Pioneira na defesa do esporte feminino, Maria Lenk foi presença marcante na CPI da Mulher, em 1977

Da Redação | 20/04/2007, 17h55

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, em 15 de março de 2000, após a realização de sessão solene do Congresso Nacional, a bancada feminina promoveu ato simbólico lançando balões aos céus de Brasília e portando faixas com os nomes das 25 mulheres que mais se destacaram nos 500 anos de história do Brasil.

Desse seleto grupo de personalidades, escolhidas por deputadas e senadoras pelo legado de conquistas que deixaram, a única homenageada viva, e que compareceu ao evento, foi Maria Lenk, pioneira da natação no Brasil, primeira sul-americana a disputar uma Olimpíada, em Los Angeles, em 1932.

- Foi uma mulher extraordinária, à frente de seu tempo. Viveu uma vida de muitos méritos - disse a senadora Maria do Carmo Alves (DEM-SE) ao relembrar a homenagem.

O esporte nacional perdeu um de seus ícones: a reverenciada nadadora brasileira encerrou sua trajetória na última segunda-feira (16), no Rio de Janeiro, aos 92 anos, durante um treino, após um mal súbito. Dedicou-se à natação até o último instante, e nunca deixou de competir.

Em sua extensa carreira, na qual obteve dois recordes mundiais e acumulou 35 títulos, Maria Lenk desenvolveu estilos próprios e foi sempre uma referência para desportistas do Brasil e do mundo. Mas seu pioneirismo não se limitava às raias da piscina, e ela se transformou numa peça-chave na defesa pelo espaço das mulheres no universo dos esportes e na vida social como um todo.

Sua atuação política já a havia trazido ao Parlamento anteriormente: ela foi uma das 39 personalidades dos mais diversificados setores ouvidas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para Examinar a Situação da Mulher em Todos os Ramos de Atividades, conhecida como CPI da Mulher. O colegiado promoveu estudos e audiências públicas, de março a outubro de 1977, para verificar até que ponto a legislação vigente à época contribuía para manter a posição de inferioridade atribuída à mulher e em que pontos deveria ser alterada.

Em seu depoimento, realizado no dia 25 de agosto, Maria Lenk, então com 62 anos, lamentou a baixa participação das mulheres nos esportes no Brasil e disse que havia discriminação. Para ela, a prática desportiva poderia ser uma forma de luta contra as barreiras impostas pelo preconceito.

- Se a posição da mulher na educação física e no esporte no Brasil ainda deixa muito a desejar, isso é conseqüência do conceito geral que se tem da mulher e da posição que se quer dar a ela na sociedade. O modelo de mulher é o de uma criatura frágil, submissa, muito humilde e dependente, incapaz de cuidar de si mesma e de se defender - disse ela na ocasião.

Maria Lenk defendeu, na CPI, a união de homens e mulheres esclarecidos para a adoção de medidas gerais pelo desenvolvimento do esporte feminino no país e por uma modificação na forma de se julgar o papel da mulher em todas as esferas.

Ao final dos trabalhos, a CPI da Mulher concluiu que era "indisfarçável a existência da discriminação contra a mulher em quase todos os setores de atividade humana que compõem o mecanismo da sociedade brasileira". O relatório final propõe alterações legislativas nos mais diversos âmbitos, especialmente no trabalhista, para garantir a igualdade de tratamento entre homens e mulheres.

Dentre as recomendações feitas aos poderes constituídos, há uma que responde às reivindicações da premiada nadadora: o relatório sugere "revogar as determinações vigentes que limitam, quanto à mulher, as modalidades de esporte que pode praticar. E assegurar e mesmo estimular a presença de mulheres nas direções dos órgãos desportivos brasileiros, escolhendo para tais missões, ao lado dos homens, aquelas que notoriamente estão capacitadas a oferecer ao país importante contribuição nesse setor".

Os senadores Marco Maciel (DEM-PE), Romeu Tuma (DEM-SP), Serys Slhessarenko (PT-MT) e Roseana Sarney (PMDB-MA) lamentaram o falecimento de Maria Lenk e apresentaram à Mesa do Senado requerimento de voto de pesar.

- Maria Lenk foi mais que uma pioneira. Foi um exemplo da garra e da coragem das mulheres brasileiras. Fez e marcou a história do nosso Brasil. Viveu abrindo caminhos. E deixou o melhor legado possível: o de que impossível não existe. Assim será lembrada - registrou Roseana.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

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