formação para começar a trabalhar e atuam com carga horária de oito horas diárias, com intervalos de uma hora a cada duas horas e meia trabalhadas. A cada três dias trabalhados, folgam dois. Segundo Wellington, os baixos salários levam os controladores a fazer "bicos" como taxista, pintor, entre outras atividades que exercem para complementar salários.

Wellington Rodrigues também afirmou que os controladores não recebem treinamentos e atualizações depois que começam a trabalhar e que a maioria tem conhecimentos limitados de inglês. Contou que apenas em Brasília a Aeronáutica está pagando curso de línguas para esses profissionais.

Em comparação com outros países, o Brasil apresenta limitações na estrutura de controle de vôo, destacou. O nosso país tem apenas quatro centros de controle (Cindactas), enquanto os Estados Unidos, com extensão semelhante ao Brasil, conta com 22 centros. Além disso, nos Estados Unidos e na Europa o trabalho dos controladores é feito por faixas de altitude (alguns lidam apenas com a decolagem, outros com pouso, outros com as maiores altitudes). No Brasil, como explicou, o controlador lida com o vôo da decolagem até o pouso, sem limites.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)